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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Liturgia da Palavra na Missa III

Continuação do texto de D. Abade José Palmeiro Mendes, OSB:

Terminávamos o nosso artigo anterior notando que não basta ouvir na missa as leituras, havendo pessoas que escutam e não entendem nada, pois lhes falta formação bíblica. Prosseguindo em algumas observações sobre a Liturgia da Palavra, salientemos que outro problema muito sério para a compreensão das leituras da missa é que infelizmente nem sempre os leitores são bons. Por leitores, entendemos aqui não só os leigos (homens e mulheres) de boa vontade que se dispõem a fazer as leituras, mas também os diáconos e sacerdotes. Enfim é muito importante haver leitores bem formados, talvez até com cursos de dicção e impostação da voz. Leitores não se improvisam, exceto em caso deles terem dotes naturais. Não deve ler na missa qualquer pessoa – e sabe-se de tantos que nas paróquias são convocados poucos instantes antes e assim nem conhecem os textos que irão ler (aliás, não é simplesmente “ler” mas “proclamar”). Alguns, por vezes, nem tem experiência em ler em público. O leitor não deve ler para si próprio, mas deve visar os outros, a assembléia.A Instrução Geral sobre o Missal fala que os textos devem ser ditos “em voz alta e distinta” (IGMR 38) O problema também não é só de maus leitores, mas também do som da igreja: o sistema de som é algo essencial, ainda mais quando a acústica da igreja deixa a desejar.

Uma outra observação importante: para que os textos bíblicos penetrem nos fiéis há necessidade de um silêncio sagrado. Uma explícita exortação a isso é uma novidade da 3ª edição da Instrução do Missal. “Oportunamente, como parte da celebração deve-se observar o silêncio sagrado” é dito no nº 45, que explicita depois no que se refere à Liturgia da Palavra: “após uma leitura ou a homilia, meditam (os fiéis) brevemente o que ouviram”. É algo ainda um pouco raro, o guardar-se por alguns instantes o silêncio após cada leitura ou depois de todas as leituras e também no final da homilia, visando fazer com que a palavra ouvida seja interiorizada.

Eis que o nº 56, texto inteiramente novo da Instrução Geral do Missal, explicita um pouco a questão, repetindo praticamente o que disse a Introdução do Elenco das Leituras da Missa nº 28: “A Liturgia da Palavra deve ser celebrada de tal modo que favoreça a meditação; por isso deve ser de todo evitada qualquer pressa que impeça o recolhimento. Integram-na também breves momentos de silêncio, de acordo com a assembléia reunida, pelos quais, sob a ação do Espírito Santo, se acolhe no coração a Palavra de Deus e se prepara a resposta pela oração. Convém que tais momentos de silêncio sejam observados, por exemplo, antes de se iniciar a própria Liturgia da Palavra, após a primeira e a segunda leitura, como também após o término da homilia”.

Comentando estas normas, o Pe. Aldazábal nota que “apenas a partir do silêncio interior e exterior se escuta bem a palavra. Fundamenta-se aqui a importância pedagógica do silêncio, porque toda a Liturgia da Palavra deve tender a um clima de meditação contemplativa. Trata-se de que cada um saiba acolher interiormente a mensagem que escuta, com docilidade e disponibilidade; mas para isso é necessário um clima de serenidade” ( “A Mesa da Palavra”, vol. I, pp. 45-46).

É de ressaltar que estes momentos de silêncio em si não são obrigatórios, os nº 128 (I leitura) e 130 (II leitura) da IGMR dizendo: “Se for oportuno, pode-se observar um breve espaço de silêncio, para que todos meditem o que ouviram”. E o nº 136 refere-se à homilia: “ao terminar (o sacerdote a homilia), pode-se observar um tempo de silêncio”. Numa grande assembléia, tal momento de silêncio não será viável, mas em pequenos grupos isto será viável e oportuno. A questão também é de calcular o tempo deste silêncio, nem grande demais e nem algo diminuto, que para nada serviria.

É bom chamar a atenção que a leitura do Evangelho constitui o ponto alto da Liturgia da Palavra. A própria Liturgia ensina que se lhe deve manifestar a maior veneração, pois a cerca mais do que as outras leituras, de honra especial (cf. IGMR 60). Ele é proclamado por um diácono (que antes pede a bênção ao sacerdote) ou pelo próprio sacerdote celebrante (que reza uma especial oração em silêncio); a assembléia para escutá-lo se coloca em pé em sinal de respeito; o livro do qual é proclamado é cercado de vários sinais de veneração, sendo incensado e beijado. Aliás, existe um livro litúrgico especial que contém os textos a serem proclamados, o Evangeliário, que está sendo muito valorizado, livro de grande dimensão, artístico e belo. Ele é levado solenemente na procissão de entrada. É triste quando o Evangelho e mesmo as outras leituras são proclamadas de um simples folheto, que nem se procura esconder...

Deve-se também valorizar o salmo responsorial, que segue-se à primeira leitura e está de alguma forma relacionado com ela, sendo parte integrante da Liturgia da Palavra. Não pode, de forma alguma, ser substituído por um outro cântico, por belo que for. O salmo é um cântico e por isso de preferência deve ser cantado e não simplesmente recitado, ao menos no que se refere ao refrão do povo (cf. IGMR 61). Em lugar do salmo responsorial proposto pelo Lecionário, pode-se cantar também – como se faz normalmente nas missas dominicais e das grandes festas do Mosteiro de S. Bento do Rio, onde se cultiva o canto gregoriano – um responsório gradual, tirado do Gradual Romano, que outra coisa não é se não alguns versículos de um salmo.

Após a leitura que antecede imediatamente o Evangelho, canta-se o Aleluia ou outro canto estabelecido pelas rubricas, conforme o tempo litúrgico. Através dele “a assembléia dos fiéis acolhe o Senhor que lhe vai falar no Evangelho, saúda-o e professa sua fé pelo canto” (IGMR 62). Agora, quando não há canto, o aleluia e o versículo antes do Evangelho podem ser omitidos (IGMR 63, c).

As leituras devem ser proclamadas sempre do ambão, lugar próprio da Palavra (IGMR 58). A Introdução ao Elenco das Leituras da Missa explicita melhor este local: “No recinto da igreja deve existir um lugar elevado, fixo (ou seja, não deve ser uma simples estante móvel, IGMR 309) adequadamente disposto e com a devida nobreza, que ao mesmo tempo corresponda à dignidade da Palavra de Deus e lembre aos fiéis que na missa se prepara a mesa da Palavra de Deus e do corpo de Cristo, e que ajude da melhor maneira possível a que os fiéis ouçam bem e estejam atentos durante a Liturgia da Palavra” (32). Deve inclusive haver uma íntima proporção e harmonia ente o ambão e o altar. Deve o ambão ser adornado com sobriedade, ou de maneira permanente ou, ao menos ocasionalmente, nos dias mais solenes. O ambão é reservado às leituras, ao salmo responsorial e ao precônio pascal (o “Exsultet” proferido na Vigília da Páscoa). A homilia e a oração dos fiéis podem ser pronunciados também ali. Mas não é conveniente que outras pessoas subam nele, como o comentarista, o cantor, o dirigente do coro (33). Mesmo nas missas sem povo “as leituras, na medida do possível, são proferidas do ambão ou da estante” (IGMR 260).

N.B. – Em nosso artigo passado, dissemos que por razões de ordem pastoral pode a Conferência Episcopal permitir que em alguma parte se façam somente duas leituras: isto ocorreu no Brasil, a Assembléia Geral da CNBB em 1970 decidiu que, por motivos pastorais, podem ser feitas duas leituras apenas na celebração. De fato isto era assim até há pouco, mas foi alterado pela 3ª edição da Instrução Geral do Missal, que aboliu a licença que tinham os bispos para suprimir alguma leitura (cf. nº 357 e comentário do Pe. Aldazábal, p. 77).
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