Manchetes

domingo, 28 de março de 2010

Domingo de Ramos - "os filhos dos hebreus"

Entre as glórias da música escrita para a Liturgia Católica estão as composições do padre espanhol Tomás Luís de Victoria, que viveu de 1548 a 1611. Quem procurar seu nome perceberá que Victoria está muito longe de ser um obscuro personagem. Suas obras são muito estudadas e gravadas, tendo reconhecimento não só dos que amam a Liturgia, dentro da Igreja, como daqueles interessados somente na música em si e na História da Música.

Hoje trago ao leitor uma composição do padre Victoria destinada à Liturgia do Domingo de Ramos. Trata-se de uma antífona para a procissão dos ramos, chamada Pueri Hebræorum (“os filhos dos hebreus”). Como já vimos anteriormente, este nome vem das primeiras palavras do texto. Em português:

Os filhos dos hebreus estendiam suas vestimentas no caminho e clamavam dizendo: “Hosana ao filho de David, bendito o que vem em nome do Senhor”.

Em latim:

Pueri Hebræorum vestimenta prosternebant in via, et clamabant dicentes: “Hosanna filio David: benedictus qui venit in nomine Domini”.



Victoria, naturalmente, utiliza o texto latino. Esta antífona é prescrita pela Liturgia tanto no Novus Ordo como no Rito Tridentino.

A música do padre Tomás Luís de Victoria é polifônica. Isto significa que o coro é dividido em grupos, conforme o tipo de voz dos cantores, e cada grupo canta uma linha melódica diferente.

O canto gregoriano é monódico: o coro não se divide e todos os integrantes cantam a mesma linha melódica. Por esta razão, é escrito numa única pauta de quatro linhas.

Já a música polifônica é escrita em tantas pautas quantos forem os grupos de vozes (a que chamamos “naipes”), e cada pauta tem cinco linhas – notação moderna. Esta composição de Victoria que abordamos hoje utiliza um coro dividido em quatro “naipes”. Dizemos “quatro vozes”, mas não são quatro cantores (embora isso seja possível): cada “voz” (ou “naipe”) é cantada por diversos cantores.

Aqui os naipes são identificados como Cantus, Altus, Tenor e Bassus. As designações modernas seriam Soprano, Contralto, Tenor e Baixo. As duas primeiras vozes são femininas, e as outras duas, masculinas. Entretanto, na época de Victoria, as vozes agudas eram cantadas por meninos. Mesmo hoje existem coros que fazem assim. Porém, já é comum que as vozes mais agudas sejam cantadas por mulheres também.



Na música polifônica são utilizadas inúmeras repetições imediatas de palavras e grupos de palavras do texto – diferentemente do gregoriano. Por exemplo: se lermos a parte da voz mais aguda, o texto aparece, no início:

Pueri Hebræorum, pueri Hebræorum, Hebræorum, Hebræorum, vestimenta...

Entretanto, esta simples transcrição das repetições nos pode transmitir uma sensação de repetição inútil e despropositada. Não é o que ocorre na música; muito pelo contrário: estas repetições são necessárias pela própria estrutura da composição. São uma forma de adornar e embelezar o texto, própria da música polifônica, assim como gregoriano tem a sua, os melismas (que já vimos em outro texto: sílabas de longa duração, à qual são cantadas numerosas notas). [Execução: Coro da Igreja de São Clemente, Filadélfia]




Abaixo, em canto gregoriano, as duas antífonas Pueri Hebræorum oferecidas pelo Graduale Romanum. [Execução: Gadium Nostrum]



Finalmente, o gregoriano Pueri Hebræorum com os Meninos Cantores do Núcleo Los Teques, da Venezuela.
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