Manchetes

Nosso Parceiro

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

"Rede de Comunidades" e Missa Dominical, ideias para o debate

Do excelente Oblatvs:


O mais recente tema pastoral tem sido a formação de “rede de comunidades”. Entre os objetivos da estratégia pastoral estão a formação de pequenos grupos eclesiais, a descentralização de serviços pastorais e a criação de “comunidades” fisicamente mais próximas das casas das pessoas. Supondo uma área pastoral extensa e populosa, teríamos dezenas de núcleos ou pequenas comunidades eclesiais. Evidentemente os padres não se multiplicariam, como que por encanto, na mesma proporção; logo, tais comunidades formariam habitualmente um movimento dos sem missa.

Formar pequenos grupos, sem que se perca de vista a unidade e a indivisibilidade da Igreja de Cristo; descentralizar os serviços pastorais, que nem sempre requerem a presença física ou contínua do sacerdote; e aproximar a Igreja das pessoas parecem justificativas mais do que razoáveis para um projeto de setorização, criação de células, ou outro nome que se lhe queira dar. Mas e a Eucaristia?

Não se trata da “celebração dominical com a distribuição da Sagrada Comunhão”, mas da Santa Missa, do Sacrifício que só o sacerdote pode oferecer. Trata-se do Domingo, do Culto, da própria natureza da Igreja de Cristo que não se confunde com a dos grupos protestantes. Pode uma estratégia pastoral que se pretenda católica inspirar-se numa protestante quando a concepção eclesial subjacente à ultima é incompatível com as notas da Igreja fundada por Nosso Senhor?

As comunidades surgem naturalmente e, na maioria das vezes, não podem contar desde o início com Missas regulares, menos ainda com a Missa Dominical. Tais comunidades, entretanto, privadas da Missa, estão sempre na expectativa desta; sua situação está longe de ser considerada normativa do ponto de vista católico. A criação artificial de comunidades que antes se congregavam num único lugar de culto poderia ter como consequência o afastamento gradual e definitivo da Santa Missa Dominical.

Já em 1985, o então Cardeal Ratzinger falara indiretamente do tema numa conferência dada em Essen (RATZINGER, J. Sul Significato della Domenica per la preghiera e la vita del cristiano: Liturgia dominicali senza sacerdote. In: ______. Opera Omnia: Teologia della Liturgia, Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2011. p. 287-291). O cardeal coloca questões que precisam ser consideradas na elaboração de um plano pastoral que contemple a formação da chamada “rede de comunidades” nas paróquias, pois seria frustrante se um projeto de evangelização tão bem intencionado servisse à fragmentação social, à descaracterização eclesial e à evasão sacramental.

Eis uma parte da conferência que interessa (tradução e negritos são meus):

LITURGIAS DOMINICAIS SEM SACERDOTE

São dois os princípios que, consequentemente às nossas reflexões, devem guiar o nosso agir na prática.

1. Vale a prioridade do Sacramento sobre a psicologia. Vale a prioridade da Igreja sobre o grupo.

2. Com o pressuposto desta ordem hierárquica, as Igrejas locais devem procurar a resposta correta para as respectivas situações, sabendo que seu dever essencial é a salvação dos homens (salus animarum). Em tal orientação de todo seu trabalho se reencontram tanto o seu vínculo quanto sua liberdade.

Consideremos agora ambos os princípios mais de perto. Nas terras de missão, na diáspora, em situações de perseguição, não há nada de novo no fato de que aos Domingos a Celebração Eucarística seja inacessível e que então se deva tentar, na medida do possível, sintonizar-se interiormente com a celebração dominical da Igreja. Entre nós a queda das vocações sacerdotais suscita sempre mais sensivelmente situações de tal gênero que até então eram em grande parte insólitas. Infelizmente, a busca da solução justa é frequentemente ofuscada por ideologias de caráter coletivista que servem mais de obstáculo que de ajuda para as reais exigências. Diz-se, por exemplo: toda igreja que antes tinha um pároco ou então uma regular celebração dominical deve continuar a ser lugar de reunião festiva da comunidade local. Apenas assim a igreja permaneceria sendo o ponto central do lugar; apenas assim a comunidade permaneceria viva como comunidade. Por este motivo seria mais importante para ela reunir-se exatamente ali ouvindo e celebrando a Palavra de Deus do que aproveitar a oportunidade, que existe de fato, de participar da própria Celebração Eucarística numa igreja situada na vizinhança.

Nesta argumentação há muitos elementos plausíveis e, indubitavelmente, também boas intenções. Mas são esquecidos critérios fundamentais da fé. Em tal visão, a experiência do estar juntos, o cuidado da comunidade local, está acima do dom do Sacramento. Sem dúvida, a experiência do estar juntos é mais diretamente acessível e mais facilmente explicável quando não há o Sacramento. Torna-se pois espontânea a migração da dimensão objetiva da Eucaristia para a subjetiva da experiência, da dimensão teológica àquelas sociológica e psicológica. Mas as consequências de um tal antepor a condivisão vivida à realidade sacramental são graves: a comunidade em tal caso celebra a si mesma. A igreja torna-se um veículo para um objetivo social; ademais, deste modo se torna escrava de um romantismo que na nossa sociedade caracterizada pela mobilidade é no mínimo anacrônico. É verdade que no início as pessoas, cheias de alegria, sentem-se valorizadas pelo fato de que agora elas próprias celebram na sua igreja, que podem “fazê-lo por si mesmas”. Mas logo percebem que agora não há outra coisa senão aquilo que fazem elas mesmas; que não recebem mais nada, mas celebram a si mesmas. Neste caso, porém, tudo se torna uma coisa que se pode igualmente fazer um pouco menos, já que agora o culto dominical, substancialmente, não vai além daquilo que se faz geralmente e sempre. Não mais diz respeito a uma ordem diversa; é também ele agora somente “produção própria”. É pois impossível que lhe possa ser inerente aquela “obrigação” absoluta de que a Igreja sempre falou. Tal critério, porém, estende-se depois com intrínseca lógica também à autêntica Celebração Eucarística. Uma vez que a Igreja mesma parece dizer que a assembleia é mais importante que a Eucaristia, então também a Eucaristia é, exatamente, somente “assembleia” – de outro modo, de fato, a equiparação não seria possível; e então a Igreja inteira se rebaixa ao nível do “faça por si mesmo” e ao fim se dá razão à triste visão de Durkheim, segundo o qual religião e culto não são outra coisa além de formas de estabilização social através da autoapresentação da sociedade. Mas tão logo se tome consciência disto, tal estabilização não funciona mais, já que ela somente se realiza quando se pensa que esteja em jogo algo a mais. Quem eleva a comunidade a um fim direto, é exatamente aquele que lhe dissolve os fundamentos. Aquilo que inicialmente parece tão piedoso e plausível, é na realidade uma reviravolta dos critérios e das ordens, que toca as raízes, e com o qual, depois de algum tempo, se obtém o contrário daquilo que se desejava. Somente conservando o seu caráter totalmente incondicionado e a sua absoluta prioridade sobre toda finalidade social e sobre toda intenção de edificação espiritual, o Sacramento cria comunidade e “edifica” o homem. Mesmo uma celebração sacramental psicologicamente menos rica e, do ponto de vista subjetivo, privada de esplendor e enfadonha, é incomparavelmente (se podemos exprimir de modo tão utilitarista) também “socialmente” mais eficaz que a auto-edificação psicológica e socialmente bem sucedida da comunidade. Trata-se, de fato, da questão fundamental, se aqui acontece algo que não provém de nós mesmos, ou se ao invés apenas estamos nós a projetar e a plasmar uma atmosfera de comunhão. Se não existe “a obrigação” superior do Sacramento, torna-se vazia a liberdade que agora se toma, porque permanece privada de seu conteúdo.

As coisas são completamente diversas quando se trata de um caso de verdadeira necessidade. Então, de fato, não é que com uma celebração sem sacerdote tudo se reduza à esfera somente humana; neste caso, esta representa sobretudo o gesto comum com o qual cada um se projeta para o “dominicus”, o Domingo da Igreja. Com esta ação, se vincula então ao comum dever e querer da Igreja e, portanto, ao próprio Senhor. A pergunta decisiva é: onde está o limite entre vontade pessoal e verdadeira necessidade? Este limite não pode ser traçado de modo abstratamente unívoco e será sempre flutuante também no detalhe. Ele deve ser encontrado nas situações particulares pela sensibilidade pastoral dos interessados, em sintonia com o Bispo. Existem regras que podem ser úteis. Que não seja lícito a um sacerdote celebrar mais de três vezes aos Domingos, não é uma fixação positiva do direito canônico, mas corresponde aos limites do que é realmente exequível. Esta é uma disposição do ponto de vista do celebrante; no que diz respeito aos fiéis, é preciso colocar-se a questão da razoabilidade das distâncias a serem superadas e da acessibilidade das celebrações em tempos convenientes. De tudo isto não se deveria tanto construir uma casuística pré-fabricada, mas deixar espaço à decisão conscienciosa em consideração das exigências. O essencial é que se respeite a ordem justa do grau de importância e que a Igreja não celebre a si mesma, mas o Senhor que ela recebe na Eucaristia – ao qual vai ao encontro nas situações em que a comunidade sem sacerdote se projeta para o dom que Ele constitui.

blog comments powered by Disqus
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...