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sábado, 22 de maio de 2010

"Salvo pela Liturgia" - Uma vocação "fruto de celebrações conforme a tradição da Igreja"

“... se salvarmos a Liturgia, seremos salvos por ela.” (Pe. Paulo Ricardo)

Desde criança, ainda no seio do lar, já batia em mim uma grande vontade de ser diferente, de levar uma vida que não era a que os meus irmãos levavam: cresciam, estudavam, trabalhavam, casavam-se... Mesmo estando numa sociedade onde o capital é o que voga, lá nos anos 1994 o Senhor mesmo já suscitava em mim o desejo de querer servi-lo mais e melhor.

E isto se deu, a princípio, por meio do meu avô Antão – um neto de holandeses que, em sua cidade era o prefeito, o médico, o delegado e o padre. Um típico fazendeiro que, em seu tempo, soube dar respostas aos que lhe eram subalternos e mesmo àqueles que lhe eram iguais.

Cresci sendo levado por meus pais todos os sábados para a sua fazenda para reunir toda a família, na longínqua cidade do sertão pernambucano e rezarmos (cantarmos) juntos o Ofício da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Ficava abismado como um casal de velhinhos sabia de cor todo o ofício. Faziam-nos ajoelhar todos ante um pequeno altar preparado em sua fazenda e cantar, mesmo sem sabermos ainda. E isso me marcou profundamente.

Outro fato foi um encontro que tive com frei Damião de Bozzano, OFMCap., em 1990, em uma de suas missões, na minha cidade. Na ocasião, lembro-me dele ter dito: “menino, você vai preparar o caminho do Senhor...” Mal eu sabia que este seria o lema escolhido por mim, sem esta recordação, para a minha ordenação diaconal, a profecia de São Zacarias: “Serás profeta do Altíssimo, ó menino, pois irás à frente do Senhor para aplainar e preparar os seus caminhos.” (Lc 1,76). Ele estava na sola da sacristia, preparando-se para iniciar a Santa Missa e eu fui com meu avô pedir a bênção. De fato, a profecia daquele santo frei ainda hoje mexe e incomoda, pois me remete ao momento do “primeiro toque do Senhor”.

Depois disso, fui embora para Brasília com os meus pais. A minha grande surpresa e alegria foi saber que a nossa nova paróquia era franciscana! Mas ainda não tinha feito a primeira comunhão. Logo fui inscrito na catequese e, ao mesmo tempo, ingressei no grupo de coroinhas. Inesquecível foi a primeira vez em que servi o altar do Senhor: eu era bem pequenino e ficava atrás do altar, quase que escondido. Em vista disso, por muitos anos fui chamado de “o mascote” do grupo mas, ao mesmo tempo, um dos que mais se dedicavam ao aprendizado dos serviços.

Após a primeira eucaristia, aquela chaminha acesa por frei Damião começou a fumegar mais forte quando soube que o irmão que me precede (sou o sexto e caçula) havia ingressado na Ordem dos Frades Menores Conventuais. Mas não durou muito tempo esta alegria da família, pois o que pareceu uma decepção para todos, foi o meu grande impulso; disse para mim mesmo: “vou terminar o que ele não conseguiu” e isso foi apenas pensado por mim, mas não logo retomado... só cinco anos mais tarde esse pensar voltou ao coração.

Do tempo entre a primeira eucaristia e o Crisma, servi como coroinha e, a cada dia, fui me aperfeiçoando cada vez mais em querer aprender as “coisas da Missa”; e isso, sobretudo, olhando, perguntando (era bastante curioso) e incomodando a muitos com o meu jeito de querer sempre fazer o que era o certo, pois já lia bastante a respeito.

Sempre fui agraciado por Deus por ter os Franciscanos Conventuais ao meu redor. Sempre muito zelosos em tudo o que faziam, procuravam dar exemplos para nós, coroinhas. Recordo-me quando fui escalado pela primeira vez para servir como turiferário: mas, como sempre, muito pequeno, não conseguia levantar a corrente do turíbulo... e chorei porque sempre sonhava com aquele dia e não vingou... Na ocasião, um frei me disse: “não se preocupe, não chore... você ainda vai segurar tanto o turíbulo que pode até cansar, mas será pra sempre.” Suspirando ainda, fui servir sem função naquela Missa, porém, mais tranqüilo com o que ele me havia dito. Desde então, assistia as Santas Missas diariamente: saía da escola e ia direto para a paróquia.

Com este gosto, o zelo pelas coisas do Senhor ia crescendo cada vez mais. Até que chegou o dia em que por lá apareceu e passou o Pe. Marcony Vinícius (hoje Dom Marcony Vinícius) e quis me levar consigo para dar formações para melhor servir durante a Santa Missa. E assim o foi. Foram pelo menos cinco anos de preparações, aulas, enfim, recebia muito e esta consciência crescia cada vez mais.


Mas o fato de estar constantemente na igreja não me fez deixar viver a minha adolescência; ao contrário, vivi-a intensamente!! Porém, de modo diverso, pois me sentia incomodado com algo que ainda não sabia o que era... anos mais tarde, um frade me alertou: “você é um vocacionado!” Aquilo me assustou e quando dei por mim, já estava fazendo os encontros vocacionais, com os Franciscanos Conventuais. Claro que além de uma certa convivência que tinha com os frades, um outro fator primordial, que despertou a minha atenção, foi o uso quando não constante, mas ao menos frequente do hábito! O primeiro atrativo é óbvio que é estético, pois é belíssimo; mas a lembrança do 'tau', do sinal dos escolhidos, da cruz do Senhor me cativou ainda mais e fomentou a busca de querer portá-lo "por todo o tempo da minha vida".

Até que chegou o ano de 2000 – ano jubilar, ano do primeiro Congresso Eucarístico Paroquial da Arquidiocese de Brasília – na minha paróquia. Trabalhei bastante na preparação e execução do mesmo. Já era um cerimoniário (o primeiro de lá) e já estava formando outros também. O desejo de sempre querer aprender mais, saber mais sobre as coisas crescia de forma estupenda. No final deste mesmo ano, fui aprovado para ingressar no ano seguinte na Ordem Franciscana Conventual.

No dia 03 de fevereiro de 2001 pisei no convento Jardim da Imaculada, em Cidade Ocidental-GO, tendo sido levado por um dos primeiros freis missionário polonês que ao “entregar-me” ao formador, disse: “aqui está um futuro bom frade”. E aquilo ficou na minha cabeça.

O ano de 2001 foi bem puxado, mas dentro do que eu esperava; inclusive, pude ajudar na preparação da Sagração Episcopal do Bispo Coadjuntor da Diocese de Luziânia-GO, pois meu mestre era o Mestre de Cerimônias da Diocese, em quem muito me inspirei e me inspiro. Mas seis meses após a Ordenação, o novo Bispo faleceu.

Aqui vale ressaltar todo o zelo e amor de um verdadeiro “pai” (para não dizer “padre”) que o meu mestre passava, ensinava e vivia (e ainda vive); sobretudo, na Santa Missa! É um exemplo para tantos ainda hoje!

No ano seguinte, ano do noviciado – fui com grandes expectativas, por conta de ser o principal ano da vida religiosa e também pelo mestre que teria e que continuava o estilo de zelo e decoro, respeito e amor ao que é realmente da Tradição Católica e Franciscana! Sem delongar-me aqui, quero chamar a atenção para o fomento que este grande homem me deu e ainda o dá, no que se refere à celebração do Santo Sacrifício da Missa: foi com ele que ouvi pela primeira vez esta expressão, de modo mais concreto, pois, até então, já ouvira, mas não do modo como ele ensinava e vivia. Desde então, comecei a perceber a grande diferença entre o querer saber mais sobre as coisas do Senhor e a partir delas. O ‘a partir’ pressupõe uma experiência nelas, sendo que o ‘sobre’ pode indicar muita teoria, mas pouca prática, pouco espírito!


Em um segundo momento de noviciado, meu mestre ensinou-me a grande diferença entre o ser frade e o fazer frade: o segundo é conseqüência do primeiro, isto é, em sendo, toda ação que se fizer, acontece como irradiação do ser; é o tomar para si a essência de Deus; é querer ser de Deus!

Desde então, vivendo o tempo da profissão dos votos, compreendi, com o passar dos anos, com a ajuda dos estudos próprios da Ordem, dos que a Santa Igreja pede para poder ser ordenado que o canto, a música sempre estiveram presentes em minha vida. Desde os sete anos de idade, já cantava nos comícios do meu avô.

Trouxe esta parte da história da minha vida para ilustrar que uma guinada, uma conversão, uma volta para o Senhor fez-se necessária com o passar do tempo e nele compreendi que, como reza a Sacrossanctum Concilium 112: “A música [...] será, [...] tanto mais santa quanto mais intimamente unida estiver à ação litúrgica, quer como expressão delicada da oração, quer como fator de comunhão, quer como elemento de maior solenidade nas funções sagradas”.

Esta afirmação me impulsiona a querer a cada dia mais, tomado pelo Senhor, imbuído por seu amor misericordioso, que olhou para a pequenez do seu servo e fez maravilhas; por isso, posso dizer: “Santo! Santo! Santo! É o Senhor!”

Hoje, estando quase às portas da minha ordenação diaconal, tenho meditado bastante sobre e partir do Santo Sacrifício da Missa. Certa vez, meditava com as Constituições da Ordem e reparei que no nº 73, nos parágrafos 1 e 2, estava contido grande parte do meu anseio e tomada de consciência de que fui, sou e só poderei “ser salvo pela Liturgia”. Assim reza: “Dado que a comunhão de vida com Deus cresce e se aprofunda especialmente através dos atos litúrgicos, os frades procurem preparar-se por meio do estudo freqüente dos textos litúrgicos, e participem dos atos litúrgicos como o exige o próprio estado e a própria natureza da liturgia. [§2]: Nos sagrados atos litúrgicos, siga-se com fidelidade o rito da Igreja e observem-se as prescrições do calendário e do ritual da Ordem. [...]

Está tudo aqui resumido. Mas, certamente, sou testemunha viva de que fui um dia e o sou a cada dia “salvo pela liturgia!” O blog "Salvem a Liturgia", que admiro muito o ardoroso e zeloso trabalho de toda a equipe, da qual faço parte, diariamente traz um conteúdo, como essencial. É como ensina o meu Seráfico Pai São Francisco de Assis, no final da sua vida, falando aos frades: "... que sempre sejam fiéis e sujeitos aos prelados e a todos os clérigos da Santa Mãe Igreja..." (Testamento de Sena, 4), tenho muito a testemunhar, compartilhar e certamente ainda a aprender também, para um melhor fomento e, oxalá, ser um autêntico testemunho vivo de que "uma celebração conforme a tradição da Igreja é fonte de vocações para a Igreja [...]" (Pe. Paulo Ricardo).

Posso dizer até que sou fruto concreto desta afirmação. Cresci vendo, participando, preparando e, por fim, ensinando como preparar belas, piedosas e frutuosas Santas Missas celebradas pelos frades da paróquia donde provenho. Tenho a sã consciência de que ter obrigação de colocar a serviço do povo de Deus, sobretudo, utilizando dos dons que Ele mesmo me deu. Urge sermos coerentes em tudo e com tudo o que lemos, escrevemos e, por conseqüência, vivemos, experimentamos, cada qual em seu estado de vida! Afinal, como diz o antigo jargão francês, noblesse oblige! (a nobreza [do nosso estado] nos obriga a [..]!)

Um comentário:

  1. Frei Sérgio Sambl22 de maio de 2010 19:23

    Caro irmão muito belo seu testemunho, estarei rezando por sua vocação. Deus o abençõe.

    Em Jesus Cristo Nosso Senhor

    Fr. Sérgio Sambl, OAR - 2 ano de teologia.

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