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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Cornu Epistolae


Todos devem ter visto nos blogs e também nas redes sociais o Santo Padre usando o Fanon no dia de ontem. Outra novidade que pode ter fugido à vista de alguns é uma interessante disposição do local onde foram feitas as leituras. Não um, mas dois ambões foram usados. E não é a primeira vez! Na abertura do Sínodo dos Bispos e também na do Ano da Fé, os cerimoniários pontifícios já haviam colocado na Praça de São Pedro um outro ambão para as leituras "ao sul" do altar.

O ambão da epístola, foi colocado na parte posterior da escadaria da basílica, que serve de presbitério à celebração. À mesma distância do altar que o outro ambão. De lá se fizeram as leituras, foi cantado o salmo e, ao final da liturgia da palavra se fez a oração dos fiéis.

  
O ambão da epístola, segunda leitura sendo feita por um ministro oriental

O ambão do lado direito, que já era usado, estava notavelmente mais enfeitado e ali foi proclamado apenas o evangelho. Isso corresponde a prática prevista no missal de 1965, que conservava os lados "cornu epistolae" e "cornu evangelii", mas já reinstitui a prática do uso do ambão como obrigatória na liturgia.

 O ambão do Evangelho, diácono cantando o evangelho

Cabe-nos agora fazer a ponte entre a liturgia da 1965 e a liturgia atual. Para isso precisaremos ir um pouco antes: estudar a origem desta peça na arquitetura das igrejas cristãs, que está antes mesmo da origem do cristianismo. O ambão já era encontrado na liturgia da Sinagoga e também nas cortes civis para uso dos advogados. Passou então à nossa liturgia com uma facilidade muito grande, sendo largamente encontrado na arquitetura cristã já nos primeiros séculos.

No século V, era comum encontrar nas igrejas maiores dois ambões, como se pode verificar na Basílica de Santo Anselmo. Um, à direita, era próprio do bispo sempre que não falava da cátedra e do diácono ao cantar o evangelho, ao lado do qual mais tarde se colocaria o castiçal para o círio pascal. O outro, à esquerda, era divido em dois planos, o mais alto usado pelo sub-diácono para cantar a epístola, o mais baixo era próprio daquele que cantava o responsório-gradual. Daí vem o nome do próprio canto "gradual", que quer dizer cantado nos degraus do ambão.

Com o passar do tempo, porém, os ambãos desapareceram quase que completamente do rito romano. Na missa solene, o subdiácono cantava a epístola de um lado do presbitério, tendo o epistolário segurado por um acólito; o diácono, por sua vez, era ajudado pelo subdiácono ao cantar o evangelho. Na missa baixa, as leituras eram feitas das beiradas do altar, mantendo-se, entretanto, a localização primitiva de cada texto litúrgico: a epístola era feita à esquerda, enquanto o evangelho à direita. Desse uso surge a expressão "cornu epistolae" e "cornu evangelii" e até mesmo a separação do próprio espaço sagrado em lado da epístola e lado do evangelho.

A homilia, porém, não perdeu seu lugar, passando a ser feita dos púlpitos. Estes, embora tivessem uma aparência semelhante a dos ambões, diferia significativamente de seus ancestrais por um detalhe interessante: não eram usados pra a missa propriamente dita, uma vez que a homilia não era tida como parte da missa. E isso se indicava por vários meios. A homilia poderia ser feita antes ou depois da missa ou, simplemente, sem ligação com ela; quando feita durante a missa, o sacerdote, se fosse também o pregador, depunha a casula ou ao menos o manípulo, indicando a "suspensão" da mesma para a pregação.

Assim, os ambões da liturgia primitiva eram peças de uso litúrgico, enquanto os púlpitos não o eram. É comum ainda observar-se nas igrejas, como é o Caso da Catedral de São Paulo-SP, dois púlpitos, um de cada lado da igreja. Isso em nada reflete os dois ambões que se costumava ter e que o missal de 1965 exige de volta. A presença de dois púlpitos serve para que o pregador possa ser visto pelo bispo (que tradicionalmente se senta do lado direito) ou pelo presbítero (do lado esquerdo), quando não é o mesmo clérigo que oficia a missa e faz a homilia.

Voltando aos dias mais atuais, vemos que as reformas do século XX acabaram por recolocar os ambãos no rito romano, primeiro dois ambões, segundo as rubricas de 1965, depois apenas um ambão, conforme o missal de 1970 e posteriores. Vale ressaltar, entretanto, que, segundo as rubricas de 2002, não se proibe explicitamente o uso de dois ambões, embora toda a IGMR trate do ambão, sempre usando o singular. E parece ser nesse ponto que o Departamento de Celebrações litúrgicas do Sumo Pontífice dá mais um passo "ad fontes".


Ambão da epístola, coralista canta o salmo na missa de abertura do Sínodo dos Bispos

O uso de dois ambões torna a forma ordinária mais de acordo com a forma extraordinária do rito romano, sendo, um passo na direção da reforma da reforma de Bento XVI. Pode ser um pouco precipitado dizer, mas parece que dois ambões passarão a figurar nas missas papais.


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