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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Liturgia da Palavra na Missa IV

Continuação do texto de D. Abade José Palmeiro Mendes, OSB:

A homilia


Homilia é termo que vem da palavra grega homilein, significando conversar, repartir familiarmente.
“Tractatus ou sermo, “que os gregos chamam homilia” (Santo Agostinho, Ep. 224,2;
Enar. in Ps 118, Proêmio), são os termos usados no Ocidente latino para indicar o ato de tomar a palavra, quase exclusivamente por parte do presidente, na assembléia litúrgica; estes atos são momentos e formas da tarefa mais geral da Igreja: praedicare” (cf. Christine Mohrmann, Praedicare – tractare – sermo, cit. no “Novo Dicionário de Liturgia”, verbete Homilia)

Falando sobre os ritos da Missa, eis que chegamos à homilia, que tem lugar logo depois da proclamação do Evangelho. Estamos aqui na parte que, na prática, é considerada por alguns como a mais importante da Missa, a parte que atrai muitas pessoas a certas igrejas e a determinados padres, considerados bons pregadores, ou ao contrário, que afasta muitos fiéis de determinados templos ou pregadores.

O Concílio Vaticano II valorizou muito a homilia, nela tratando no nº 52 da Constituição “Sacrosanctum Concílium”, onde temos como que sua definição: “Recomenda-se vivamente como parte da própria Liturgia, a homilia, pela qual, no decurso do ano litúrgico, são expostos os mistérios da fé e as normas da vida cristã a partir do texto sagrado; não deve ser omitida sem grave causa nas missas dominicais e nos dias de guarda, celebrados com assistência de povo”.

Foi importante esta afirmação de que a homilia é parte da própria Liturgia, eis que antigamente não era assim, sendo considerada mais ou menos como um parênteses. Diz o mesmo documento conciliar que “deve a pregação, em primeiro lugar, haurir os seus temas da Sagrada Escritura e da Liturgia, sendo como que a proclamação das maravilhas divinas na história da salvação ou no mistério de Cristo, que está sempre presente em nós e opera, sobretudo nas celebrações litúrgicas” (nº 35).

A Instrução Geral sobre o Missal vai dar depois uma série de determinações,que infelizmente nem sempre são seguidas:

“A homilia é uma parte da liturgia e vivamente recomendada, sendo indispensável para nutrir a vida cristã. Convém que seja uma explicação de algum aspecto das leituras da Sagrada Escritura ou de outro texto do Ordinário ou do Próprio da missa do dia, levando em conta tanto o Mistério celebrado como as necessidades particulares dos ouvintes” (65)

Comentários políticos ou de pequenas questões da atualidade parecem não caber neste momento da celebração. É de notar que notícias e avisos paroquiais cabem no final da missa, antes da bênção final, e não neste momento. Não deve ser algo desencarnado, deve tentar aplicar à vida a mensagem da palavra de Deus recém proclamada, deve procurar exortar a todos que vivam de acordo com a fé que professam. É particularmente expressivo o que diz em seu nº 41 o Proêmio ao Elenco das Leituras da Missa (Ordo Lectionum Missae): “O presidente (da celebração) exercem também a sua função própria, e o ministério da Palavra de Deus quando pronuncia a homilia. Com efeito, a homilia conduz os irmãos a uma compreensão saborosa da Sagrada Escritura; abre as almas dos fiéis à ação de graças pelas maravilhas de Deus; alimenta a fé dos presentes acera da palavra que na celebração se converte em sacramento pela intervenção do Espírito Santo; finalmente, prepara os fiéis para uma comunhão fecunda e os convida a praticar as exigências da vida cristã”.

Outra norma contida na Instrução Geral é que “via de regra,é proferida pelo próprio sacerdote celebrante ou é por ele delegada a um sacerdote concelebrante ou, ocasionalmente, a um diácono, nunca, porém, a um leigo. Em casos especiais e por motivo razoável, a homilia também pode ser feita pelo bispo ou presbítero que participa da celebração, sem que possa concelebrar” (66). Parece ser o mais lógico a homilia proferida pelo sacerdote celebrante: ele “que representa a Cristo mestre na primeira parte da celebração (e a Cristo sacerdote na segunda) é quem dirige sua Palavra à comunidade”, como explica muito bem o já citado liturgista José Aldazábal. As outras formas são exceções. Como quer que seja, não cabe nunca ao leigo proferir a homilia.

A homilia é obrigatória aos domingos e nas pouquíssimas festas de preceito que ainda existem. Nos dias feriais não é obrigatória, mas é recomendada, sobretudo nos dias de semana dos tempos fortes do ano (Advento, Quaresma e Tempo Pascal) e em festas e ocasiões em que o povo acorre em maior número à igreja (66). Penso que é uma coisa boa o que está ocorrendo, da generalização das homilias nas igrejas paroquiais e de comunidades religiosas, mesmo em dias feriais. A qualidade das homilias já é outra coisa...

Deve ser “fruto de meditação do sacerdote, ou seja, devidamente preparada, não muito muito longa nem muito curta, e que se levem em consideração todos os presentes, inclusive as crianças e o povo, de modo geral as pessoas simples” . É o que preceitua o Proêmio ao Elenco das Leituras da Missa”(24).

A propósito disto, Mons. Albert Malcom Ranjith, até há pouco tempo secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (foi há pouco nomeado arcebispo de Colombo e deixou portanto a Cúria Romana) manifestou em 2008 ao jornal italiano “La Stampa” que Congregação estava a preparar normas para melhorar a celebração da Santa Missa: homilias mais curtas, genuflexão diante das espécies eucarísticas consagradas, receber a comunhão na boca, favorecer a adoração de joelhos...

Quanto à qualidade da pregação, o arcebispo Ranjith notou que «a homilia não deve superar os oito ou dez minutos. É necessário que o celebrante estude profundamente o Evangelho do dia e se atenha sempre a esse texto».

Preparar uma boa homilia – dizia ele - pode levar duas horas, mas é tempo bem empregado. Dias antes o arcebispo Ranjith tinha dito que «uma homilia tem de ser breve e doce. Caso contrário, é como um avião que tenta aterrar mas dá voltas e voltas sem o conseguir. E isso mostra que a pessoa que fala não se preparou».

Para concluir é bom frisar também que os fiéis são convidados a prestar atenção à Palavra de Deus proclamada – ouvir as leituras com fé - e depois a escutar com boa vontade, com abertura de espírito, a homilia do sacerdote. Assim tirarão algum bom fruto da Liturgia da Palavra da Missa.
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