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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Em defesa das assembleias que não cantam

Este belo texto foi escrito por Jeffrey Tucker, do New Liturgical Movement, e lá publicado em 11 de Abril passado. O Salvem a Liturgia apresenta sua tradução.

* * *

Em defesa das assembleias que não cantam, por Jeffrey Tucker
traduzido por Alfredo Votta

Se você acha que o povo da sua paróquia católica canta bem, faça uma visita à igreja batista da sua cidade. O cantor anunca a música. Todo mundo, sem exceção, pega um hinário. Tocam a introdução e o hino começa. Vem um som que quase te derruba da cadeira. Você canta junto, mas, não importa quão alto você cante, você não faz diferença. Para o batista é um dia normal, mas para o católico é qualquer coisa de muito impressionante.

Por muitas gerações as pessoas se têm perguntado porque as paróquias católicas não fazem assim. Nós bem que tentamos bastante. Nenhuma retórica é mais furiosa do que a dos músicos católicos e suas frustrações com suas paróquias.

E por que as pessoas não obedecem? É como ouvir pessoas denunciando crianças por não ser comportarem direito. Estão sempre exigindo. Até tentam intimar as pessoas à “participação ativa”. Escolhem música com base no tanto que as pessoas vão cantar junto, como se isso fosse a única coisa que importa.

Por décadas isso tem acontecido, e mesmo assim nada muda.

Mas será que não estamos confundindo as coisas? A sensibilidade que leva os batistas a fazer estas coisas não teve que lhes ser imposta. Não houve treinamento. O hino, para tal comunidade, é sua própria voz, música que vem do povo para celebrar sua unidade de propósito e de crença.

É a própria homilia deles, para si mesmos, isto é o que eles são, algo em que eles acreditam como seu e que tem seu propósito interno completamente independente de qualquer ação no altar ou qualquer função litúrgica ou sacramental. Tal canto acontece no mesmo espírito de uma canção patriótica num evento cívico, exceto pelo fato de que a letra é diferente. Não é forçado, é orgânico ao seu modo de culto.

Esse tipo de canto não é orgânico à liturgia católica, cuja música não é um fim em si mesma. Seu propósito é acompanhar alguma outra ação: procissões, meditação de um Salmo entre leituras, diálogos com o celebrante ou alguma outra atividade. O papel do canto cabe primordialmente à schola e ao cantor, não ao povo. E o povo sabe disso. E é assim desde os primeiros registros [da liturgia].

É permitido ao povo (e ele é mesmo encorajado a isso) cantar certas partes especiais como o Ordinário da Missa (e o Sanctus pode ser tecnicamente chamado de um hino), mas a música não está dividida em métrica previsível; a linguagem está em prosa, e não em poesia rimada. Sem exceção, todo católico se reserva o direito se de manter silenciosamente em oração, sabendo muito bem que, ele cantando ou não, isto não faz diferença nas graças oferecidas na Missa. Somos livres para participar externa ou internamente, como desejarmos.

A música é parte integrante da liturgia, nascida nela. Não é o povo quem a faz. Não somos nós que a geramos. O povo pode ser parte dela, mas não é sua responsabilidade. E quando os fiéis cantam, não é para reforçar sua percepção de membros de uma comunidade. É para participar mais inteiramente das ações sagradas que ocorrem de maneira litúrgica. Isto vem de dentro da liturgia, não é imposto de fora. Isto não vem do povo. Vem, sim, da oração na qual o povo é convidado, mas não obrigado, a participar. Você pode fazer todo tipo de convocação, pode gritar e exigir. Mas, no final, o senso católico de papel do povo no canto não vai mudar.

Aqui está a ideia controversa que eu gostaria de colocar: não há nada errado com isso. Na verdade, o povo talvez esteja mais certo do que as “autoridades” que o estão sempre denunciando. E se o povo em algum momento começasse a cantar como batistas, no contexto de cultura paroquial que eu conheço, o novo ethos surgiria em detrimento do foco primário do Rito Romano. O ritual católico não se baseia no povo e não se centra nele. Não é dado pela comunidade como um presente entre os membros. É um dom de Deus que Lhe oferecemos de volta, algo que recebemos humildemente como uma bênção e uma ocasião de graça, enquanto oferecemos nossas vidas de volta para Deus, em sacrifício.

É por isso que o hino – que eu defino aqui como uma música estrófica, dividida metricamente, com rimas e em vernáculo – tradicionalmente não tem lugar na liturgia católica, especialmente na Missa (não incluo os hinos do Ofício, que não se encaixam nesta minha definição). Mesmo os estudos que investigam o uso de hinos da Missa católica encontram esse tipo de hino somente depois do Concílio de Trento, como influência do crescente uso de hinos no culto protestante. Antes disso, o uso de hinos era desconhecido.

O povo não canta a procissão. Não canta o Próprio da Missa. Canta partes da Missa de acordo com a tradição local e o impulso privado, mas nada jamais lhe foi exigido neste sentido.

Em outras palavras, eu sugeriria que há razões tradicionais e válidas pelas quais os católicos não cantam nas celebrações da maneira que os batistas cantam, exceto em ocasiões extremamente raras. Isto nunca será a norma, e se viesse a ser, no contexto cultural atual, eu diria que algo errado aconteceu com o rito.

Uma comunidade elevando a voz dessa maneira sugere uma comunidade em celebração não-sacramental. No contexto católico podemos ver isto numa peregrinação ou numa reunião de celebração em honra a um santo padroeiro. Mas na liturgia é outra coisa que acontece. Estamos transcendendo o que somos e indo além das amarras do tempo e do espaço.

O que devemos sentir é uma grande reverência. Devemos nos tornar gradualmente menos cônscios de nós mesmos e dos outros e cada vez mais conscientes da atemporalidade. O visível está presente, mas nós nos tornamos conscientes do que antes era invisível.

Eu me lembro de um baile de igreja no qual as pessoas gritavam a letra da música que estavam dançando. Não há nenhum problema em que católicos cantem assim neste contexto, com as luzes piscando e os corpos se movendo. O que acontece aí? Nada sagrado, nada milagroso, nada litúrgico. Só uma festa. Nessa situação os católicos cantam como qualquer outro. Por que não fazem a mesma coisa na Missa? Eu diria que se os católicos forem cantar assim na Missa, teremos que recriar a sensação que leva as mesmas pessoas a gritarem num baile.

Imagine observar um milagre mesmo num contexto não-litúrgico. Qual é o impulso: cantar o mais forte possível ou ficar em silêncio? Se alguém interrompe a cena com gritos, nós nos perguntaríamos se essa pessoa está consciente do que está acontecendo. Mesmo no nosso tempo de liturgia mundana e conversas rasas no altar, o senso católico continua sendo o de ver a liturgia como algo solene, não algo que fazemos por nossa própria conta, mas algo a que nos devemos submeter.

O impulso é o de se manter em silêncio. Claro, somos livres para cantar o Glória, os diálogos, o Sanctus, o Agnus Dei, desde que de modo compatível com a atmosfera de oração. Mas sempre tentamos não forçar nossas vozes acima do volume à nossa volta. É um impulso de humildade. Cantar acima dos outros e arrogância são contrários àquilo que acreditamos dever fazer.

Permitam-me esclarecer que não sou diferente de nenhum outro músico católico. Eu gosto de saber que as pessoas estão cantando. Isso me inspira a cantar o Glória e o Sanctus. Eu gostaria de ouvir o Credo cantado por todos, toda semana. Eleva-me saber que a assembleia aprendeu um novo Kyrie e responde bem ao coro.

Tampouco sou ingênuo. Mesmo no volume mais forte, o canto católico sempre será uma fração do volume dos protestantes. O fato é que cantar é o que os protestantes fazem. É o que eles têm. É algo desejado pela comunidade porque eles entendem estes símbolos e propósitos.

O que nós fazemos é diferente. Não estamos num círculo fechado. Colocamo-nos em direção ao Oriente, em direção à eternidade. Isto muda tudo. Devemos permitir que isto aconteça, adaptar a isso as nossas expectativas, e ser gratos pelo fato de que os católicos não perderam completamente o senso de que eles devem diminuir para que Deus cresça.

6 comentários:

  1. Nunca tinha parado pra pensa nisso... ótima reflexão!

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  2. Excelente.
    5 estrelas.
    Seria bom que todos os Padres da Igreja, Una Santa, Católica e Apostólica tivessem em conta estas palavras. A responsabilidade de nos parecermos (ou não), com os protestantes é sobretudo deles, dos Padres, que autorizam ou não determinados cânticos e a forma de os cantar.

    Quando perguntaram a Deus: " - Quem és Tu?" (Antigo Testamento).
    Resposta: ( ... silêncio... ) e depois:
    " - Eu Sou Aquele que É..."

    E o que é a Missa?
    De quem é a Missa?
    Para quem é a Missa?

    A Missa é um acto de Deus para Deus.
    É um acto do Filho para o Pai.
    A Missa é d'Aquele que É.

    (Exemplo): E assim como a cerveja não se contem nos limites de um copo e a sua espuma transborda, assim também Deus, que é Puro Amor, "transborda" de Si mesmo e Ama sem limites.

    A Missa é uma "invenção de Deus" para salvação do homem, para mostrar o Seu Amor pela Sua criatura e para lhe dar todas as "armas" para se salvar. Tudo para Sua Glória.
    Deus é Perfeito; e portanto não é orgulhoso.

    Deus basta-se a Si próprio.
    E aguarda pacientemente que seja a Sua criatura a Glorificá-lo todos os dias, em cada acto dos que dizem amá-Lo.
    Neste sentido, a Missa é também Acção de Graças, de nós para com Deus e é neste espírito que devemos "participar" na Missa, unidos ao Filho que se oferece ao Pai. O nosso melhor exemplo é a atitude de João (o discípulo amado). Ele permaneceu firme, sem medo (sem respeito humano), até ao fim da Paixão. Ele cantou, nessa que foi a primeira e única Missa em acção?

    Hoje, nós Cristãos Católicos, já sabemos o desfecho "dessa Missa".

    A nossa atitude na Missa (agora), é de alegria. Mas alegria contida, agradecidos a Deus, porque o Seu Amor "transbordou" e nos abriu as portas do Céu.
    Na Missa, cantar sim, mas só para dar Glória ao Senhor, nosso Deus.
    Mas, se decididos a cantar, devemos cantar bem. E se a nossa voz não for afinada ou não soubermos o cântico de memória, deveremos cantar muito baixinho, primeiro: para aprender a cantar melhor. Segundo: para que sobressaia quem canta bem, para assim o cântico ser agradável a Deus.
    Para cantar mal, é preferível não cantar.

    Este texto de Jeffrey Tucker é realmente uma óptima reflexão.
    Parabéns.


    José Costa - Sines - Portugal.

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  3. Caro Alfedo, o texto que traduziste é interessante. Bem fundamentado, ele coloca diferenças fundametais entre protestantes e católicos em relação ao canto no culto.

    Porém, minha experiância tem alguns traços diversos, se por influência protestante, não sei, a menos que haja algum elemento de inconsciente coletivo, com que se marcam nossas comunidades.

    Quando o canto, hino, moteto ou antífona é apropriada, tenho a maior alegria de cantar naquela ocasião. Sou responsável por uma Schola Cantorum, mas mesmo quando não é esta Schola que está cantando, um impulso grandioso me leva a cantar unido ao coral. Faz-me lembrar expressões cujo caráter simbólico é forte nas Sagradas Escrituras e nos Santos Padres (p. ex., "a um só coração e uma só voz", "quem canta, reza duas vezes", "cantar é próprio de quem ama, "canta e caminha", a primeira de São Paulo e as demais de Santo Agostinho).

    A verdade é que, quando o canto me leva a oração, esse impulso é espontâneo em minha vida, e minha própria formação católica me levou a isso.

    Assim, pergunto: realmente "o canto católico sempre será uma fração do volume dos protestantes", como o autor acima o declara?

    Santo Ambrósio, 1200 anos de surgir o movimento protestante, já era daqueles que se alegrava em ver toda a assembléia cantando na liturgia. Não é à toa que a musicalidade ambrosiana é mais simples, porém, dela herdou muito o canto gregoriano e outras formas posteriores.

    Em Xto! Parabéns ao apostolado e meu fraterno abraço!

    Emerson Sarmento Gonçalves

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  4. Caríssimo José Costa, agradeço muito pela excelente reflexão que você fez no seu comentário.

    Emerson - compreendo sua ideia e, como podemos ver, o próprio Jeffrey Tucker fala no texto que gosta de ver que o povo está cantando; ele apenas situa este fato no seu devido significado. E, sem dúvida, certas diferenças não são apenas de católicos e protestantes, mas também diferenças regionais entre católicos daqui ou dali.

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  5. Interessante o texto e os comentários. Dá para pensar bastante.

    Eu já vivi duas situações bem curiosas:

    1) Ao final de uma missa em que eu estava tocando, fui conversar com o padre. Ele mesmo falou para que tentássemos ver cantos que todos cantassem. Por coincidência estava um moça próximo de nós que falou: "eu, particularmente, prefiro ouvir a música, pois rezo melhor ouvindo ela do que a cantando".

    2) Na capela que toco em alguns domingos, 7hs da matina, as pessoas, 90% idosas, pedem para que cantemos as músicas do folheto ou que forneçamos as letras de outros cantos que utilizamos, bem como que se alguma parte do ordinário for de melodia nova, que passe antes com a assermbléia. Tipo, com todas as letras me dizem "queremos cantar junto com vcs!"

    Eu gosto de cantar nas celebrações, e me sinto desconfortável quando não conheço a música (basta ter a letra que pego rápido, em vernáculo ou latim).

    Um forte abraço

    João Marcos

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