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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Cíngulo e amito

Cíngulo

História
O cíngulo, como a dalmática, foi uma veste de origem romana que se anexou aos paramentos litúrgicos e recebeu da tradição da Igreja um significado cristão. A primeira menção do cíngulo é uma carta do papa Celestino aos bispos de bispos de Viena e Narbone, na Gália no século V. A forma do cíngulo, desde a antiguidade até parte da Idade Média, era de uma estreita faixa com 6 ou 7 centímetros de largura. Era comumente de linho e, por vezes, bordado. O formato de cordão só se popularizou depois do século XV e hoje é o dominante.
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Forma e Cores
O cíngulo contra, na atualidade, de um cordão de cerca de 4 metros com dois pompons nas pontas com franjas. O cíngulo segue a cor do tempo, podendo ser branco, roxo, rosa, preto, vermelho, verde ou de cor festiva (dourado). Entretanto, como os demais paramentos usa-se o branco na falta da cor específica.
Em relação à ornamentação, a princípio era simples, posteriormente passou a constar de ricos brocados com ouro e pedras preciosas, principalmente durante a Idade Média. Na atualidade, recuperou parte de sua simplicidade inicial. O cíngulo possui decoração austera que pode constar de fios dourados ou prateados unidos à cor do cíngulo, sem pedras ou ornamentos maiores.
Quem usa e como usa
Usam o cíngulo todos os ministros que portam a alva. Nesses se incluem os acólitos, os leitores instituídos e todos os clérigos. O cíngulo é posto sempre sobre a alva, amarrado a cintura. Se se usa estola, esta fica, tradicionalmente, presa ao cíngulo. Não se usa cíngulo quando não se veste alva; assim, não se usa cíngulo com vestes corais, com batina e sobrepeliz, etc.
Oração e significado
Para se vestir o cíngulo, o rito extraordinário prevê que o sacerdote reze a seguinte fórmula:

"Praecinge me, Domine, cingulo puritatis, et exstingue in lumbis meis humorem libidinis; ut maneat in me virtus continentiae et castitatis."
"Cingi-me, Senhor, com o cíngulo da pureza, e extingui nos meus rins o fogo da paixão, para que resida em mim a virtude da continência e da castidade."
Tal uso, louvavelmente, pode manter-se no rito novo, uma vez que essa oração resume de maneira piedosa o significado deste paramento.O cíngulo lembra o antigo gesto de amarrar a veste à cintura para melhor trabalhar, daí a citação dos rins, região onde é amarrado para facilitar a labuta. Essa comparação fez o cíngulo se proliferar entre os monges.

Pode-se estabelecer uma relação ainda com a escritura do Antigo Testamento, na qual Deus ordena que os Hebreus comam a Páscoa cingidos (cíngulo) e com o manto (casula). Entretanto a relação que a tradição cristã mais bem aplicou ao cíngulo foi a sua relação com a castidade e a pureza de espírito, como ressalta a oração.
Fotos do Uso do cíngulo
É um pouco trabalhoso encontrar imagens que mostrem o uso do cíngulo, uma vez que este paramento é usado sob a casula e, no caso dos bispos, sob a dalmática pontifical. As imagens mostradas são do uso com casula romana, apenas por uma questão de facilidade na visualização.

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Padre usando o cíngulo, nota-se que a alva está amarrada à cintura.

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Padre estendendo a mão sobre as oblatas, uso do cíngulo sobre a alva.

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Sua Santidade durante a adoração da Santa Cruz na Sexta-feira Santa, uso do cíngulo vermelho, cor da celebração.

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Ao início da celebração da Paixão, cíngulo vermelho novamente.

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Na Paróquia Cristo Ressuscitado no Rio de Janeiro, Padre Leonardo usando cíngulo verde.

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Acólitos-assististes, ambos usando alva e cíngulo.
Amito
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História
A origem do amito não está num parecido paramento romano que eles usavam junto ao pescoço, mas sim de um véu branco de forma retangular usado inicialmente pelos monges do Egito. Com o nome de “anagolaium” é mencionado no século IX em Roma; dois séculos mais tarde recebe o nome de humeral na região germânica.

Como “amictus” é mencionado pela primeira vez no Ordo Romanas como paramento exclusivo do pontífice, dos diáconos e subdiáconos de Roma que o vestiam sobre a alva. A princípio o amito foi exclusivamente romano; apenas passado muito depois depois de sua introdução em Roma que este paramento migrou para fora da península itálica. Com essa disseminação, ele sofreu uma modificação em sua forma de uso: passou a ser usado por baixo da alva.
Forma
O amito consta, atualmente, de um pequeno paramento de tecido branco, geralmente quadrado ou retangular. Pode ser decorado com uma pequena cruz, ou com outro ornamento, entretanto não deve ser muito pomposo. Possui ainda tiras para ser preso ao corpo. Essas tiras podem ser brancas ou, na liturgia pontifical, vermelhas.
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Amito simples.

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Amito com tiras vermelhas aberto na sacristia.
Quem usa e como usa
Todos os que usam alva usam também o amito. Na forma extraordinária só faz uso do amito clérigos superiores ou pertencentes à ordem do subdiaconato. Na forma ordinária, até mesmo leigos que acolitam o podem usar se portarem alva. Entretanto, é mais coerente com a tradição que os ministros leigos usem batina e sobrepeliz; e a alva com cingulo e amito se reserve aos clérigos.

Veste-se da seguinte forma: quando se usa a batina, ele vai por dentro do colarinho, para que fique bem preso; dá uma volta no corpo com as tiras e amarra-se no peito. Existem dois tipos de uso do amito:
  • Uso com Alva:
Uso mais comum do amito, presente em ambas as formas do rito romano. Usa-se amito sobre o hábito talar (ou veste civil) e sobre ele põe-se a alva. Sobre ela cada ministro veste os paramentos de acordo com a função na celebração. Em se tratando do bispo ele pode vestir o amito sobre batina e roquete, não porém sobre batina e sobrepeliz.

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Presbítero e diáconos com visível uso do amito munido de um belo bordado.

claudio card hummesCardeal Hummes em recente celebração em Roma, nota-se o uso do amito com faixas vermelhas.
  • Uso sem alva:
Exclusivo da forma extraordinária do rito romano, o uso do amito sem alva se dá com os diáconos assistentes e presbítero assistente. Os diáconos assistentes usam hábito talar, sobrepeliz, amito e dalmática. O presbítero assistente veste-se como os diáconos assistentes, trocando apenas a dalmática pelo pluvial.

procession iiiPresbítero assistente usando hábito talar, sobrepeliz, amito e pluvial.

ATgAAAAseWOzRQ69H_oY9RKIffInCGS1i7oZSQ1TZ3TnhVAM_qQRKtdNVAz1IG1xUUsLH1IduJWit4WWyvbLVs8JlZs0AJtU9Diácono assistente usando batina, sobrepeliz, amito e dalmática.
Uso do Amito sobre a cabeça
Os Franciscanos, Dominicanos e até algumas famílias Beneditinas usam, ao celebrar, o amito sobre a cabeça. Esse uso é permitido aos integrantes destas Ordens em ambas as formas do rito romano e nas solenidades especialmente.
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Usando amito sobre a cabeça, com pluvial.

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Colocando a casula, após o rito de asperges.
Fanon
Em conservação do antigo uso do amito como paramento papal surgiu o fanon. Este, uma espécie de amito redondo e ornado ornado com listras vermelhas, é usado sobre a casula e sob o pálio, exclusivamente pelo papa. Encontra-se em desuso, todavia não foi abolido.

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Venerável João Paulo II fazendo uso do fanon.

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Paulo VI usando fanon.
Oração e significado
Ao vestir o amito diz-se:

"Impone, Domine, capiti meo galeam salutis, ad expugnandos diabolicos incursus."
"Colocai, Senhor, na minha cabeça o elmo da salvação para que possa repelir os golpes de Satanás."
Esta relação do amito com o elmo surgiu no uso monástico de usar o amito sobre a cabeça. Em continuação à pureza que a alva evoca, o amito tem seu significado relacionado à superação das tentações, mais precisamente conseguir esquivar-se das tentações que impedem o sacerdote de ser puro.
Conclusão
Cíngulo e Amito são pequenos paramentos que se unem a alva. Assim como essa, possuem um significado que remete às atitudes daqueles que os portam. Segundo dizem as orações, aqueles que usam tais vestes devem ser repletos de pureza, penitência e especial zelo para ser menos indigno de celebrar os santos mistérios.

Assim, é importante que se preserve o uso de ambos, bem como suas orações, para que os ministros do altar não se esqueçam que sua vida espiritual se une diretamente ao que celebram. Não se trata de dar atenção a detalhes de menor importancia dentro da liturgia, trata-se de preservar a riqueza construida nos séculos passados e fazer que se mantenha presente os elementos e os significados que nos ajudam a entender melhor o Santo Sacrifício que é o centro da liturgia católica.

Bibliografia:
  • J. Braun, Die liturgische Gewandung im Occident und Orient, Friburgo in Br. 1907, pp. 102-15; id., I paramenti sacri, vers. it., Torino 1924, pp. 77-84;
  • Enrico Dante: http://www.unavoce-ve.it/ec-cingolo.htm
  • Mons. Mario Riguetti;
  • Enciclopedia Católica : http://www.newadvent.org/cathen/01428c.htm;
  • Introdução Geral do missal romano, 193.
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