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sábado, 19 de junho de 2010

Liturgia da Palavra na Missa II

Continuação do texto de D. Abade José Palmeiro Mendes, OSB:

Sabe-se que cedo foram introduzidas leituras bíblicas na celebração eucarística. Testemunha isso o mártir S. Justino, que viveu em meados do sec. II: ”No dia do Sol, como é chamado, reúnem-se num mesmo lugar os habitantes, quer das cidades, quer dos campos, e lêem-se, na medida em que o tempo o permite, ora os comentários dos Apóstolos, ora os escritos dos Profetas” (Apologia I, c. 65-67). A celebração da Ceia do Senhor fundiu-se com a Liturgia da Palavra que era usual nas sinagogas dos judeus, compreendendo orações e leituras.

Um particular pedido do Concílio Vaticano II foi para que nas celebrações litúrgicas (não só nas missas, portanto) fosse restaurada “a leitura da Sagrada Escritura mais abundante, variada e apropriada” (SC 35). No que diz respeito à celebração eucarística a Constituição conciliar “Sacrosanctum Concilium” (51) determina: “Com a finalidade de mais ricamente preparar a mesa da Palavra de Deus para os fiéis, os tesouros bíblicos sejam mais largamente abertos, de tal forma que, dentro de um ciclo de tempo estabelecido, se leiam ao povo as partes mais importantes da Sagrada Escritura”. O impulso para isso vinha da convicção de que também na Liturgia da Palavra Cristo se une à sua Igreja e opera para a sua salvação (cf. SC 7). “Nas leituras explanadas pela homilia Deus fala ao seu povo (cf. SC 33), revela o mistério da redenção e da salvação, e oferece alimento espiritual; e o próprio Cristo, por sua palavra, se acha presente no meio dos fiéis (cf. SC 7). Pelo silêncio e pelos cantos o povo se apropria dessa palavra de Deus e a ela adere pela profissão de fé; alimentado por essa palavra, reza na oração universal pelas necessidades de toda a Igreja e pela salvação do mundo inteiro (Instrução Geral sobre o Missal Romano, 55).

As normas sobre as leituras bíblicas da Missa estão contidas no Elenco das Leituras da Missa (Ordo Lectionum Missae), de 1969 e que saiu numa 2ª edição ligeiramente revista em 1981, contendo inclusive uma “Introdução pastoral”. No Brasil este Elenco foi publicado no livro “A Palavra de Deus na Missa” (Edições Paulinas, São Paulo 1985) e mais recentemente na obra “A Mesa da Palavra”, 2 vols. (Edições Paulinas, São Paulo 2007), que oferece, além do texto do Elenco, ricos comentários sobre ele de dois importantes liturgistas espanhóis, José Aldazábal e Pedro Farnés.

Lembremos algumas normas deste documento:

Em todos os domingos e solenidades estão previstas para cada missa três leituras (quase que se poderia dizer que são quatro, se incluirmos o salmo responsorial). A I do Antigo Testamento, a II de uma carta dos apóstolos (especialmente S. Paulo), dos Atos dos Apóstolos ou do Apocalipse, a III, de um dos Evangelhos.

Para abrir em mais larga medida a leitura da Bíblia aos fiéis, foi introduzida uma ordem de leituras trienal de perícopes (palavra que significa trecho da Sagrada Escritura). Estes três ciclos são indicados pelas letras A, B e C. O ciclo C é usado nos anos divisíveis por três, os dois outros em sucessão correspondente.

Para a escolha das leituras foram seguidos dois princípios: o da ‘concordância temática’ e o da ‘leitura semicontínua’. O primeiro princípio encontra aplicação nos tempos litúrgicos fortes do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa. Nos domingos do Tempo Comum é determinante o princípio da ‘leitura semicontinua”, ou seja, é lido em seqüência todo um livro bíblico, omitindo-se apenas algumas partes por motivos pastorais. Esta leitura semicontínua vale, no entanto, apenas para a II leitura e para o Evangelho, enquanto a I leitura, tirada do Antigo Testamento, está em concordância temática com o Evangelho. Se quis assim evitar uma variedade muito grande de temas e ressaltar a unidade dos dois Testamentos. No ciclo A é lido o Evangelho de S. Mateus, no ciclo B o de S. Marcos e no ciclo C o de S. Lucas. O Evangelho de S. João é reservado para os últimos domingos da Quaresma e para o Tempo Pascal. Os Atos dos Apóstolos estão previstos para a I leitura do Tempo Pascal.

É vivamente desejável que nos domingos e nas solenidades as leituras sejam efetivamente três como previsto. Todavia por razões de ordem pastoral pode a Conferência Episcopal permitir que em alguma parte se façam somente duas leituras: isto ocorreu no Brasil, a Assembléia Geral da CNBB em 1970 decidiu que, por motivos pastorais, podem ser feitas duas leituras apenas na celebração. Isto fica naturalmente a critério do sacerdote celebrante. Há por vezes leituras longas e breves, cabendo ao padre decidir qual a que deve ser proclamada.

O ordenamento das leituras para os dias feriais (dias de semana) prevê em geral só duas leituras. Para I leitura existem dois ciclos anuais, o primeiro a ser seguido nos anos ímpares e o segundo nos anos pares. Já os Evangelhos nos dias feriais se repetem todo ano. Estes estão subdivididos de modo que nas semanas 1 a 9 do Tempo Comum se leia S. Marcos, nas semanas 10 a 21, S. Mateus e enfim S. Lucas nas semanas 22 a 34.

Para os tempos com características particulares se fez uma escolha especial, que leva em conta a índole de tais tempos.

Outro ordenamento de leituras diz respeito às missas nas festas e memórias do santos, as missas rituais, para várias necessidades e votivas. Para tais missas se tem uma rica possibilidade de escolha. Nas festas dos santos naturalmente que as leituras já estão previstas nos Lecionários; nas memórias são sugeridas algumas leituras apropriadas; nos outros casos o sacerdote celebrante pode escolher as leituras mais livremente a partir de um elenco oficial.

Em síntese, pode-se dizer com José Aldazábal (“A Mesa da Palavra” II, p. 7), que a leitura bíblica é oferecida hoje ao povo cristão, na liturgia, em três níveis diferentes:

  • Uma visão básica é a das leituras dos domingos na Eucaristia, dirigidas num ciclo trienal a toda a comunidade cristã;
  • Uma visão mais completa é a das leituras nos dias de semana, que permitem, em seu ciclo de dois anos, uma leitura já muito mais profunda da mensagem revelada por Deus, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. As beneficiadas são as pessoas que vão a Missa também nos dias de semana;
  • A leitura mais completa da revelação é aquela a que são convocados a fazer os ministros ordenados, os religiosos de vida contemplativa e também os leigos (como oblatos beneditinos, acrescentamos nós) que queiram seguir o ritmo do Ofício das leituras na Liturgia da Horas, principalmente se o fizerem com o Lecionário bienal (que é o que está sendo publicado pelas Edições Lumen Christi do Mosteiro de São Bento, tendo já saído três volumes).

É bom dizer também que apesar da riqueza dos Lecionários da Missa, isso não dispensa os fiéis da leitura diretamente da Bíblia Sagrada. Com efeito, por variados motivos, muitos textos bíblicos nunca são lidos na Liturgia. Eles são sempre Palavra de Deus e merecem ser conhecidos dos fiéis, sendo alimento para as almas.

O elenco das leituras da missa terá suas falhas, como qualquer obra humana. Por vezes surgem aqui e ali observações críticas e são propostas certas mudanças. O fato é que quem vai a Missa hoje conhece muito mais a Bíblia do que antigamente. Muitos dos que apreciam a “Missa Tridentina” (agora forma extraordinária do rito romano da Missa e assim com uso perfeitamente normalizado) desejam inclusive que seja nela adotado o Lecionário da reforma litúrgica posterior ao Vaticano II. A Santa Sé deve oportunamente baixar alguma norma a respeito.

Grande riqueza a dos Lecionários atuais. Mas isto traz também algumas exigências. Não basta ouvir na missa uma leitura. Há pessoas que escutam e não entendem nada, pois lhes falta formação bíblica. Parece importante que os fiéis se interessem em conhecer mais e mais a Sagrada Escritura. Paróquias, conventos, mosteiros devem promover cursos de iniciação bíblica. Ao lado de obras eruditas para teólogos, merecem ser publicados pelas editoras católicas livros de divulgação para o grande público, livros naturalmente que devem divulgar a boa doutrina e não simples hipóteses e muito menos doutrinas condenadas pela Igreja. A propósito, como não lembrar o saudoso Dom Estevão Bettencourt, com seus vários livros de divulgação bíblica, além do Curso de Iniciação Bíblica e o Curso sobre Parábolas e Páginas Difíceis do Evangelho da Escola Mater Ecclesiae, fora muitos de conteúdo bíblico na revista “Pergunte e Responderemos”.

Um comentário:

  1. Muito interessante o texto de meu caro amigo Dom Abade, com sua maestria habitual.

    Um ponto a se considerar em uma eventual reforma da reforma é a combinação dos elementos positivos do lecionário moderno com a clássica e catequética disposição do lecionário tridentino (que nos vem de São Jerônimo).

    Alguns especialistas falam em preservar os três ciclos, mantendo como Ano A o lecionário tradicional (acrescentando-se mais uma leitura), e como B e C (que seriam sempre optativos) uma redistribuição dos atuais A, B e C.

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