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domingo, 8 de setembro de 2013

Setembro: mês da [entrada da] Bíblia?


Já estamos em Setembro, o mês das Sagradas Escrituras. A ideia de ter um período para a Bíblia  tem como objetivo fazer a igreja estudar mais a fundo o que são os livros que compõe a Bíblia, sua origem, sua importância e, nesse processo, aprender que as Sagras Escrituras nasceram da Igreja e não o contrário.

Objetivos à parte, o que se vê na prática litúrgica das paróquias é uma vontade de se dar destaque aos textos bíblicos, vontade esta legítima; todavia ela acaba sendo levada a cabo de maneira desastrosa.

Não raramente o mês da Bíblia se transforma do mês da "entrada" da Bíblia. Finda a oração do dia, ou mesmo depois da saudação do sacerdote, uma Bíblia ou um Lecionário é levado até o presbitério, por vezes o Evangeliário antes ou durante o Aleluia. Pode ser de maneira simples, com alguém andando pelo corredor central, pode ser cercada de velas, ou com balé, dentro de um coco, com uma menina sobre um "andor", com músiva e movimentos de capoeira, dentro de um carrinho de mão... nós sabemos muito bem como as equipes de liturgias e os folhetos litúrgicos sabem ser "criativos".

E é assim que o mês da Bíblia vira o mês da entrada da Bíblia, assim como em Maio tem a entrada de Nossa Senhora, Junho do Sagrado Coração de Jesus. E toda a riqueza do rito romano se resume a "entradas" temáticas, convertendo-se em pedagogia; e pedagogia velha: a mesma que adora umas plaquinhas com coisas escritas, comentários mais longos que as orações às quais deviam servir de introdução e alguém falando "de pé" e "sentados". Se na sua paróquia não tem nada do que foi mencionado nos últimos dois parágrafos, agradeça por que existem paróquias no Brasil em que mais se explica do que se reza, algo de dar inveja a Calvino!

Voltando à vontade legítima de dar destaque aos textos bíblicos, poderíamos citar algumas possibilidades lícitas e louváveis. A primeira é o uso do livro dos Evangelhos ou evangeliário, é um livro distinto do lecionário, que contém apenas os evangelhos dos domingos e principais solenidades.

Se se deseja usar o evangeliário em outro dia, pode-se "vestir" um lecionário, que contém os evangelhos de todos os dias como o evangeliário, com sua capa ricamente decorada. O evangeliário é levado um pouco elevado na procissão pelo diácono, na sua falta pelo leitor e posto sobre o altar. O evangeliário toma lugar na procissão entre clérigos e leigos, se o diácono que o leva deve ser o primeiro dos diáconos, se o leitor, o último dos leitores.  Ele pode ser posto "deitado" ou "de pé" sobre o altar, desde que não haja risco de ele vir a cair naturalmente.

Capa de evangeliário do século XII


Durante a aclamação ao Evangelho, o diácono, na sua falta o próprio sacerdote, vai até o altar, faz reverência e toma o livro e, omitindo-se nova reverência,e o leva para o ambão de maneira solene.

Nas igrejas menores em que o ambão está muito próximo do altar, convém fazer um caminho mais longo para ressaltar a solenidade do Evangeliário. Nessa procissão tomam lugar ainda o incenso e dois castiçais que tomam lugar nessa ordem à frente do evangeliário. Vale ressaltar que usam-se os castiçais, mesmo que já esteja ali o círio pascal aceso (como acontece no tempo pascal, exéquias e batismos).
 
 Procissão durante a aclamação ao Evangelho

No ambão, abre-se o livro. Diz-se a introdução e imediatamente antes do inicio do texto bíblico ele é incensado. Durante toda a proclamação, os castiçais com velas acesas permanecem junto do ambão.

Ao fim da proclamação, o diácono beija o livro ou, se for o Bispo a celebrar, pode levar o livro para que o Bispo o beije e abençoe o povo com o livro. O povo se inclina como que para a bênção final e traça sobre si o sinal da cruz.

Bento XVI osculando o evangeliário

 Papa Francisco abençoando os fiéis com o evangeliário

Salvo se for ordenação de diácono ou de bispo, o evangeliário retorna à sacristia. Além da procissão de entrada e durante a aclamação ao Evangelho, não se leva este livro em nenhuma outra procissão. O lecionário nunca é levado em procissão, salvo no rito de dedicação de igreja quando os leitores e o salmista levam-no até o Bispo e este, dizendo a fórmula "A palavra de Deus ressoe sempre..." o introduz na igreja a ser dedicada, o devolve ao primeiro leitor que o coloca no ambão. Essa é a única "entronização da Palavra" que existe.

 Leitora entregando o lecionário ao papa na dedicação de uma igreja

A Bíblia propriamente dita nunca se leva em procissão, ela pode e é louvável que esteja presente na igreja, mas não toma parte dos ritos litúrgicos.

Dentro da liturgia existem ainda outros pequenos costumes que podem ressaltar as sagradas escrituras, como colocar o evangeliário deitado sobre o altar e, sobre ele estender o corporal e ali colocar o ostensório. Existe outros pequenos gestos, frutos de uma sadia criatividade que não deturpa o Rito, ao contrário, o enriquece.





  Bibliografia
  • Cerimonial dos Bispos: 128, 140, 141, 895;
  • Introdução Geral do Missal Romano (3ª edição): 60, 133, 134, 172, 175.
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