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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Música na liturgia: orientada ao canto gregoriano


Publicamos tradução e adaptação de trechos do artigo “'Oriented toward gregorian chant'? What does this phrase mean?”, da Irmã Joan L. Roccasalvo, C.S.J.*, publicado na Catholic News Agency. Os grifos são nossos.

Foto: Gabriel Gilder (FutureFashion)

Características da Música Orientada ao Canto Gregoriano

Para começar, música da liturgia deve soar diferente de música da rua, música de um show de rock, música cantada em uma discoteca ou música para filmes. Ela difere dos sons tipicamente associados com música romântica. É oração que se canta, oração que carrega a marca do silêncio. A orientação para o canto gregoriano envolve melodia, ritmo, tipos de som e harmonização.

Melodia. Melodias baseadas no paradigma do canto apresentam as seguintes características. Primeiro, a melodia se move para cima ou para baixo, de forma gradual. Ela quase não tem saltos mais amplos do que uma terça. Segundo, se os intervalos maiores do que uma terça são usados ​​para intensificar um texto, eles são seguidos por uma subida ou descida gradual. Um amplo intervalo ascendente de uma quinta é seguido por progressão escalar descendente; um amplo intervalo descendente de uma quinta é seguido por uma progressão escalar ascendente. Esta estrutura melódica foi quase sempre seguida por J. S. Bach. O perfil de uma linha melódica parece-se com uma onda suave. Melodias cantadas com afetação ou maneirismo peculiar não são compatíveis com a orientação para o canto gregoriano.

Ritmo. O Ritmo baseado no paradigma do canto é flexível e não tem batida vertical, por exemplo: 1-2; 1-2-3; 1-2-3-4; 1-2-3 4-5-6. Esses acentos caem verticalmente na primeira batida, ou, se não, em uma batida sincopada, algo similar ao jazz. Ritmos bruscos, pesados e frenéticos encontrados na cultura popular não são compatíveis com a orientação para o canto gregoriano. O ritmo que mais se aproxima do canto gregoriano é o padrão de subidas e quedas de ondas suaves. A batida ou tactus sobe e desce, e move-se direcionadamente, mas sem uma batida sobe-desce cadenciada.

Som. A voz é o instrumento natural que expressa os sentimentos do coração de forma mais significativa do que um instrumento musical. O órgão, o rei de todos os instrumentos, é preferível se suporta levemente as vozes. Os instrumentos de metal que, por sua própria natureza, clamam proeminência, devem ser usados ​​com moderação ou em ocasiões especiais. Nem eles nem qualquer instrumento musical devem sobrepor as vozes. Na Missa da Ressurreição, de Randall DeBruyn, os instrumentos de metal sobrepõem-se as vozes com seu barulhento som percussivo, o que a torna uma composição de missa inapropriada.

Harmonia. A maioria do canto é monofônico, cantado sem instrumentação. Mas alguns cânticos se prestam bem à harmonização. Hoje, até mesmo o canto gregoriano foi colocado em harmonias simples. As harmonias não devem assemelhar-se ao complexo estilo contrapontístico que foi banido na época da Contra-Reforma. Em conclusão, a música orientada para o canto gregoriano é a música que foi reduzida e purificada a partir do som secular.

Música Litúrgica Contemporânea: os Ordinários e os Próprios da Missa

Hoje ninguém advocaria que o canto gregoriano seja a única música cantada nas comunidades paroquiais. Esperemos que os mosteiros de clausura permitam que suas 3.000 ou mais melodias floresçam para o bem de seus hóspedes e para os tempos. A continuidade do tesouro musical da Igreja não reclama meramente o passado, também acolhe a música contemporânea que carrega a marca do transcendental.

Há uma ênfase renovada em duas direções, ambas essenciais para a participação plena dos fiéis na Missa. Primeiro, estamos testemunhando uma renovação no cantar a Missa. Ou seja, cantar as partes do Ordinário: Kyrie, Gloria, Sanctus e o Agnus Dei. Existem 18 Missas com ordinários em canto gregoriano no Liber Usualis, o livro litúrgico contendo as peças completas de canto gregoriano em latim para cada Missa do ano [NdT.: em se tratando do Ordinário da Missa, as missas em gregoriano estão tanto no Liber Usualis como no Graduale Romanum. Contudo, este último é o livro de hinos litúrgicos próprios da Missa, trazendo também os hinos em gregoriano para o Próprio, tendo sido reeditado em 1974, conforme a reforma litúrgica. Já o primeiro é mais abrangente, traz também hinos para o Ofício Divino, e não foi reeditado após a reforma litúrgica]. As Missas mais fáceis são a XVI e a XVIII, que podem ser cantadas durante a Quaresma e o Advento.

Segundo, há um interesse renovado em cantar o Próprio (as partes móveis) da Missa em vernáculo, devido aos ricos textos retirados do Velho e do Novo Testamentos. Nos anos pós-conciliares testemunhou-se muitas paróquias abandonarem as partes do Próprio prescritas para a Missa: a Entrada (ou Intróito), o Gradual [NdT.: e mesmo o Salmo Responsorial, que durante muito tempo foi substituído por um “canto de meditação”], a Antífona de Comunhão.
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O artigo termina mencionando alguns compositores que seguem esta orientação ao gregoriano, que mencionaremos a seguir. 

Para composições em inglês, a Irmã Roccasalvo destaca os compositores do Corpus Christi Watershed, um apostolado dedicado à difusão da bela música litúrgica, bem conforme a orientação ao gregoriano retratada neste artigo. Dentre os compositores de música “moderna, acessível e bela” cita: Kevin Allen, Fr. Samuel Weber Bruce E. Ford, Jeff Ostrowski, Aristotle A. Esguerra, Arlene Oost-Zinner, Brian Michael Page, Richard Rice, Ian Williams, Kathy Pluth, David Frill, Chris Mueller, Richard Clark, Noel Jones, Charles Culbreth, Jacob Brancke e outros. 

Mas a influência do canto gregoriano vai muito além. A irmã também lembra a música da comunidade monástica francesa ecumênica de Taizé, “que criou música de silêncio e encanta aqueles que a cantam - ou melhor, rezam-na”, com hinos de ritmo livre como “Jesus, remember me when you come into your kingdom.” e “Stay here, remain with me, watch and pray”. Bem como os salmos do Pe. Joseph Gelineau, S.J., que “expressam uma pureza cristalina que é absoluta beleza, se cantadas adequadamente, e a música de Richard Proux, “que merece menção, bem como sua adorável revisão da The Community Mass” [NdT: é um arranjo de missa originalmente de 1971, bem conhecido nos Estados Unidos, revisado por Proux para a nova tradução do Missal Romano. É possível ouvi-la aqui].

“Toda música apropriada à igreja - polifonia, motetos, saltérios protestantes e outros hinos encontraram modos de adaptar seus próprios estilos às melodias e ritmos do cantochão. A música sacra das escolas Elizabetana e Anglicana, da Ucrânia e da Rússia, hinódia Protestante Reformada e muitos compositores contemporâneos também pertencem ao tesouro ampliado da Igreja, porque a sua estrutura assemelha-se a do canto gregoriano”. Hinos protestantes clássicos como “Old One Hundredth”, “For All the Saints”, “Lift High the Cross”, e muitos outros, todos beberam do gregoriano.

Mesmo grandes compositores também sofreram grande influência do gregoriano, como David Wilcox, Lucien Deiss, Leo Sowerby, Noël Goemanne, Flor Peters, e Healy Willan. E também compositores como JohnTavener e Arvo Pärt, que basearam quase todas suas composições em cantochão.


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Dito isto, podemos dizer que também visualizamos esta mesma ênfase aqui no Brasil, embora o processo não esteja tão adiantado. Podemos citar como exemplo o trabalho sendo feito pela Arquidiocese de Campinas.

Certamente a nova tradução do Missal para o português, que ansiosamente aguardamos, será o ponto de partida para uma nova e renovada safra de música adequada à liturgia, pois orientada ao canto gregoriano.


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