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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Homilia na ordenação presbiteral dos Freis Paulo Maria e Fernando de Araújo, OFMConv.

No dia 10 de dezembro passado, no Santuário São Francisco de Assis, em Brasília, Sua Excelência Reverendíssima Dom Adair José Guimarães, Bispo diocesano de Rubiataba-Mozarlândia-GO, amigo e apoiador do nosso Apostolado, conferiu a ordenação presbiteral aos Freis Paulo Maria e Fernando de Araújo, OFMConv.

Abaixo, a excelente homilia, altamente catequética, com grande clareza nas explicações... uma verdadeira lição para toda a vida e ministério. Todos os grifos são nossos.

Outros textos do Bispo podem ser lidos AQUI.

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Reverendíssimo Senhor Ministro Provincial,

Reverendíssimo Senhor Secretário Provincial,

Distinta Comunidade Franciscana aqui presente,

Sacerdotes, Diáconos, Seminaristas, religiosos(as) e consagrados (as), benfeitores,

Amados Frei Paulo Maria Geovani Leite Noronha e Frei Fernando de Araújo, ordinandos,

Povo de Deus e familiares dos ordinandos.

01. Agradeço de coração ao Senhor Ministro Provincial, pelo amável convite para presidir esta Divina Liturgia, tão cara à vida desta Província que contará com mais dois sacerdotes. O Pai Seráfico, São Francisco, com referência ao sacerdócio assim disse: "E o Senhor me deu e ainda me dá tanta fé nos sacerdotes que vivem segundo a forma da santa Igreja Romana, por causa de suas ordens, que, mesmo que me perseguissem, quero recorrer a eles. E hei de respeitar, amar e honrar a eles e a todos os outros como a meus senhores." (01)

02. Deus nos dá a alegria de viver este momento de renovação do nosso amor ao Sacerdócio Católico, instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo para que o Reino de Cristo seja anunciado e a santidade dos sacramentos divinos comunicada aos fiéis em favor da santificação de todos.

03. O Santo Apóstolo Paulo na carta aos Coríntios nos convida a renovar a coragem no anúncio do Evangelho e na vivência do ministério, ao mesmo tempo que nos recorda que somos vasos de barro, frágeis mas que contém a preciosidade do tesouro que nunca passa, Cristo. O ministro de Deus apresenta este grande e belo tesouro aos corações dos homens e mulheres de todos os tempos. Não apresenta a si mesmo, pois se assim o fizesse, seria um atentado à verdade e o anúncio do Evangelho ficaria empalidecido pela sombra dos seus limites humanos. É preciso ser instrumento apenas e não o conteúdo do caminho que aponta. “É preciso que ele cresça e eu diminua”.

04. O ministro ordenado autêntico ama os átrios do Senhor, a casa de Deus, o lugar do espaço sagrado. Assim como o salmista, ele adentra os pórticos santos com um único intuito: louvar as grandezas do Deus Altíssimo e oferecer o Sacrifício que redime e alimenta nossa caminhada para a eternidade. O Sacerdócio Ministerial está intimamente ligado ao templo, lugar do altar, do sacrifício, da acolhida das oblatas. A Casa do Senhor é o oásis do ministro instituído na Ordem; lugar do silêncio, da adoração, da caridade e do amor que se renova a cada Eucaristia que culmina no grande ofertório litúrgico, a doxologia.

05. A Divina Liturgia é referencial para a Igreja Povo de Deus, sobremaneira para seus ministros. A vida litúrgica e sacramental nos coloca no limiar do mundo, na fronteira entre as trevas e as luzes. O mundo é velho, caduco e tíbio. Estamos no mundo, ensina-nos Jesus, mas não somos do mundo. Não ser do mundo é não dar-lhe escritura de si mesmo ou de suas realidades subjetivas. Jesus nos prometeu guardar dos ataques do mundo e de suas investidas brutais, mas precisamos fazer nossa parte e procurar entender o mundo a partir de dentro dele, não apenas com os recursos dos métodos das ciências sociais e humanas, mas a partir, e sobretudo, do “discernimento dos espíritos”. Quando Jesus nos fala do “estar” não nos deu permissão para agir como o mundo quer. A Igreja ordena seus filhos sacerdotes e estes travam diuturnamente uma grande batalha: a santificação e a salvação das almas.

06. O Ritual da Ordenação Sacerdotal é um tesouro que toca nossas almas sacerdotais a cada momento que o revemos e com ele rezamos nas datas especiais da nossa vida sacerdotal. O primeiro ato deste rito é o da eleição. O Diácono chama o candidato pelo nome. O escolhido e eleito, como que de um salto, se levanta e se posta diante do Bispo e em voz alta diz: “ad sunt!”, aqui estou. Nesta hora o coração do eleito gela e, ao mesmo tempo, efervesce, pois chegou a grande hora, a hora da entrega para sempre. É o momento mais feliz de um Bispo, de uma Congregação ou Diocese, pois não há festa maior do que a ordenação de um candidato seguro e cheio de Deus.

07. O gesto do ordinando prostrar-se diante do altar remete ao despojo de si, da entrega, do mergulho na solidão da Cruz de Cristo, para levantar-se com total disposição de entregar sua vida e consumi-las em favor do Evangelho. Prostrado o eleito mergulha nos caminhos da prece litânica da Ladainha de todos os santos. O padre que ama o seu sacerdócio, que vive com integridade sua entrega, sabe muito bem dizer o que aquele momento representou para sua vida no dia de sua ordenação. Ao final da ladainha o bispo, solene e olhando para o eleito estirado ao chão, suplica a oração do povo em favor do eleito ao cargo de Presbítero.

08. O momento central da Ordenação Sacerdotal se dá com o gesto da imposição das mãos. Primeiro o Bispo impõe suas mãos ungidas pela apostolocidade na cabeça do eleito, silenciosamente. Na sequência todos os sacerdotes concelebrantes. Inerme e embebido pela beleza do gesto ritual, o eleito vai sentido o pousar das mãos dos seus novos irmãos no ministério que na sinfonia do silêncio evoca o mais sublime amor que vem da Igreja. É a prova do Mistério indelével da graça que marca o eleito para sempre. “Tu es sacerdos in eternum”. A seguir temos a belíssima Prece de Ordenação Presbiteral, profunda, aglutinante, mistagógica e anaminética que sela o eleito para sempre em Cristo e sua obra.

09. Após a prece de ordenação, o novo padre, recebe os paramentos sacerdotais, a estola e a casula. Um padre o reveste. Neste momento, o olhar do novo padre percorre rapidamente o seu corpo de cima a baixo e contempla algo singular, as vestes sacerdotais que o acompanharão para o resto da vida e, com as quais, no derradeiro momento neste mundo, deverá ser sepultado para a glória de Deus.

10. O novo padre parece, neste momento, viver uma letargia sobrenatural, foge-lhe o tempo e o mesmo é fisgado pela eternidade de Deus, pois a partir de então será um com Cristo, pois fará as vezes d’Ele ao administrar os Santos Mistérios. O cerimoniário o levará diante do Bispo. O neo-sacerdote, ajoelhado, em atitude humilde, apóia suas mãos espalmadas para cima sobre o colo do Bispo que as unge com o óleo santo do crisma. Enquanto o Bispo faz deslizar com seus dedos o óleo sobre as mãos gélidas e trêmulas do novo padre, ecoa pelos lábios do grande sacerdote, o Bispo, as doces palavras: “Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem o Pai ungiu com o Espírito Santo, e revestiu de poder, te guarde para a santificação do povo fiel e para oferecer a Deus o santo Sacrifício”. Há um costume secular de o Bispo cingir as mãos do neo sacerdote em sinal de atamento total a Cristo. Quem as desata, em seguida, é a pessoa a quem por primeiro receberá a bênção do novo padre. Geralmente a mãe ou quem lhe faz as vezes. Por último, o novo padre recebe o abraço do Bispo e dos sacerdotes presentes que osculam suas suaves e perfumadas mãos que, de ora em diante, serão as mãos do própria Jesus a abençoar e consagrar.

11. Momento sublime é a entrada das oblatas, pão e vinho, a serem oferecidas no Santo Sacrifício da Missa que são entregues ao Bispo que as entregam ao novo padre, ajoelhado diante de si, dizendo: “Recebe a oferenda do povo santo para apresentá-la a Deus. Toma consciência do que vais fazer e põe em prática o que vais celebrar, conformando tua vida ao mistério da cruz do Senhor”.

12. É um dia inesquecível para o novo padre, para seus familiares e para a Igreja. O sacerdote é ordenado para servir o Povo de Deus em estreita colaboração com o bispo local e, no caso dos religiosos, com seus superiores. A primeira atenção do padre é a evangelização, a Divina Liturgia, a catequese, a formação das consciências e o Sacramento da Misericórdia. O projeto sacerdotal não é o do padre, mas o da Igreja. Não somos ordenados para fazer o que queremos, mas realizar o que Deus quer de nós através da Igreja.Fiat voluntas tua”. Um sacerdote subjetivista que quer levar sua vida sacerdotal do jeito que bem entende causa sofrimentos aos seus superiores e à sua comunidade, além de afundar-se no vazio e abandonar o barco.

13. Amados Freis Fernando e Paulo Maria, os senhores são uma grande esperança para a Igreja nestes tempos de “ditadura do relativismo e do hedonismo”. A Igreja espera que os senhores sejam sacerdotes santos e fiéis até o fim. Lembro-lhes alguns acenos do Beato João XXIII na Encíclica “SACERDOTII NOSTRI PRIMORDIA", de 01 de agosto de 1959, ocasião da celebração dos 100 Anos do Cura D’Ars, São João Maria Vianney.

14. "A grandeza do sacerdócio está na imitação de Jesus Cristo", os padres estarão, pois, mais do que nunca, atentos aos apelos do divino Mestre: "Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me..." (Mt 16,24). O santo cura d'Ars, segundo se afirma, "tinha meditado muitas vezes estas palavras de nosso Senhor e esforçava-se por pô-las em prática". Deus concedeu-lhe a graça de se conservar heroicamente fiel a elas; e o seu exemplo guia-nos ainda no caminho da ascese onde ele, resplandeceu brilhantemente pela pobreza, castidade e obediência”. (SNP, nº 11)."Ao ver que os homens vendem e compram, tudo pelo dinheiro, os padres caminhem desinteressadamente pelos engodos do vício, e desprezando todo baixo desejo de ganhar, busquem almas e não dinheiro, a glória de Deus e não a sua!" (SNP, nº 13).

15. O padre é chamado a viver integralmente, com alegria a castidade. São João Maria Vianney, pobre de bens materiais, foi igualmente exemplo de voluntária mortificação da carne. "Não há senão uma maneira de se dar a Deus no exercício da renúncia e do sacrifício - dizia ele - isto é, dar-se totalmente". E, em toda a sua vida, praticou, em grau heróico, a ascese da castidade. São Pio X chamava a castidade sacerdotal de "o mais belo ornamento da nossa ordem". Foi dito pelo cura d'Ars: "A castidade brilhava no seu olhar" (SNP, nº 15). Esta ascese necessária da castidade, longe de fechar o padre num estéril egoísmo, torna o seu coração mais aberto e mais acessível a todas as necessidades dos seus irmãos. Dizia otimamente o Santo Cura: "Quando o coração é puro não pode deixar de amar, porque encontrou a fonte do amor, que é Deus" (SNP, nº 18).

16. O padre é chamado a ser obediente. João XXIII nos lembra que são numerosos os testemunhos sobre o espírito de obediência do Cura D’Ars, podendo afirmar-se que para ele a exata fidelidade ao "prometo" da ordenação foi motivo para uma permanente renúncia de quarenta anos. Durante toda a sua vida, com efeito, aspirou à solidão de um santo retiro, e as responsabilidades pastorais foram para ele pesado fardo, do qual por várias vezes tentou libertar-se. Mas sua obediência total ao Bispo foi mais admirável (SNP, nº 20). Assumir a obediência é ter aberto o caminho para viver as demais exigências do ministério sem se titubear. A obediência quebra o orgulho e subtrai de nosso interior as paixões egoístas que nos sucumbem. (SNP, nº 23).

17. Homem de penitência, São João Maria Vianney tinha igualmente compreendido que "o padre, antes de tudo, deve ser homem de oração" (SNP, nº 24). Não é necessário delongar aqui sobre a importância da oração na vida do padre. A Liturgia das Horas, a adoração ao Santíssimo Sacramento e sua Missa diária bem preparada e bem celebrada fortalece o ministro contra a tibieza e a acídia espiritual. O Povo conhece o padre que reza. Nossa missão de sacerdote e rezar e ensinar a rezar.

18. Aos padres, lembrava João XXIII, o perigo do ativismo em relação a vida espiritual. "O que impede a nós padres de sermos santos, é a falta de reflexão. Não entramos em nós mesmos; não sabemos o que fazemos. Precisamos da reflexão, da oração, da união com Deus". O Santo de Ars "mantinha uma união constante com Deus no meio da sua vida excessivamente ocupada". Para ele, o padre é, antes de tudo, um homem de oração (SNP, nº 25). A adoração de Jesus, nosso Deus, a Ação de Graças, a reparação pelas nossas próprias faltas e pelas dos homens, a súplica por tantas intenções que lhe são confiadas, elevam este padre ao máximo de amor para com o divino Mestre a quem prometeu fidelidade e para com os homens que confiam no seu zelo pastoral. É pela prática deste culto, esclarecido e fervoroso para com a Eucaristia, que um padre aumenta a sua vida espiritual e se prepara as energias missionárias dos mais valorosos apóstolos (SNP, nº 29).

19. "Se vós quiserdes que os fiéis orem com devoção dai-lhes vós o exemplo, na Igreja, fazendo as orações na sua presença. Um padre ajoelhado diante do sacrário, numa atitude exterior respeitosa e em profundo recolhimento, é para o povo objeto de educação, um aviso, um convite à emulação na prece" (SNP, nº 30). Há na Igreja sacerdotes que escarnecem desses ensinamentos e práticas. Não são poucos, porque querem viver como qualquer homem do século: não rezam, quando o fazem, fazem mal, não celebram todos os dias, têm vergonha de serem padres e, por isso, sequer têm coragem de usar o distintivo clerical, uma afronta à orientação da Igreja, sentem-se mal quando reconhecidos como sacerdotes no meio do povo, têm preguiça de atender às confissões e compactuam com as práticas pagãs dos homens perversos de nosso tempo. Por causa dessa frivolidade sacerdotal temos padres indiferentes aos fiéis que ingressam nas associações secretas que maquinam contra a Igreja, além de dar destaques ao católicos desobedientes que a elas se filiam e continuam a comungar.

20. Ao longo dos meus 25 anos de sacerdócio nunca vi padres deixarem o ministério e trair a confiança dos seus superiores e do povo fiel porque rezaram. Repito: o mal está na desobediência. A desobediência começa nas rubricas do Missal Romano e na avacalhação litúrgica. O Santo Padre Bento XVI, ao referir às dificuldades atuais da Igreja disse: “Estou convencido de que a crise da Igreja na qual hoje nos encontramos depende em grande parte do desmoronamento da Liturgia" (02).

21. São Pio X disse: "Para fazer reinar Jesus Cristo no mundo, nada é mais necessário do que um clero santo, que seja, com o exemplo, com a palavra e com a ciência, guia dos fiéis". Um padre se santifica pela Santa Eucaristia, Santo Sacrifício de Cristo que se atualiza em nossos altares. Todo o empenho pastoral, toda a entrega nos diversos serviços de evangelização deve ter como ponto de partida e de chegada a Santa Missa. O padre é para a Eucaristia e a Eucaristia é para ele! Ao lado dessa grandeza se situa o Ministério da Confissão Sacramental e a efetiva realização dos sacramentais. Estes mistérios nos realizam, pois são essenciais e não secundários como os secularistas, relativistas e hedonistas querem fazer ver em nossos dias. A Santa Missa, repito, é centro da vida do padre! Freis Fernando e Paulo Maria, demais sacerdotes e futuros sacerdotes aqui presentes, celebrem a Missa sempre, como se fosse a primeira, como se fosse a última, como se fosse a única! Assim os trabalhos pastorais com jovens, crianças, casais, idosos e tantos outros serviços urgentes na evangelização vão fluir intensamente. É por aí que devemos começar a renascença espiritual e evangelizadora da nossa Igreja nestes tempos de mares revoltos.

22. Neste momento solene e tão abençoado, lembrado de tantos benefícios obtidos e na esperança de novas graças, faremos nossa a invocação mariana, que era familiar ao referido ao Cura de Arns em favor de nossos ordinandos: "Bendita seja a Santíssima Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus! Que todas as nações glorifiquem, que toda a terra invoque e bendiga o vosso Coração Imaculado!" (SNP, nº 67). Amém!

01. Canção Nova, pensamento dos santos.

02. La mia vita, Edizioni San Paolo, pp. 112 e 113, Roma 1997.


+ Adair José Guimarães

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