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terça-feira, 15 de outubro de 2013

A "episcopalite" do Rito Romano - reflexão sobre os tipos de missa nas rubricas da forma ordinária


"Episcopalite" é um termo jocoso usado para falar do mal que parecem aqueles que desejam o ministério episcopal. De certa forma, a liturgia presbiteral da forma ordinária do Rito Romano padece de uma certa inclinação à episcopalização, isto é, já não se distingue tão bem como na forma extraordinária a missa do presbítero e a missa do bispo como na forma extraordinária.

Nas rubricas da forma extraordinária notamos uma graduação bem mais clara entre as diferentes formas de missa. Há uma clara distinção entre missa alta (solene) e missa baixa  (simples) com a presença ou ausência de diácono e sub-diácono e estes ministros eram responsáveis por modificar consideravelmente os ritos de toda a missa, mas de maneira notável da liturgia da palavra. A epístola e o evangelho passam de tarefas do sacerdote para tarefas desses ministros, por exemplo.

 Missa Solene na forma extraordinária, com diácono e Subdiácono

Missa simples na forma extraordinária, sem diácono ou subdiácono

Para a forma ordinária, a Introdução Geral do Missal Romano traz dois tipos de missa: "com diácono" e "sem diácono", talvez estivesse aí a antiga distinção entre os tipos de missa. Todavia, não nos parece que a presença do diácono por si só torne a missa solene. Vale lembrar que os diáconos podem auxiliar em missas menos simples, podendo inclusive fazer uso apenas de estola sobre a alva, como diz a Introdução Geral do Missal Romano:

"119.      Na sacristia preparam-se as vestes sagradas (cf. nn. 337-341) do sacerdote, do diácono, e dos outros ministros, segundo as diferentes formas de celebração:
a) para o sacerdote: alva, estola e casula ou planeta;
b) para o diácono: alva, estola e dalmática; esta, por necessidade ou por motivo de menor solenidade, pode omitir-se;
c) para os outros ministros: alva ou outras vestes legitimamente aprovadas."

Celebração ferial na forma ordinária com assistência de diácono, todavia missa simples

Estaria aí, no uso da dalmática, a clara distinção entre missa solene e missa simples na forma ordinária? É uma leitura possível, mas ainda há de se levar em conta a proibição de presbíteros servirem vestidos como diáconos, realizando todavia a função destes, como nos lembra o Cerimonial dos Bispos:

"22.        Se faltarem diáconos, [os presbíteros] supram alguns ministérios dos diáconos, sem porém se apresentarem com vestes diaconais."

Deve-se considerar então o caso da missa solene (até mesmo pontifical) com a ausência de diáconos propriamente ditos. Vê-se assim que a definição de missa solene da forma ordinária é bastante confusa, ou ainda inexistente. Parece-nos que na forma ordinária os tipos de missa não são, como dizemos em linguagem de exatas, "discretizados".  Não existe uma distinção clara entre onde acaba a missa solene e onde começa a missa simples, ao contrário, existem missas mais solenes e menos solenes conforme possuam mais ou menos elementos característico de solenidade.

Embora isso não seja algo tradicional no rito romano, que sempre manteve os tipos de missa muito bem definidos (rezada, cantada e solene), essa subjetividade poderia ter um lado pastoral bom, uma vez que permite às diferentes comunidades terem missa solene de acordo com suas possibilidades e não manteria, por exemplo, às paróquias que carecem de diácono, privadas da missa (mais) solene.

É claro que efeitos colaterais existem, como a perda gradual da noção de missa solene e a necessidade de se celebrar ao menos algumas vezes no ano a missa solene com TODOS os elementos de solenidade do rito. Quantas paróquias no nosso país perderam completamente o incenso ou mesmo o uso da missa cantada?

Nesse sentido de abolir tipos bem definidos de missa, muitas vezes se suprime até mesmo a diferenciação entre missa dominical e missa semanal. Embora a reforma litúrgica tenha feito um trabalho louvável nesse sentido, acrescentado uma leitura aos domingos, insistido na primazia do dia do Senhor e criado todo um esquema de leituras para as missas feriais, cuja liturgia da palavra deixou de ser simplesmente repetição do domingo, não é raro que em algumas comunidades não se tenha esse uma diferenciação clara entre tais missas.

Seria bom que alguns elementos facultativos da santa missa fossem reservados às missas dominicais, por exemplo, a procissão do ofertório, na qual fiéis levam as oferendas até o sacerdote, a oração dos fiéis e o beijo da paz. Não se esquecendo é claro dos elementos que obrigatoriamente estão presentes na missa dominical e ausentes nas missas feriais como o glória e o creio.

No que diz respeito à liturgia episcopal acontece algo semelhante. Embora a missa estacional (pontifical) tenha um elemento inconfundível e decisivo o bispo — na forma ordinária, existe pouca diferença entre a missa solene e a missa estacional do bispo. Isso ocorre pela perda de alguns elementos que são próprios da missa pontifical que nem mesmo o bispo faz uso em missas mais simples.

O primeiro e principal elemento é a cátedra. Na forma extraordinária também chamada de trono, possui  uma arquitetura distinta, inclusive com o baldaquino, proibido pelo Cerimonial dos Bispos reformado, de modo que só existe ainda apenas naquelas catedrais construídas antes da reforma litúrgica. A cátedra embora na forma ordinária ainda exista e seja exclusiva para uso do bispo é usada também nas missas mais simples celebradas por ele e não apenas para a missa pontifical ao trono. Também o presbítero passou na forma ordinária a ter uma cadeira: a sédia (sede). Em tese a sédia se distingue notavelmente da cátedra; na prática, porém, essa diferença só se observa na catedral, quando um presbitero celebra e deixa a cátedra vazia. 

 Cátedra de Atenas, na Grécia, apesar da simplicidade destaca-se pelo dossel

Existe ainda um segundo elemento episcopal a se comentar, o faldistório, que entrou em extinção. Ele é usado para o bispo se ajoelhar, para se sentar para algum rito sacramental ao centro do presbitério ou proferir a homilia, mas seu principal uso na forma extraordinária, e apenas nesta, é ser usado quando o bispo celebrava fora da catedral, nas demais igrejas da diocese (ou os bispos auxiliares mesmo na catedral), o Bispo senta-se ao lado esquerdo do presbitério no faldistório. Na forma ordinária com as sédias em cada igreja, é ali no lugar costumeiro do presbítero que o Bispo se senta, prescindindo de faldistório.

Ao redor deste dois elementos, cátedra e faldistório, podemos discutir toda a dinâmica da liturgia episcopal na forma antiga do Rito. A liturgia do Bispo gira ao redor da cátedra, assim a missa do bispo é muito bem dividida entre "ritos da cátedra" e "ritos do altar". Inclusive os ministros que servem na missa estão associados a um ou outro elemento. Existem os ministro da cátedra: dois diáconos-assistentes, um presbítero-assistente e seis acólitos-assistentes; e os do altar: um diácono, um subdiácono e  acólitos.

 À frente, ministros da cátedra; atrás e mais próximo ao bispo, ministros do altar.

No início da liturgia, o bispo se dirige ao altar, faz ali todos os ritos inicias, das orações ao pé do altar até a incensação do altar, inclusive. A partir daí se dirige para a cátedra. É nela que acontecem todos os demais ritos anteriores à preparação do altar. As bênçãos do subdiácono e do diácono por ocasião das leituras da epístola e do evangelho, e também a do incenso para este último, são realizados da cátedra estando Bispo sentado. Na liturgia do presbítero, o seu assento não é "lugar litúrgico", não se realizam ali ritos; na liturgia presbiteral tudo se faz no altar, desde a bênção dos ministros até a do incenso tudo é feito do altar e de pé, não compete ao presbítero sentar-se para realizar ritos sagrados.

Bento XVI recebe sentado o pão e o vinho dos fiéis

Na forma ordinária, vemos que a liturgia do presbítero é muito tendenciosa à episcopalização, ao se aproximar muito da liturgia antiga do Bispo no que se refere ao local de execução dos ritos da primeira parte da missa e também nos ritos finais. Desde os ritos iniciais até a preparação do altar, o presbítero realiza de sua "cátedra", inclusive abençoando o incenso e o diácono para a leitura do evangelho sentado. Embora este detalhe não fique claro para a missa do presbítero na IGMR, o o excelente "Cerimonies of The Modern Roman Rite" de Dom Peter Elliott nos números 385-386 afirma que estes ritos são executados dessa forma e não com o sacerdote de pé.

No que diz respeito à homilia, o presbítero sobe sempre ao púlpito: ele é o local próprio da pregação. O Bispo, porém, fazer a pregação de seu lugar, a cátedra e a faz sentado por sua dignidade episcopal. Neste sentido, o caminho para confusão das liturgias é o oposto, não é tanto o sacerdote que executa o rito de forma mais próxima à liturgia do Bispo, até por que as rubricas da forma ordinária proibem claramente o sacerdote de pregar sentado, ainda que possa fazer a homilia de sua sédia. O que acontece é que cada vez mais os Bispos deixam de pregar sentados, ou mesmo de pregar da cátedra (ou faldistório), utilizando aquilo que é permitido pelas rubricas novas fazer a homilia do ambão, do púlpito ou de outro lugar conveniente.

 O Bispo profere a homilia sentado na forma ordinária

Vemos, portanto que a dinâmica característica da missa do presbítero e da missa do Bispo foram quebradas na forma ordinária do Rito Romano. Assim, quando o Bispo celebra uma missa, essa já não se apresenta com diferenças tão acentuadas em relação ao que se esperaria nas rubricas da forma extraordinária. E isto esvazia de simbolismo o ministério episcopal cujo detentor não é "primus inter pares" com seus presbíteros, mas é Sumo Sacerdote à frente de seu presbitério.

Para diferenciar estes dois tipos de missa seria bom um trabalho em duas frentes. A primeiro é dos próprios presbíteros de evitarem usar de elementos que possam ser demasiadamente episcopais, é claro que nem tudo pode ser deixado de lado. Por exemplo, o sacerdote na missa com o povo não está autorizado a realizar do altar os ritos iniciais as rubricas determinam que estes ritos sejam feitos da sédia. Mas naquilo em que há liberdade poderiam realizar do altar ou, se da sédia, ao menos que não permanecessem sentados. É o caso por exemplo de receber os dons trazidos pelos fiéis, seria melhor que o presbítero se levantasse ou se dirigisse à entrada do presbitério ou, ainda, ao altar.

Também seria interessante que os bispos fizessem um uso mais amplo daquilo que é próprio e exclusivo deles, não apenas os paramentos, mas também os gestos que são tradicionalmente episcopais, como a saudação "Pax Vobis" ou permanecer sentados para diversos ritos, o que inclui a homilia, ter diáconos e outros ministros que o sirvam na cátedra e outros no altar, abençoar os fiéis com o livro dos evangelhos; porém mais uma vez deve-se saber os limites que as rubricas novas impõem. Por exemplo não podem os diáconos que assistem o bispo na cátedra fazer uso de dalmática sobre a sobrepeliz ou deixar de usar estola, e o presbítero-assistente já não existe no rito novo.

O papa abençoando os fiéis com o evangeliário após a proclamação do evangelho, forma ordinária

É notável que para que a litúrgica retome perfeitamente a distinção entre liturgia presbiteral e a liturgia episcopal existe a necessidade de uma reforma das rubricas, isso não significa retirar a sédia do espaço celebrativo, mas retirar dela as funções próprias da cátedra e recolocar esses ritos no altar quando a missa é celebrada por presbítero. Também a posição da cátedra, à direita, em contraposição à esquerda onde se senta o presbítero e a reintrodução dos ministros assistentes da cátedra com paramentos distintos para as missas estacionais.

Da mesma forma que existe a necessidade de uma distinção mais clara por parte das rubricas entre missa solene e missa simples, talvez algo focado no uso da dalmática pelos diáconos e quem sabe permitir-se novamente que presbíteros sirvam e vistam-se como diáconos a fim de se ter sempre o ministério diaconal tão característico da missa solene nas rubricas da forma extraordinária.


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