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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Mons. Guido Pozzo: Ecclesia Dei, FSSPX, erros litúrgicos e reforma da reforma, via Fratres in Unum



Do Fratres in Unum:


O chefe da Ecclesia Dei acerca dos colóquios com a FSSPX.

Entrevista de Gloria.TV a Mons. Guido Pozzo, Secretário da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei

Fonte: MessaInLatino |Tradução: Pale Ideas

- Monsenhor, o senhor participou do diálogo com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Qual foi sua impressão pessoal dessas reuniões? Em que ponto estamos? Crê que chegaremos logo a uma reconciliação?

Minha impressão é substancialmente positiva quanto à cordialidade com que o diálogo, o colóquio se desenvolveu, e devo dizer que sempre foi um diálogo muito franco, sincero e, por vezes, vivaz, como era de se esperar, dada a problemática e a temática em discussão. Penso que chegamos a um ponto decisivo, mesmo que, certamente, não conclusivo deste caminho, e que serviu para esclarecer amplamente e de modo aprofundado as posições respectivas da Fraternidade São Pio X e dos especialistas da Congregação pela Doutrina da Fé; agora, trata-se justamente de passar a um patamar mais valorativo, a um nível valorativo dos pontos controvertidos, para verificar a possibilidade concreta de chegar à superação das dificuldades doutrinais que foram afrontadas.

- Existe um modus procedendi, caso o Preâmbulo doutrinal não venha a ser firmado?

Nesta fase, o texto do Preâmbulo doutrinal foi entregue a Mons. Fellay, aos superiores da Fraternidade, para que eles possam examiná-lo e dar uma resposta, que nós auspiciamos seja em substância favorável, positiva, afirmativa. Há sempre a possibilidade de pedir certos detalhamentos, certos esclarecimentos, que de nossa parte serão certamente dados, dentro de um lapso de tempo razoável [ou seja: algumas modificações no texto do Preâmbulo, NdR]. Questionar-se o que vai acontecer se as dificuldades viessem a ser consideradas graves, intransponíveis, parece-me que seja impróprio. Neste momento, não nos colocamos este problema.

- A Fraternidade não surgiu do nada, mas como resposta a uma gravíssima crise eclesiástica, sobretudo em países como a Alemanha, a França ou a Suíça. Esta crise persiste. Crê que, depois de um acordo feito em Roma, a Fraternidade possa coabitar nestes Países debaixo do teto da Igreja institucional?

Eu responderia simplesmente que quem é verdadeira e plenamente católico pode habitar plena e devidamente na Igreja Católica, onde quer que a Igreja Católica exista e se desenvolva. Não é apenas uma afirmação de princípio, é uma afirmação existencial que corresponde à realidade da Igreja Católica. Isto, naturalmente, não significa que não existam dificuldades, até por causa da situação crítica em que se encontram muitos católicos, o mundo católico, nestes e em outros países, mas não creio que na história não se verificaram casos análogos, e, portanto, a resposta é muito simples: quem é verdadeira e plenamente católico não apenas tem o direito, mas vive bem e se encontra bem dentro da Igreja Católica.

- Quais são as razões da hostilidade de muitos ambientes eclesiásticos contra uma liturgia que a Igreja e muitíssimos santos celebraram por um período tão longo e que foi o instrumento do crescimento espetacular da Igreja? [esta é a pergunta que muitos de nós se põem. Na realidade, não pode haver uma resposta satisfatória, pois a razão é visceral, não racional: uma inteira geração de sacerdotes sofreu uma capilar, penetrante, totalitarista lavagem cerebral, motivo pelo qual tudo o que se fazia até 1962 era retrógrado e errado; é quase impossível, agora, reparar os danos cerebrais causados por aquele condicionamento pluri-decenal, NdR].

É uma pergunta complexa porque acredito que muitos fatores intervêm para compreender este preconceito ainda tão difundido contra a liturgia da forma extraordinária do Rito Antigo. É de se ter em mente que, por muitos anos, não foi oferecida uma formação litúrgica verdadeiramente adequada e completa na Igreja Católica. Quis-se introduzir o princípio de uma ruptura, de um afastamento, de um distanciamento radical entre a reforma litúrgica proposta, instaurada, promulgada pelo Papa Paulo VI e a liturgia tradicional. Na realidade, as coisas são diferentes, porque é claro que há uma continuidade substancial na liturgia, na história da liturgia; há crescimento, progresso, renovação, mas não ruptura, não descontinuidade; e, então, estes preconceitos influenciam de maneira determinante na forma mentis das pessoas, dos eclesiásticos e também dos fieis [os fieis e os eclesiásticos não seriam pessoas? NdTª]. É necessário superar este preconceito, é necessário dar uma formação litúrgica completa, autêntica, e ver como, precisamente, uma coisa são os livros litúrgicos da reforma quista por Paulo VI e outra coisa são as formas de atuação que em tantas partes do mundo católico aconteceram na prática e que são autênticos abusos da própria reforma litúrgica de Paulo VI, e contêm inclusive erros doutrinais que devem ser corrigidos e rejeitados. É isto que, recentemente, no fim da primavera deste ano, em um discurso no Ateneo Anselmiano, o Santo Padre Bento XVI quis mais uma vez reafirmar. Uma coisa são os livros litúrgicos da reforma, outra as formas concretas de atuação que, infelizmente, em tantas partes se difundiram e que não são coerentes com os princípios que foram fixados e explicitados pela própria Constituição do Concílio Vaticano II, “Sacrosantum Concilium”, sobre a divina liturgia.

- O Preâmbulo confidencial foi entregue a Mons. Fellay em 14 de setembro. Um dia depois, Andrea Tornielli estava já informado a respeito. Por que as informações confidenciais do Vaticano chegam tão rapidamente à imprensa?

A habilidade dos jornalistas é muito conhecida, é uma habilidade de interceptar as notícias que é realmente admirável sob certo ponto de vista, mas diria que neste caso os jornalistas, não apenas o jornalista Tornielli mas outros também, no dia seguinte haviam capturado a essência [A. Tornielli não disse que capturou alguma essência, afirmou que recebeu informações intra muro, NdTª] do comunicado de imprensa que já informava sobre alguns elementos essenciais do Preâmbulo doutrinal, e, então, diria que os conteúdos profundos do Preâmbulo, em seus detalhes, não são conhecidos, pelo menos até agora não foram divulgados; e os jornalistas não falaram sobre eles, não descreveram em detalhes o desenvolvimento e a elaboração do Preâmbulo doutrinal; então, a discrição, substancialmente, neste caso, creio que foi mantida. Espero que continue assim.

- O senhor, antes de fazer parte de Ecclesia Dei, teve experiências pessoais com a Missa em latim? Como viveu as mudanças litúrgicas nos anos sessenta?

As perguntas são duas, e à primeira respondo que, antes do motu proprio Summorum Pontificum de 2007, eu não tive nenhum contato com a celebração da Missa no rito antigo, e comecei a celebrar a Missa no rito da forma extraordinária justamente com o motu proprio Summorum Pontificum, que permitiu que esta Missa pudesse ser celebrada desta forma.

Como vivi nos anos sessenta, nos anos setenta as mudanças? Bem, devo dizer que, conforme o modo como fui formado e preparado pelos meus educadores no Seminário, e, sobretudo, também na Pontifícia Universidade Gregoriana, pelos meus mestres de teologia, procurei sempre entender aquilo que o Magistério propunha através da leitura de seus textos, não através do que teólogos ou certa publicística católica atribuía ao Magistério. Portanto, eu nunca tive problema em aceitar a Missa pela reforma litúrgica de Paolo VI, mas logo percebi que, por causa desta grande desordem que se introduziu na Igreja depois de 1968, frequentemente a Missa de Paulo VI vinha sendo deformada e celebrada em modo absolutamente contrário às intenções profundas do legislador, isto é, do Sumo Pontífice; portanto, esta desordem, este colapso da liturgia de que falou o então Cardeal Ratzinger em alguns de seus livros e em algumas de suas publicações de liturgia, eu até o experimentei assaz diretamente e sempre quis manter separadas as duas coisas: uma coisa são os ritos, os textos do missal, outra coisa é o modo como é celebrada, ou era celebrada a liturgia em muitas circunstancias e em muitos lugares, sobretudo com base neste princípio da criatividade, uma criatividade selvagem que nada tem a ver com o Espírito Santo; pelo contrário, diria, que é exatamente o oposto do que o Espírito Santo quer.

- Porque vale a pena promover a Missa em latim?

Porque na Missa do Rito Antigo são explicitados, evidenciados certos valores, certos aspectos fundamentais da liturgia que merecem ser mantidos, e não falo somente da língua latina ou do canto gregoriano, falo do sentido do mistério, do sagrado; o sentido do sacrifício, da Missa como sacrifício; a presença real e substancial de Cristo na Eucaristia, e do fato de que há grandes momentos de recolhimento interior, como uma participação interior à divina liturgia. É isto, são todos elementos fundamentais, os quais na Missa do Rito Antigo são particularmente evidenciados. Não digo que na Missa da reforma de Paulo VI não existam estes elementos, mas falo de uma evidenciação maior, e isto pode enriquecer também quem celebra ou participa da Missa na forma ordinária. Nada proíbe de pensar que no futuro se possa chegar inclusive a uma reunificação das duas formas com elementos que se integram entre si, mas este não é um objetivo para se alcançar em curto espaço de tempo, nem, sobretudo, para se alcançar com uma decisão tomada levianamente, mas requer uma maturação de todo o povo cristão em compreender ambas as formas litúrgicas do mesmo rito romano.

Obs.: NdR é MessaInLatino. NdTª sou eu. Grifos [negrito] no textos são de Pale Ideas.
Os sublinhados são do Salvem a Liturgia. Outro detalhe é atentar para a impropriedade da expressão "Missa em latim" quando aplicada à forma extraordinária, de vez que a forma ordinária, de Paulo VI, também pode ser celebrada em latim, e o é frequentemente por vários sacerdotes, Bispos e pelo Papa.
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