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sábado, 21 de dezembro de 2013

Hierarquia e Ministério II



O Concílio Ecumênico Vaticano II quis, pelo bem da Igreja Latina, reformar a disciplina das antigas ordens menores no sentido de que voltassem a ser ministérios leigos. Muito se fala do clericalismo presente na Igreja antes do Concílio e, mais precisamente, antes do Movimento Litúrgico do século XX. Para entendermos melhor como era de fato a realidade e como isso se traduzia em relação aos ministérios litúrgicos precisamos entender o que eram as ordens menores e o sub-diaconado, bem como as reformas que aconteceram e a criação dos ministérios. Neste post trataremos das ordens da forma extraordinária, no próximo dos ministérios da forma ordinária.
A Hierarquia da Igreja constituía-se das ordens maiores e das ordens menores. As ordens maiores eram quatro: dos Bispos, dos presbíteros, dos diáconos e dos sub-diáconos. Vale notar que as três primeiras são ordens no sentido sacramental da palavra, isto é, existem por seu vínculo com o sacramento, sendo portanto imutáveis em sua essência. O sub-diaconato, embora na igreja latina fosse considerado ordem maior, é considerado ordem menor no oriente, algo que reflete melhor sua real natureza. Esta ordem não é instituição divina, de tal forma que quando o Bispo confere o subdiaconato a um fiel, faz na realidade um sacramental e não um verdadeiro sacramento; embora na forma extraordinária chama-se “ordenação” este rito.

Ordenação de subdiáconos
O sub-diaconato, como já dissemos no outro artigo, desempenhava um papel muito importante na missa solene, que se definia como missa com diácono e subdiácono que vestiam, salvo em tempos de penitencia, dalmática e tunícela, respectivamente. O sub-diácono usava ainda o distintivo das ordens maiores, isto é, o manípulo. Este paramento era notadamente omitido quando se permitia, na falta de algum clérigo da ordem dos subdiáconos, que um acólito desempenhasse tal função.

 Procissão de entrada, o subdiácono carrega a cruz processional em meio aos acólitos.
Vale lembrar que existem, na atualidade, paróquias que celebram a forma extraordinária do Rito Romano em meio a uma estrutura canônica relacionada à forma ordinária, a Santa Sé permite então que um acólito, instituído segundo a forma ordinária do Rito, oficie como subdiácono, segundo a Pontifícia Comissão Ecclesia Dei (Prot. No. 24/92, 7 de junho de 1993), mantendo-se a omissão do manípulo, mas extinguindo-se todas as demais restrições, como enxugar os vasos sagrados e colocar a água no cálice, dado que aos acólitos instituídos atualmente são permitidos. Ressaltemos ainda que a Santa Sé não proíbe que o acólito da forma ordinária vista a tunícela, enquanto realiza as funções de subdiácono; nos parece que não seria nenhum absurdo que a autoridade competente aprovasse seu uso também para os acólitos na forma ordinária.

 Carta da Comissão Eclesia Dei, clique para ler.
As ordens menores eram 4: dos acólitos, dos exorcistas, dos leitores e dos ostiários. Essas ordens se recebiam por sacramental, como os subdiáconos e também recebiam o nome de ordenação. Era costume que numa mesma missa se realizasse várias ou até mesmo todas as ordenações menores e ainda a de subdiácono.




O ostiário recém ordenado trancando uma das portas da igreja

Os hostiários, menor de toda as ordens, são os porteiros, que tem o dever de abrir e fechar as portas da igreja, excluir da igreja os indignos e tocar o sino para chamar os fiéis; esta ordem já é citda pelo Papa Cornélio em carta escrita próxima ao ano 251. Em sua ordenação o ostiário recebe as chaves da Igreja e o Bispo lhe adverte que deve prestar contas a Deus acerca do que fecha com tais chaves. 

Ostiário tocando o sino no rito de ordenação
A ordem dos leitores é tida como a mais antiga das ordens menores, tendo seu início na necessidade da leitura dos textos sagrados e posteriormente passando esta tarefa àqueles que se preparavam para receber o sacramento da ordem, constituindo-se assim uma ordem menor. Na sua ordenação o Bispo lhe entrega o livro contendo o texto sagrado.

Bispo dando o livro para os leitores tocarem durante o rito da ordenação
 
O exorcista é o antigo ministério da expulsão dos demônios, que todavia foi cedido aos sacerdotes. Enquanto ordem menor tem como funções mandar sair da igreja no momento em que se inicia a liturgia eucarística os não-comungantes, isto é, os catecúmenos que ainda não receberam este direito e os excomungados que o perderam, além de algumas outras funções litúrgicas. Na sua ordenação recebe do Bispo o livro dos exorcismos, cujas fórmulas o Bispo lhe recomenda que saiba de cor.
O acolitato é o mais alto grau das ordens menores é o primeiro servo das ordens maiores, a eles cabiam acender a luz das igrejas, servir como ceroferário, de levar a água e o vinho para o altar, tanto que em sua ordenação recebia dois objetos: um castiçal apagado para acender e uma galheta vazia para encher. 


Bispo dando o castiçal para o acólito tocar no rito de sua ordenação
 
Segundo o direito canônico antigo, todas estas ordens eram clericais, sendo seus integrantes clérigos diante do direito canônico comungando de privilégios e obrigações. Todavia, não se entrava no estado clerical pela recepção da primeira das ordens, mas por um outro rito ainda: a primeira tonsura, realizada também de maneira litúrgica pelo Bispo.

Bispo realizando o rito da tonsura 
 
Vemos assim que todas essas ordens e também a primeira tonsura constituíam uma verdadeira escada para o sacerdócio. Uma escada verdadeiramente formosa e bela, de muitos degraus, todos eles com uma origem muito antiga. Todavia, muitos desses degraus já não mais representavam um ofício litúrgico do ponto de vista prático e, como se eram muitos ao longo da formação do sacerdote, eram ocupados por um curto período de tempo. 
O Servo de Deus Padre João Batista Reus diz em seu curso de liturgia que a primeira tonsura não se deve conferir antes de ter iniciado o curso teológico; o subdiaconato se recebia no fim do terceiro ano de teologia, o diaconato no início do quarto e o presbiterado no meio deste mesmo ano. Restam então um espaço de apenas 3 anos para 4 ordens menores. Como o direito canônico previa que o clérigo devesse permanecer durante 1 ano no acolitato, durante os dois outros anos o clérigo que recebeu a primeira tonsura passa pelas outras três ordens menores. Os clérigos menores corriam na escada!
 
Representação alegórica das ordens menores e maiores e a tonsura

Mais ou menos o que acontece, na forma ordinária, em algumas dioceses, cujos clérigos custam permanecer os seis meses que o Direito Canônico exige na ordem do diaconato antes de serem ordenados presbíteros. 
Esse pouco espaço de tempo impedia que houvesse estabilidade nessas ordens, não apenas nas menores, mas também no subdiaconato e diaconato, tornando corriqueiras e necessárias as substituições. Veja que com os clérigos exercendo o ministério por menos de um ano completo, toda a diocese ficava sem, por exemplo, leitores durante parte do ano entre o período em que uma turma recebia o ministério de exorcista e o momento em que a próxima recebia o ministério de leitor. 
Também semelhante às dioceses que não tem diáconos permanentes e que mantém os clérigos na ordem do diaconato durante seis meses (ou menos!). É apenas o mesmo problema, que o Concílio se propôs a resolver, se repetindo 50 anos depois do seu encerramento.
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