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domingo, 20 de março de 2011

Domingo de São Gregório Palamas, no rito bizantino

Os fiéis católicos bizantinos (melquitas, ucranianos, gregos, russos, ítalo-albaneses, rutenos etc), celebram no II Domingo da Quaresma, tal qual suas contrapartes da “Igreja Ortodoxa”, o santo Bispo Gregório Palamas, teólogo falecido em 1359.

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A muitos causa estranheza que alguém que viveu após o Cisma de 1054, seja filho da Igreja cismática “ortodoxa”, seu Bispo, e que a defendeu doutrinariamente, possa ser venerado por católicos. Que São Sérgio de Radonezh, falecido em 1392, possa ser santo católico, embora oriental, pós-cisma e súdito de uma Igreja em cisma, se compreende, dado que a consciência do que era realmente o cisma ainda não era muito clara na Rússia de então. Todavia, Gregório Palamas viveu, embora na mesma época, em uma região em que o cisma já era claro, com posições muito definidas, e uma explícita oposição entre Roma e Constantinopla. Palamas era, ao contrário do monge Sérgio, um Bispo de uma importante cidade grega, Tessalônica, e debateu com latinos. E, se foi monge, como Sérgio, o foi no Monte Athos, que desde aqueles anos já era um importante centro de confrontação com os ocidentais.

Como se pode, pois, venerar como santo católico, justamente, um santo não-católico?

Em primeiro lugar, cabe responder que, se se venera Gregório Palamas, ele não pode ser um santo “dos orientais” apenas. A Igreja é una, sob um mesmo Papa. Não há um “santo dos melquitas” não aceito por católicos latinos. O santo ou é de todos os católicos, ou não é santo.

Aos perplexos, o fato é que São Gregório está inscrito nos calendários litúrgicos oficiais dos bizantinos, e “lex orandi, lex credendi”. Embora não seja uma declaração ex cathedra, dificilmente não se consideraria como “fato dogmático” a inscrição de um santo em uma liturgia. De outra sorte, antes que se acuse tal inscrição de modernista ou “fruto do Vaticano II”, é importante notar que foi feita na época de Pio XII e por ele aprovada.

Ora, mas então católicos veneram um cismático? Sim, é fato. E, para tentar “resolver” o problema, escrevi, no Orkut, as linhas abaixo, certa feita:

A questão (…) [é] a autorização oficial para culto que Pio XII concedeu a santos orientais pós-cisma, e com consciência do cisma, como Serafim de Sarov. Canonização certamente não é. Qual a solução? A meu ver, beatificação, pois autorização para culto é beatificação (canonização é empenho infalível da palavra da Igreja, não mera autorização de culto).

E uma beatificação análoga à equipolente.

Assim, não teríamos uma certeza absoluta da salvação de Serafim de Sarov nem se poderia prestar culto UNIVERSAL a ele (privilégio dos santos canonizados), mas uma certeza meramente moral e uma autorização de culto LOCAL.

E o fato de continuarem a ser chamados santos e não beatos se resolve por concessão da Igreja, para manter a tradição dos orientais. São santos em um sentido lato, não no estrito (canonizados). Tecnicamente, ainda que mantendo o título "santo", seriam beatificados.

A canonização de ortodoxos não é possível, mas não vejo óbice à beatificação. Até porque é um fato e temos que lidar com isso.

Um argumento a favor de minha teoria de que os santos orientais pós-cisma, ao serem reconhecidos pela Santa Sé, o foram na qualidade de beatos, ainda que se chamem santos, é o caso do frade dominicano português Gonçalo do Amarante.

Ele foi beatificado, mas não canonizado. No entanto, o povo o chama de São Gonçalo e há igrejas dedicadas a ele com esse nome "santo" e não "beato". Ninguém põe dúvida, todavia, de que se trata de um beato.

Qual a diferença entre a beatificação e a canonização? Nesta última, a Igreja empenha sua palavra: é um ato infalível. Na primeira, há uma mera autorização de culto oficial, mas sem infalibilidade.

São Serafim de Sarov e São Gregório Palamas não podem ser canonizados pela Igreja Católica em face de sua ciência quanto ao cisma e a alguns problemas em seus ensinos. A Igreja, se os canonizasse, estaria como que comprometendo sua infalibilidade.

Sem embargo, é fato que os calendários litúrgicos dos católicos bizantinos, oficialmente aprovados por Roma, falam nos dois santos, e em outros.

Como resolver o impasse?

A meu ver, ambos foram beatificados pela Igreja, e não canonizados. A canonização dos mesmos é impossível, mas a beatificação (autorização de culto) não. A Igreja poderia autorizar um culto dos dois. Não uma autorização por processo normal, mas por equipolência, onde já exista, como é o caso das Igrejas orientais católicas. E essa autorização, por não ser infalível, é aceitável: a Igreja não atesta que os dois estão no céu, e sim autoriza que os fiéis, se desejarem, os cultuem.

Quanto ao fato de que, se forem mesmo somente beatos para a Igreja Católica, como é que se os chamam “São” Serafim e “São” Gregório, o exemplo de “São” Gonçalo do Amarante responde. O termo “santo” figura como tradição, podendo estar até mesmo na denominação de templos, desde que, tecnicamente, se saiba que é uma mera beatificação.

Para conhecer mais da história de São Gregório Palamas (que, para a Igreja Católica, que não pode canonizar cismáticos, é meramente um beato, porque a beatificação não implica infalibilidade, sendo mera autorização de culto; Beato Gregório Palamas, então, embora, por tradição se o possa chamar São Gregório Palamas, como vimos), veja abaixo:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Greg%C3%B3rio_Palamas

http://www.ortodoxiaplena.com/2010/02/ii-domingo-do-grande-jejum-sao-gregorio.html

http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/s_gregorio_palamas_antologia.html

São Gregório Palamas é um baluarte do cristianismo, e sua memória tem tudo a ver com a Quaresma que estamos celebrando, cujo II Domingo se encerra em poucos minutos.

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