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terça-feira, 30 de março de 2010

Ritos Iniciais da Missa

Por D. José Palmeiro Mendes, OSB,
Abade Emérito do Abadia Nossa Senhora de Montserrat (Mosteiro de São Bento), no Rio de Janeiro, RJ


Após os artigos que publicamos nos quatro números anteriores de “`Pedras Vivas”, com considerações gerais sobre a liturgia, iniciamos hoje uma série de notas sobre a santa missa, em que faremos observações diversas sobre seus ritos, visando uma melhor participação no santo sacrifício. Aliás, nunca é demais repetir o que já dissemos: o que a Igreja deseja de forma especial é que os fiéis participem da liturgia toda “com conhecimento de causa,
ativa e frutuosamente” (Sacrosanctum Concilium 11). É uma exortação da Constituição Litúrgica do Concílio Vaticano II que é repetida várias vezes por tal documento e que vale de forma especial para o sacrossanto mistério da eucaristia: “A Igreja com diligente solicitude zela para que os fiéis não assistam a este mistério da fé (a missa) como estranhos ou espectadores mudos. Mas cuida para que, bem compenetrados pelas cerimônias e pelas orações, participem consciente, piedosa e ativamente da ação sagrada...”(SC 48).

Não precisamos inculcar aqui a importância da missa para os católicos. “A celebração da missa, como
ação de Cristo e do povo de Deus hierarquicamente ordenado, é o centro de toda a vida cristã tanto para a Igreja universal como local e também para cada um dos fiéis”, diz este documento básico que é a Instrução Geral sobre o Missal Romano (que passaremos a abreviar IGMR) (16). O documento nota que toda a celebração deve ser disposta de tal modo “que leve os fiéis à participação consciente, ativa e plena do corpo e do espírito, animada pelo fervor da fé, da esperança e da caridade. Esta é a participação ardentemente desejada pela Igreja e exigida pela própria natureza da celebração” (18).

Estrutura geral da missa

“A missa consta, por assim dizer, de duas partes, a saber, a liturgia da palavra e a liturgia eucarística, tão intimamente unidas entre si, que constituem um só ato de culto. De fato, na missa se prepara tanto a mesa da Palavra de Deus como a do Corpo de Cristo, para ensinar e alimentar os fiéis. Há também alguns ritos que abrem e encerram esta celebração” (
IGMR 28).

“Os ritos que precedem a liturgia da palavra, isto é, entrada, saudação, ato penitencial,
Kyrie, Glória e oração do dia, têm o caráter de exórdio, introdução e preparação. Sua finalidade é fazer com que os fiéis, reunindo-se em assembléia, constituam uma comunhão e se disponham para ouvir atentamente a palavra de Deus e celebrar dignamente a eucaristia”(IGMR 46).

Início da missa

A missa começa com o canto de entrada (em latim
Intróito).

Ora, queremos chamar a atenção que a Igreja após o Concílio inculca a importância, a obrigação mesmo, da participação da missa toda: “O Sacrossanto Concílio exorta veementemente os pastores de almas a que, na catequese, instruam os fiéis diligentemente acerca da participação de toda a missa, principalmente nos domingos e dias de preceito” (
SC 56).

As novas gerações talvez nem saibam disso, mas a prática pré-conciliar era de que era obrigatória a presença apenas entre o ofertório e o início do rito da comunhão. Isso levava muitos fiéis a chegarem na igreja depois do sermão do padre (alguns homens chegavam até mais cedo, mas saiam na hora do sermão para fumar um cigarro...) e iam embora quando começava a distribuição da comunhão (poucos fiéis comungavam). Quem fazia isso, agia com a máxima naturalidade, pois estava cumprindo o dever de assistir a missa dominical ou festiva. Ora, se alguém faz isso hoje propositadamente, deve saber que não cumpriu o dever. O fiel que chega atrasado deveria, em si, na medida do possível, ir a uma outra missa para dizer que
efetivamente participou da celebração dominical (mas sabemos da dificuldade das celebrações em muitas paróquias e capelas... as vezes aos domingos tem só uma missa, quando tem...). Dizendo tudo isso, não queremos carregar de excessivos escrúpulos (um pouquinho de escrúpulo é sempre bom...) os leitores, mas fazer sim com que procurem fazer todo o possível para que cheguem habitualmente cedo à missa. Para a participação piedosa é conveniente uma certa preparação, fazer alguns momentos prévios de oração particular, de silêncio, quem sabe até ler antecipadamente pelo menos alguns dos textos da missa no folheto ou (o que seria melhor) no pequeno missal dos fiéis.

O que vale para os padres que vão celebrar, vale também, de certa forma, para os fiéis:

“Queixa-se o sacerdote de que, ao entrar no coro para
salmodiar ou ao dispor-se para celebrar missa, imediatamente lhe assaltam o espírito mil coisas que o distraem de Deus. Mas, antes de ir para o coro ou para a missa, que fazia ele na sacristia, como se preparou e que meios escolheu e empregou para concentrar a atenção?” (De um sermão de São Carlos Borromeu, 2ª leitura no Ofício de Leituras na memória deste santo, a 4 de novembro).

Reunido o povo, enquanto o sacerdote entra com os ministros, começa o canto de entrada. A finalidade deste canto é abrir a celebração, promover a união da
assembléia, introduzir no mistério do tempo litúrgico ou da festa, e acompanhar a procissão do sacerdote (cf. IGMR 47).

O canto é executado alternadamente pelo grupo de cantores (se existem) e pelo povo, ou pelo cantor e pelo povo (o que é mais comum), ou só pelo grupo de cantores (o que é mais raro, pois se generalizou a
idéia de que a assembléia deve cantar, escolhendo-se então, por isso, um canto conhecido ou fácil, mas se vê que é previsto que apenas um coral cante, ainda mais uma peça mais difícil).

Pode-se usar a
antífona com seu salmo, do Gradual Romano (como se faz no Mosteiro de S. Bento e em outros lugares em que se cultiva o canto gregoriano), ou então outro canto condizente com a ação sagrada e com a índole do dia ou do tempo, cujo texto tenha sido aprovado pela Conferência dos Bispos (se vê, portanto, que não é qualquer canto que deveria ser usado – pode ser um canto bonito, de sentido religioso mesmo, mas não deveria ser utilizado se não for condizente com a índole do dia ou do tempo litúrgico).

Não havendo canto à entrada, a
antífona proposta no Missal é recitada pelos fiéis (cf. IGMR 48). Creio que isso é raro no Brasil, mas é algo que deveria talvez ser mais freqüente: não seria melhor recitar a antífona de entrada, ou seja, o texto oficial proposto pela Igreja, que é naturalmente condizente com a ação sagrada e com a índole do dia ou do tempo, em vez de um canto proferido por meia dúzia de pessoas e que nada tem a ver com o dia litúrgico? O problema prático é que os fiéis em geral não tem o texto da antífona, a não ser talvez no domingo, se constar do folheto. Seria necessário ser distribuída uma folha ou ficha com tal texto (oportunamente falaremos da antífona de comunhão, que igualmente pode ser recitada em vez de um canto de comunhão).

A Instrução Geral do Missal prevê também a possibilidade da
antífona de entrada ser recitada não por todos os fiéis, mas apenas por alguns deles, ou pelo leitor, ou então pelo próprio sacerdote, que também pode adaptá-la a modo de exortação inicial, como uma monição.

A procissão de entrada

Uma palavra sobre a procissão de entrada. Também ela precisa ser valorizada e ser bem feita. Requer um determinado percurso: nos dias solenes, da sacristia, passando pelo meio da igreja, até o altar; ainda com alguma solenidade, embora menor, aos domingos; mais simples nos dias de semana. Cada igreja tem sua disposição, por vezes não muito boa, mas que tem que se aceitar (por exemplo, a procissão começa na porta da igreja, mas para lá chegar o padre ou os padres e ministros tem que sair da sacristia localizada na frente, passando já pela igreja, pois não há outra porta...). O importante é que todos caminhem em silêncio (como é triste ver certas celebrações em que os concelebrantes vão conversando...), sem pressa, de forma cadenciada. A procissão de entrada nos fala da Igreja peregrina neste mundo, a caminho da casa de Deus na glória eterna.


A propósito, é muito expressivo e bem litúrgico o conhecido canto de entrada:

“Reunidos em torno de nossos pastores,
nós iremos a ti.
Armados com a força que vem do Senhor,
nós iremos a ti.
Professando todos uma só fé,
nós iremos a ti.
Sob o impulso do Espírito Santo,
nós iremos a ti”.

A procissão, a seu modo, é uma pregação: Cristo, o Senhor, está vindo; a cruz
processional é seu sinal; o livro do Evangeliário contém sua Palavra; o sacerdote é sua mão; as velas acesas nos dizem que Ele é a luz do mundo; o incenso proclama: a Ele a glória e o louvor.

O sinal da cruz

“Chegando ao presbitério, o sacerdote, o diácono e os ministros saúdam o altar com uma inclinação profunda” (
IGMR 49). Se o sacrário está no espaço do presbitério, em vez da inclinação se faz naturalmente uma genuflexão diante dele.

(A propósito da
genuflexão, aproveitamos para chamar a atenção de que uma genuflexão é feita para adorar o Santíssimo Sacramento que está no sacrário. Se numa igreja o Santíssimo está numa capela lateral, o fiel que entra na igreja não fará nenhuma genuflexão, mas uma inclinação profunda para o altar, que representa Cristo. Ora, se vê tanto fiéis que entram nas igrejas e de forma automática fazem uma genuflexão, não se dando conta que não está lá frente o Santíssimo Sacramento....)

Em seguida, em sinal de veneração, o sacerdote e o diácono (se houver) beijam o altar, havendo ainda, no caso de missa solene, a incensação do altar e da cruz.

Enfim, concluído o canto de entrada, o sacerdote, de pé junto à cadeira, junto com toda a
assembléia, faz o sinal da cruz”(IGMR 50).

Queremos chamar a atenção para o sinal da cruz. Ele precisa ser valorizado, ele precisa ser bem feito, e não em forma de rito maquinal. Ele já é, em si – na missa e fora da missa – uma breve e bela oração. É o gesto distintivo do cristão. Com ele se dá início a todas as celebrações litúrgicas, não só a da
eucaristia, indicando que ela é realizada em nome da Santíssima Trindade, o mais sublime dos mistérios cristãos, que nos revela a constituição e a vida íntima de Deus.

O excelente
liturgista alemão Theodor Schnitzler, em sua obra muito recomendável, lamentavelmente esgotada, “Missa, mensagem de vida” (Edições Paulinas 1978, tradução do nosso monge D. Mateus Rocha), observa: “A missa começa no batismo. Quando uma pessoa se faz cristã, derrama-se água sobre sua cabeça, em forma de cruz, e pronunciam-se as palavras: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Quando o cristão celebra a eucaristia, ele se recorda do começo e da fundação. Só o batizado é que pode celebrar ou participar da celebração eucarística” (p. 64).

E mais adiante: “A missa começa: “Em nome”, “eis to
onoma”, diz o original grego [expressão impossível de traduzir em nossa língua] e significa, aproximadamente: “Para dentro do nome”, “mergulhando no nome”. Do mesmo modo que a fórmula batismal, que é parte constitutiva do sacramento, nos faz mergulhar na vida e no ser próprio de Deus, assim também a eucaristia nos faz mergulhar, a seu modo, no nome de Deus. “Em nome”: palavras que aqui ressoam como: na essência, no ser, no mar infinito da glória divina” (p. 67).

Feito o sinal da cruz, o sacerdote saúda o povo presente. A chamada “edição típica”, ou seja, a edição oficial, em língua latina, do Missal (3ª edição, ainda não publicada no Brasil), contém três fórmulas de saudação, todas elas tiradas da Escritura.. A
atual edição brasileira do Missal, aprovada pela Santa Sé,apresenta sete fórmulas, que o sacerdote pode escolher livremente, todas igualmente tiradas da Bíblia (a maioria de Cartas paulinas). O Bispo, por antiga tradição, pode escolher ainda uma outra fórmula – “A paz esteja convosco” – que é a saudação de Cristo ressuscitado aos Apóstolos. Esta saudação inicial não é tanto e em primeiro lugar uma palavra de boas vindas, dirigida à assembléia, mas uma saudação em sentido religioso, em virtude de uma vocação e de uma graça divina. A saudação é um desejo de bênção da parte de Deus, que chama seu povo para a Eucaristia, e lhe concede graça e paz.

Ato penitencial

Segue-se o ato penitencial, o qual quer predispor interiormente a
assembléia para bem celebrar a Eucaristia. Ele é importante; não tem caráter sacramental, “não possui a eficácia do sacramento da penitência”, diz, de forma bem explícita, em nova formulação, a Instrução Geral do Missal Romano, 51, mas serve bem para perdoar nossos pecados cotidianos, pecados veniais. O povo de Deus volta-se para seu Senhor, a fim de se reconhecer pecador e se preparar para acolher o dom de Deus. É uma confissão geral de toda a assembléia, rito de reconciliação com Deus e com os irmãos.

A propósito, é bom lembrar o
caráter de penitência e a força expiadora dos pecados que tem toda celebração da Eucaristia. Na Introdução ao Rito do Sacramento da Penitência nota-se que “no sacrifício da Missa a paixão de Cristo se faz presente e a Igreja oferece de novo a Deus, para a salvação de todo o mundo, o Corpo que é entregue por nós e o sangue que é derramado para a remissão dos pecados. Na Eucaristia, Cristo está presente e se oferece como “vítima de nossa reconciliação” e para que “sejamos reunidos num só corpo” pelo seu Espírito Santo” (nº 2). E mais adiante: “De muitas e variadas maneiras o povo de Deus pratica e realiza uma contínua penitência. Participando da Paixão de Cristo pelos seus sofrimentos e convertendo-se cada vez mais ao Evangelho de Cristo pela prática das obras de caridade e misericórdia, torna-se no mundo o sinal da conversão a Deus. A Igreja o expressa em sua vida e o celebra em sua liturgia, quando os fiéis se reconhecem pecadores e imploram o perdão de Deus e dos irmãos, como sucede nas celebrações penitenciais, na proclamação da palavra de Deus, na oração e nos elementos penitenciais da celebração eucarística” (nº 4).

Desde sempre a fuga do pecado foi tida como uma condição extremamente importante para celebrar a Eucaristia o mais dignamente possível e para apresentar-se diante do altar de Deus com as disposições requeridas. Quem se aproxima de Deus deve ter consciência de sua própria indignidade. Isto se vê claramente nas
teofanias do Antigo Testamento. O homem sabe ser indigno e realiza um ato que manifesta esta sua indignidade: como Moisés diante da sarça ardente tira as sandálias ou cobre o rosto e se prostra em terra (lembremos a prostração na solene ação litúrgica da Sexta-feira santa); como Elias, que cobre o rosto com o manto ao se dar conta da presença de Javé no murmúrio de uma brisa suave no monte Horeb. O próprio Cristo recorda que é necessário reconciliar-se com o irmão antes de levar os próprios dons ao altar. A Didachê, escrito possivelmente do séc. II, prescreve (14, 1) que é necessário confessar os próprios pecados para que seja puro o sacrifício que vai ser oferecido. Uma confissão dos pecados não é, por isso, apenas um reconhecimento dos próprios defeitos e da própria indignidade. O crente sabe que a bondade e a misericórdia de Deus pode destruir o mal que está nele. Deseja libertar-se do peso de seus pecados com uma humilde confissão de sua culpa, implorando a graça de Deus, para poder participar dignamente da celebração dos sagrados mistérios. (cf. Johannes Hermans, “La celebrazione dell´Eucaristia – Per una comprensione teológico-pastorale della messa secondo il Messale Romano”, Editrice Elle di Ci, Turim, 1985, pp. 167-168).

A partir desta concepção, se entende porque em vários momentos da missa tenhamos como que outros
atos penitenciais (são as chamadas “apologias”): p. ex., o rito do lavabo e várias das orações antes da comunhão.

O rito penitencial começa com um convite do sacerdote a um reconhecimento das culpas, a um ato interior de arrependimento. Segue-se então uma breve pausa para a reflexão pessoal. Oxalá haja de fato tal momento de silêncio, infelizmente omitido em tantas ocasiões. Não é para durar muitos minutos, mas também não deve ser brevíssimo, que nem permita tal reflexão e exame de consciência. Os fiéis naturalmente precisam saber o sentido deste momento de silêncio e aproveitar bem o tempo para um real exame e reconhecimento de suas culpas e desejo de conversão.
Johannes Hermans, citado acima, fala da indubitável importância deste momento. “Apenas se há este tempo, a confissão comunitária poderá ser realmente fundada num ato pessoal e no recolhimento os fiéis poderão se arrepender. Aqui está o significado do silêncio: que cada um se dê conta pessoalmente do significado e do alcance do rito na própria vida” (pp. 169-170).

O ato penitencial tradicional é o “
Confiteor”, que foi um pouco simplificado no Missal de Paulo VI , acrescentando-se também uma referência o vasto campo dos pecados de omissão. Ele é dito ao mesmo tempo pelo sacerdote e pelos fiéis.

Existem, porém, duas fórmulas alternativas de ato penitencial. A primeira consiste numa dupla invocação à
misericórdia de Deus: dois versículos que são recitados alternadamente pelo sacerdote e pelo povo. Tal ato penitencial é muito breve: para que funcione bem parece ser desejável que lhe seja dado maior relevo, fazendo-o preceder realmente de um conveniente silêncio. É como que um grito da alma: “Tende compaixão de nós, Senhor!” Que seja realmente profundo. A temática desta breve fórmula corresponde parcialmente a Joel 2, 17 (“Entre o pórtico e o altar chorem os sacerdotes, ministros do Senhor e digam: “Senhor, tem piedade [tem compaixão] do teu povo!...) e ao Salmo 84, 8 (“Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade [compaixão], concedei-nos também vossa salvação”).

A segunda fórmula alternativa de ato penitencial, é a mais problemática, pois mistura dois elementos originalmente diversos. Trata-se de uma combinação do “Kyrie” [“Senhor, tende piedade de nós’] (parte que segue imediatamente ao ato penitencial) e de três predicados de Cristo (que viestes salvar os corações arrependidos, que viestes chamar os pecadores, que intercedeis por nós junto do Pai), inseridos no “Kyrie” como invocações ou “tropos”. Há para os diversos tempos do ano litúrgico na edição brasileira do Missal invocações alternativas, algumas talvez não muito felizes, pois não tem sentido penitencial. Poderiam ser criadas pelo celebrante outras invocações mais adaptadas ao dia, mas de fato, pensamos, isto não ocorre com muita freqüência. Cremos, aliás, que esta terceira fórmula de ato penitencial é a menos usada. Um liturgista americano, colaborador do Manual de Liturgia do Pontifício Instituto Litúrgico de Santo Anselmo, observa: “O “Confiteor” e a primeira fórmula opcional são formas de confissão geral, que exprimem um sentido de culpa pessoal e um pedido à piedade de Deus. A fórmula “Kyrie”, porém, tem um caráter muito diferente. (...)além de ser uma fórmula variável, é mais um louvor dirigido a Deus por suas ações misericordiosas do que um pedido de misericórdia. Neste sentido é mais semelhante ao “Gloria” do que ao ato penitencial. (...)” (Michael Witczak, “L´Ordo Missae di Paolo VI – Il Sacramentario”, in “Scientia Litúrgica – Manuale di Liturgia”, vol. III, PIEMME, Casale Monferrato 1998, p. 159). De fato, esta forma não constitui uma confissão explícita de culpa, que fica apenas implícita. O que é plenamente ressaltada é a obra salvífica de Cristo e não a recordação e a descrição dos defeitos e erros humanos.

Enfim, cada uma das três fórmulas de ato penitencial conclui com a mesma oração de pedido de perdão dos pecados: “Deus todo-poderoso tenha compaixão de nós, perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna” (e atenção para o significativo “Amém” da assembléia, “que assim seja”). O sacerdote inclui a si próprio nesta oração de perdão, coloca expressamente a si próprio e a comunidade entre os pecadores diante de Deus. Repitamos o que dissemos no início, usando palavras de Johannes Hermans na obra citada: “A atual oração que conclui o ato penitencial não tem valor de absolvição sacramental em sentido estreito, ainda que se lhe pode atribuir uma eficácia purificadora” (p. 170).

Aspersão dominical da água benta

Falamos de três fórmulas de ato penitencial. De fato existe ainda como que uma quarta, que é destinada à liturgia dominical: o rito da bênção e da aspersão da água. Está num Apêndice do Missal. É um rito que parece datar do séc. IX, mas com elementos já bem anteriores.

Está sendo revalorizado, tanto que na nova edição da Instrução Geral do Missal Romano foi acrescentado o seguinte parágrafo ao nº 51, que trata do ato penitencial: “Aos domingos, particularmente no tempo pascal, em lugar do ato penitencial de costume, pode-se fazer, por vezes, a bênção e aspersão da água em recordação do batismo”.

Ele tem lugar logo após a saudação inicial, substitui em si o ato penitencial e o Kyrie. Pode ser realizado em todas as missas dominicais e não apenas em missas solenes. Quer ser recordação do batismo e pede-se com ele que Deus se digne fazer com que permaneçamos fiéis ao Espírito Santo recebido.

Depois da bênção da água com uma das três fórmulas prescritas e misturado o sal na água (o que é facultativo), tem lugar a aspersão da assembléia. É rito apreciado por nosso povo. Quem está acostumado a este rito por freqüentar igrejas em que se cultiva o canto gregoriano, conhece os cantos que acompanham a aspersão: “Asperges me” ou “Vide aquam” (no tempo pascal). O Missal Romano, contudo, apresenta mais cantos: três para fora do tempo pascal e três para o tempo pascal. Para estas outras fórmulas não existem melodias gregorianas.

Terminada a aspersão, o sacerdote recita uma oração final, pedindo que Deus nos purifique de nossos pecados e nos torne dignos da mesa de seu reino (o que mostra o sentido penitencial que tem o rito, sendo de lembrar o sentido purificador que possui a água e o sal: a água tira as manchas e o sal purifica e conserva. O deixar-se aspergir com a água benta, e portanto santificante, constitui uma confissão de culpa ou um ato penitencial e, ao mesmo tempo, um ato de fé na misericórdia que Deus manifesta a quem com fé participa deste ato penitencial. No sinal da aspersão o crente confessa sua culpa, implora a graça de Deus para poder estar novamente sem pecado, como Deus o tinha feito com o batismo e apresenta-se diante dele para nutrir-se da palavra de Deus e do Corpo e Sangue de Cristo (cf. Hermans, obra citada, pp. 181-182).


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