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sexta-feira, 17 de julho de 2009

Minha Segunda Primeira Missa

Presidindo a Liturgia no rito antigo

Em 23 de setembro cruzei o corridor central de nossa paróquia, fiz a genuflexão e o sinal da cruz enquanto dizia : “In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti.” Assim começou minha primeira Missa de acordo com o Missal Romano de 1962 mais de 22 anos depois de minha primeira experiência celebrando a Eucaristia.

Quando o Papa Bento XVI publicou a carta de 7 de julho eliminando a maioria das restrições para o uso da dita Missa Tridentina, minha reação oscilou entre uma leve irritação (Isso vai criar conflito? Como vamos prover tais Missas?) e vago interesse (Será que há algum tesouro escondido na Antiga Missa?).

Em uma semana, as cartas começaram a chegar. Alguns exigiam Missa em latim todo domingo, insistindo que o Papa havia “ordenado” sua celebração regular. Outros eram mais razoáveis. Em agosto, tive uma reunião com uma dúzia de paroquianos que queriam a Missa. O encontro “esquentou” quando eu expliquei a eles que nunca tinha celebrado a Missa “antiga” como sacerdote, e tinha servido nesse tipo de Missa como coroinha somente por dois anos antes que tudo mudasse. Alguns pensaram que eu estava fingindo ignorância para evitar atendê-los.

Alguns dias após o encontro, eu consegui um Missal de 1962, dei uma olhada e concluí, relutantemente, que eu sabia mais latim do que tinha imaginado. Minhas objeções e minha rabugice original desmontavam sob a força da minha própria auto-imagem pastoral, amplamente formada pelo Concílio Vaticano II. Como promotor da diversidade e do pluralismo na Igreja, como poderia eu me recusar a lidar com uma forma litúrgica aprovada? Como pároco que tenta dar uma resposta a pessoas alienadas pelo que eu percebia como um rígido conservadorismo da Igreja, como eu poderia dar as costas a pessoas alienadas por padres como eu – párocos progressistas do “baixo clero” sem ouvido para a piedade tradicional? Um exame de consciência revelou um desequilíbrio na minha abordagem pastoral: uma abertura de bom grado à esquerda (como feministas, defensores do ‘direito de escolha’, casais em união informal e católicos seculares) e um ceticismo instantâneo para com a direita (tradicionalistas).

Uma vez decidido a oferecer a Missa Tridentina, iniciei o árduo processo de recuperar – e reforçar – minha gramática latina e meu vocabulário para que eu pudesse celebrar a liturgia de uma forma inteligível e devota. Enquanto estudava os textos latinos e rituais intrincados nos quais nunca havia prestado atenção enquanto jovem, descobri que a teologia e a espiritualidade sacerdotal do rito antigo eram exatamente o oposto do que eu esperava. Enquanto eu procurava por uma espiritualidade do “sumo sacerdote / rei da paróquia”, encontrei, ao invés disso, uma espiritualidade do “instrumento indigno a serviço do povo”.

As rubricas excessivamente detalhadas do antigo Missal me fizeram sentir como uma mera máquina, esvaziada de personalidade; porém, pensei, isso é tão ruim assim? Eu de fato me senti liberado de uma constante necessidade de desempenhar, de estabelecer conexão, de ser sempre o celebrante “legal”. Quando eu vi uma foto da antiga Missa latina em nosso jornal local, eu subitamente reconheci a habilidade engenhosa do rito em “encolher” o sacerdote. Visto do balcão do coral, eu era uma mera mancha verde, pequena, perto do grande altar. O foco estava não no sacerdote, mas na reunião das pessoas. E essa não é uma imagem válida da Igreja, o povo de Deus?

O ato de rezar o Cânon Romano vagarosamente e em voz baixa reforçava minha própria pequenez e mera instrumentalidade mais que tudo. Arrastando-me pelas primeiras cinquenta e tantas palavras do Cânon, senti uma intensa solidão. Enquanto prosseguia, no entanto, também ouvia o absoluto silêncio atrás de mim, 450 pessoas de todas as idades rezando, todas ligadas misteriosamente às palavras que eu pronunciava e às ações rituais que eu hesitante e desajeitadamente desempenhava. Em seguida à consagração, eu tive uma experiência paradoxal de intensa solidão ao contemplar o Sacramento e um inexplicável sentimento de solidariedade me conectando à multidão atrás de mim.

Por mais que eu valorize esta experiência, devo confessar que me senti desconfortável, duro, não eu mesmo. Algumas das rubricas, como não usar os polegares e indicadores depois da consagração, a não ser para tocar a hóstia, me paralisaram. Como estilo, realmente não combina comigo (também não me imagino usando renda). Mas, como padre, preciso me adaptar a muitos estilos e desempenhar muitas tarefas custosas. Porque nesse caso seria diferente? Talvez tenhamos aqui uma nova forma de ascética sacerdotal: adaptação pastoral pelo bem de poucos.

Meu relutante envolvimento com a Missa em Latim não minou minha espiritualidade sacerdotal, nascida do Vaticano II. Ao contrário, complementou e reforçou o ensinamento conciliar de que o padre é um instrumento de Cristo chamado a servir a todos, independentemente de estilo litúrgico ou teológico. No fim das contas, pouco importa se a Missa é em Latim ou Vernáculo, se vejo as pessoas rezando ou ouço o seu silêncio. Claro, tenho minha preferência, mas o serviço deve sempre vir à frente disso.

Pe. Michael Kerper é pároco da Paróquia Corpus Christi em Portsmouth, Diocese de Manchester, New Hampshire (NH).

Texto original em Inglês: americamagazine.org

5 comentários:

  1. Piedade, quanta piedade! quando veremos tamanha piedade por parte do(s) celebrante(s) e dos fiéis (absoluto silêncio)que assistem à missa nova?
    Rodney

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  2. Caros irmãos,esse texto nos monstra a fé que esse sacerdote tem por cristo e sua igreja,é o que falta na maioria do clero hoje em dia,falta esses padres perceberem que quem age na liturgia é cristo e não eles.E o que se ver em nossas igrejas é um desreipeito ao povo de Deus que tem direito de ver o seu paroco de batina,ele usando casula,capa de asperge e por que não celebrar a missa em latim para eles.por isso vamos rezar pelos nossos padres para que eles amem mas a igreja de cristo.abraços em cristo

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  3. Esta experiência é motivação para todos. Deus seja louvado por tão exemplar sacerdote.

    Pro Catholica Societate

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  4. A Missa tem como centro Cristo Jesus. Infelizmente os abusos que fazem contra o Novo ordo deslocaram o centro que é Jesus para o padre que se parece mais como um pregador porstestante daqueles de programas de TV evangelicos. Ele parece pelas pavlavras, pelas anedotas, pelos causos e pela criatividade. O Rito anterior não permita isso e embora o padre estivesse todo paramentado e fosse destaque percebia-se que ele estava ali para fazer aparecer a gloria de Cristo e adora-lo juntamnete com o povo. Tudo era para a Glória de Cristo e não para o bem estar da Assembleia...Missas animadas!!!Missas legais? impossivel. Missa é ato exclusivo de Adoração a Deus; o Filho que se oferece ao Pai por nós. Não é show, não e comicio...

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  5. A riqueza litúgico-espiritual da Igreja é belíssima, porém muito mal apreveitada por nossos fiéis.

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