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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Liturgia da Palavra na Missa

Texto de D. José Palmeiro Mendes, OSB, Abade Emérito do Abadia Nossa Senhora de Montserrat (Mosteiro de São Bento), no Rio de Janeiro, RJ:

Na última postagem da série terminamos de comentar os ritos iniciais da Santa Missa. Tais ritos não deixam de ter sua importância – nunca é demais inculcar a presença neles dos fiéis, que deveriam esforçar-se para não chegar atrasados – mas são secundários em relação às duas partes fundamentais da celebração: a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística.

Passemos, então, agora a analisar a Liturgia da Palavra. Ela comporta as leituras, a homilia e a oração universal. O Catecismo da Igreja Católica (1349), falando do movimento da celebração, explica: “A Liturgia da Palavra comporta “os escritos dos profetas”, isto é, o Antigo Testamento, e “as memórias dos Apóstolos”, isto é, as epístolas e os Evangelhos; depois da homilia, que exorta a acolher esta palavra, vêm as intercessões por todos os homens, de acordo com a palavra do Apóstolo: “Eu recomendo, pois, antes de tudo, que se façam pedidos, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e todos os detém a autoridade” (1 Tm 2, 1-2).

Teologia da Liturgia da Palavra

Cremos que nunca é demais inculcar a importância da Liturgia da Palavra na Missa. Por isso achamos interessante citar neste primeiro artigo um documento importante e muito recente, de caráter teológico, versando sobre o assunto. Trata-se do chamado
Relatório “ante disceptationem” (antes da discussão) para a XII Assembléia do Sínodo dos Bispos no mês de outubro passado, que tratou do tema “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”. É um relatório feito a partir das respostas recebidas ao Instrumento de Trabalho da Assembléia. Foi publicado na edição de 11 de outubro de 2008 do L´Osservatore Romano (edição semanal em português). O autor deste relatório, proferido por ocasião da primeira congregação geral do Sínodo, dia 6 de outubro, foi o cardeal Marc Ouellet, sulpiciano, arcebispo de Québec e primaz do Canadá, doutor em Teologia Dogmática pela Universidade Gregoriana, antigo professor da Universidade Lateranense, tendo sido secretário do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e consultor das Congregações para a Doutrina da Fé e para o Culto Divino.

O cardeal começa falando nas diversas modalidades de presença de Cristo na Liturgia: “(...) a Constituição Sacrosanctum concilium insiste sobre as diversas modalidades da presença de Jesus Cristo na Liturgia: “Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro – “O que oferece agora pelo ministério sacerdotal é o mesmo que se ofereceu na Cruz” – e sobretudo quer sob as espécies eucarísticas”. Cristo “está presente na sua palavra, pois é Ele quem fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura” (Sacrosanctum concilium, 7).

“É Ele quem fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura”. Jamais terminaremos de descobrir as implicações pastorais desta solene afirmação conciliar. Ela recorda-nos que o sujeito primário da Sagrada Liturgia é o próprio Cristo que se dirige ao seu povo e que se oferece ao Pai como sacrifício de amor pela salvação do mundo.

Embora na realização dos ritos litúrgicos a Igreja dê a impressão de desempenhar um papel primário, na realidade ela desempenha sempre uma função subordinada, ao serviço da Palavra e dAquele que fala (...)”

E frisa logo a seguir o cardeal Ouellet: “Quando a Palavra é proclamada, é o próprio Cristo quem fala em nome do seu Pai, e o Espírito Santo faz-nos acolher a sua Palavra e participar da sua vida. A assembléia litúrgica existe enquanto estiver centrada na Palavra, e não em si mesma. Caso contrário, ela degenera num simples grupo social.

Com esta insistência, a Igreja ensina-nos que a Palavra de Deus é acima de tudo Deus que fala. Já na Primeira Aliança, Deus fala ao seu povo através de Moisés que em seguida lhe traz a resposta do povo às palavras de Javé: “Faremos quanto o Senhor nos disse!” (Ex 19, 8).”

E o cardeal diz algo particularmente importante, que deveríamos reter: “Deus não fala tanto para nos instruir, como sobretudo para se comunicar a si mesmo e para “nos introduzir na sua comunhão” (Dei Verbum, 2). O Espírito Santo realiza esta comunhão reunindo à comunidade à volta da Palavra e atualizando o mistério pascal de Cristo, no qual se oferece a si mesmo em comunhão, porque segundo as Escrituras a missão do Verbo encarnado atinge o seu ápice na comunicação do Espírito divino. Nesta luz trinitária e pneumatológica, manifesta-se de modo mais evidente que a Sagrada Liturgia é o diálogo vivo entre Deus que fala e a comunidade que ouve e responde com o louvor, a ação de graças e o compromisso assumido na vida e na missão”.

E o arcebispo de Québec pergunta aos padres sinodais: “Que conseqüências deveria ter a redescoberta deste lugar originário da Palavra sobre a hermenêutica bíblica, sobre a celebração eucarística e acima de tudo sobre o papel e a função da Liturgia da Palavra, inclusive a homilia?”

Palavra e Eucaristia

O relatório “ante disceptationem” cita um texto fundamental da Constituição Dei Verbum do Concílio Vaticano II (21): “A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, sem nunca deixar, sobretudo na Sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus, quer do Corpo de Cristo”.

E explica o cardeal Ouellet: “Comparando a Liturgia da Palavra e a Eucaristia com duas “mesas” a Dei Verbum queria juntamente sublinhar a importância da Palavra. Esta expressão retoma um dado tradicional que é ressaltado com vigor por Orígenes, por exemplo quando exorta a respeitar a Palavra como se fosse o Corpo de Cristo: “Se, quando se trata do seu corpo, sois justamente tão prudentes, por que desejaríeis que a negligência da Palavra de Deus merecesse um castigo menor que o do seu corpo?” (Homilias sobre o Êxodo 13, 3).”

As duas “mesas” servem o mesmo “Pão de vida” aos fiéis. Daí o cardeal observar: “Quer seja sob a forma de Palavra na qual acreditar, quer de Carne para comer, a Palavra proclamada e a Palavra pronunciada sobre as oferendas participam do mesmo acontecimento sacramental. A Liturgia da Palavra contém em si mesma uma força espiritual que é contudo decuplicada pelo seu vínculo intrínseco com a atualização do mistério pascal: a Palavra de Deus que se faz carne sacramental pelo poder do Espírito Santo.”

O Espírito Santo confere à Palavra proclamada na Liturgia uma virtude “viva e eficaz” (Hb 4, 12). “Isto significa – diz o relatório – que a Palavra litúrgica, como o Evangelho, “não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera fatos muda a vida” (Bento XVI, Spe salvi, 2).” E explica: “Aquele que fala não quer tanto instruir com a sua Palavra, mas sim comunicar-se a si mesmo. Aquele que ouve e responde não adere unicamente a verdades abstratas; mas compromete-se a nível pessoal com toda a sua vida, manifestando desta forma a sua identidade de membro do Corpo de Cristo”.

A homilia

Como dissemos no início, a Liturgia da Palavra da Missa, compreende também a homilia. A questão é também abordada pelo cardeal-arcebispo de Québec no seu relatório ao Sínodo dos Bispos. “Apesar do reordenamento pelo qual a homilia passou no Concílio, ainda experimentamos a insatisfação de muitos fiéis em relação ao ministério da pregação. Esta insatisfação explica parcialmente a fuga de muitos católicos para outros grupos religiosos. A fim de preencher as lacunas da pregação, sabemos que não é suficiente dar a prioridade à Palavra de Deus, pois é necessário também que ela seja interpretada corretamente no contexto mistagógico da Liturgia. Não basta sequer recorrer à exegese,nem utilizar novos meios pedagógicos ou tecnológicos, enfim, já não é suficiente que e a vida pessoal do ministro esteja em profunda harmonia com a Palavra anunciada. Tudo isto é muito importante, mas pode permanecer algo de extrínseco ao cumprimento do mistério pascal de Cristo.”

E o cardeal se pergunta: “Como ajudar os homiliastas a por em relação a vida e a Palavra com este acontecimento escatológico que irrompe no interior da assembléia? A homilia deve alcançar profundidade espiritual, ou seja, cristológica da Sagrada Escritura. Como se pode evitar a tendência ao moralismo e cultivar a exortação à vontade de crer?”

O cardeal Marc Ouellet termina suas considerações sobre esta questão mencionando a “primeira homilia” de Jesus, na sinagoga de Nazaré: “Então, Jesus começou a dizer-lhes: “Hoje cumpriu-s esta passagem da Escritura, que vós acabastes de ouvir” (Lc 4, 21). E ressalta: “Entre o hoje do Ressuscitado e o hoje da assembléia encontra-se a mediação da Escritura que o Espírito leva aos lábios do homiliasta. “Todos aprovavam Jesus, admirados com as palavras cheias de encanto que saiam de sua boca” (Lc 4, 22). Iluminado pelo Espírito Santo, o texto explicado de modo simples e familiar serve como mediação para o encontro entre Cristo e a comunidade. O cumprimento da Sagrada Escritura verifica-se então na fé da comunidade que acolhe Cristo como Palavra de Deus. O hoje que interessa ao pregador é o hoje da fé, a experiência de fé de se abandonar a Cristo e de lhe obedecer até às exigências morais do Evangelho. Enquanto ministro da Palavra, o sacerdote completa aquilo que falta à pregação de Jesus mediante o seu Corpo que é a Igreja. Ele compartilha os sofrimentos da preparação, as dificuldades da comunicação, mas sobretudo a alegria de ser instrumento do Espírito Santo ao serviço de um acontecimento radical: “O acolhimento da parte do homem, da oferenda de amor de Deus que se lhe apresenta em Cristo” (J. Ratzinger, Dogma e Pregação).

2 comentários:

  1. Dizia o Padre Vieira a cerca de São João Batista: "Ser ele um dos maiores pregadores de todos os tempos, dado que pregava não somente aos ouvidos, mas aos olhos!" Teologia e vida: prática e ciencia; são realidades inerentes ao que se predispõe a pregar a Palavra de Deus e não as palavras de Deus, como bem disse Vieira no Sermão da Sexagésima; porém, é de extrema urgencia a volta do estudo da retorica e da oratória em nossos seminarios; não descaartando jamais os meios e tecnicas modernos de cominucação inerente ao ministerio do bom pregador. Pe. Donisete

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  2. ajudem a divulgar a liturgia nas redes sociais nos catolicos devemos fazer nossa parte e mostrar ao povo que tanto precisa enchergar uma luz no fim do tunel a força dessa palavra

    marcio rocha soares

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