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domingo, 22 de dezembro de 2013

Hierarquia e Ministério III



A Santa Sé quis reformar as ordens menores com base em alguns princípios, o principal deles, que se recuperassem os autênticos ministérios litúrgicos. O exorcista e o ostiário já não desempenhavam uma função litúrgica da mesma forma como em sua origem. O exorcista, por que os exorcismos passaram a ser desempenhados exclusivamente pelos sacerdotes com autorização do Bispo, e o ostiário, por suas funções serem na prática, serviço do sacristão. O sacristão, por sua vez, ganhou importância dentro da forma ordinária.


A ordem dos leitores, embora fosse a mais antiga e cuja função litúrgica mais facilmente se identifica, viu-se privada nas missas solenes das leituras que passaram às ordens maiores; de maneira particular a epístola que passou a ser cantada pelo subdiácono. A ordem dos acólitos, podemos dizer que exercia seu ministério da forma mais coerente com a sua origem e, por isso mesmo, era tido como a primeira das ordens menores, na qual o clérigo deveria permanecer um ano inteiro.


Jovens servem ao Papa portando o livro e o microfone

Essas duas ordens foram conservadas, tornando-se, porém ministérios. A ordem maior do subdiaconato, todavia, foi abolida, de modo que se restituíssem as funções mais próprias para os dois ministérios. O ministério do subdiácono foi repartido entre leitores e acólitos. Servir ao sacerdote e ao diácono passou a ser serviço do acólito, enquanto que fazer as leituras, com exceção do evangelho, voltou a ser função do leitor. 

Não podemos dizer que foi tão frutuosa a supressão do subdiaconato como foram das outras duas ordens menores, por que como já dissemos o subdiaconato desempenhava um papel muito importante na missa solene. Este papel deveria ser completamente preenchido pelo acólito, no serviço, pelo leitor, no anúncio, e pelo próprio diácono em alguns pequenos outros ritos como dizer à assembleia “levantemo-nos” ao fim das ladainhas. Isso parece ter sido o desejo de Paulo VI em seu Motu Proprio no que realiza essas mudanças, mas na prática não vemos nem sombra disso. Isso se deve, em parte, pela maneira com que os ministérios leigos foram recebidos por toda a igreja.

Para entender melhor as reformas das ordens menores, partamos de um rápido comentário sobre  a reforma do diaconato. O diaconato enquanto ordem no sentido sacramental do termo, manteve-se naturalmente como algo da estrutura clerical. O diaconato permanente serviu para que o esta ordem deixasse de ser apenas um ponto de passagem em direção ao sacerdócio, mas se tornasse uma ordem estável com ministros permanentes. 

Leitor instituído, vestindo amito, alva e cíngulo, proclamando uma leitura na Santa Missa

As ordens menores, como sendo originalmente ministérios leigos, quis a reforma que voltassem a apresentar este caráter; embora permanecessem como etapas em preparação o diaconato e o sacerdócio. Algo importantíssimo que devemos saber sobre estes ministérios é que eles são leigos não para “laicizar” os seminaristas. O verdadeiro motivo de tornar tais ordens ministérios leigos é por que o Concilio desejou ardentemente que fossem conferidas aos leigos, àqueles que não se preparam para o sacerdócio, mas simplesmente tem como objetivo servir a Deus por meio do ministério recebido.

Com tais ministérios tornando-se próprios dos leigos, todas as paróquias passam a usufruir deles e tê-los como comuns; essa atitude demonstra uma solicitude pastoral magnífica. Esses ministérios não tem, todavia, o objetivo de encerrar em si o serviço litúrgico a que se propõe. No que diz respeito ao ministério dos leitores, o Cerimonial dos Bispos diz que “terá também a seu cuidado, quando necessário, preparar os fiéis que, nas ações litúrgicas, hão de ler a sagrada Escritura”. Mostrando que o ministério instituído não deve substituir, mas guiar o ministério não instituído.

A mesma situação se refere à atuação dos acólitos instituídos nas paróquias. O Cerimonial dos Bispos ao falar dos acólitos diz que “Quando for mister, ensinará aqueles que exercem algum ministério nas ações litúrgicas, seja os que levam o livro, a cruz, as velas, o turíbulo, seja os que exercem outras funções semelhantes”. Mostra-se portanto que os acólitos devem auxiliar no serviço daqueles que exercem esse ministério de maneira não-instituída (coroinhas), segundo o antigo costume da igreja e, mais, que destes meninos saiam os futuros acólitos instituídos para o serviço na paróquia. 

Seminaristas servem como turiferário, naviculário e ceroferários na procissão do Evangelho

A esse ponto vemos que a nossa realidade foge muito dessa proposta. Se por um lado as dioceses insistem em reservar para os candidatos às ordens sacras os ministérios de leitor e acólito; por outro as paróquias quase não tem coroinhas e quando os tem, não é muito comum que seja um grupo formado de meninas.

A realidade de muitas paróquias é o largo uso de Ministros Extraordinários da Comunhão Eucarística. Este é um ministério não é em si mal, pode inclusive ser útil à comunidade. Mas o uso que se faz atualmente deste ministério é uma verdadeira perversão da participação do leigo na liturgia. Esse ministério é visto como instituído sendo confiado aos leigos de maneira ordinária e permanente, contrariam as recomendações do Beato Papa João Paulo II  que diz, na Redemptionis Sacramentum, que os ministros extraordinários são “ministérios de mera suplência” (152) que devem existir “somente por verdadeira necessidade” e “não está previsto para assegurar uma plena participação aos leigos, mas sim que, por sua natureza, ou suplementação e provisoriedade”(151).

 O ponto mais alarmante é, todavia, que estes ministros precedem os coroinhas e os próprios acólitos instituídos na função que deveriam ser deles. Realiza-se inclusive o tremendo abuso litúrgico de dar aos MECE no rito de sua instituição tocar a âmbula com o pão a ser consagrado, como na instituição dos acólitos.
Acólito instituído purifica os vasos sagrados ao fim da comunhão

O Beato diz ainda, no mesmo documento, que “onde, por necessidade, recorra-se ao serviço dos ministros extraordinários, multipliquem-se especiais e fervorosas petições para que o Senhor envie um sacerdote para o serviço da comunidade e suscite abundantes vocações às sagradas ordens.”. E as nossas comunidades vão exatamente na contra-mão disso: faz-se uso desses ministérios sem necessidade. Em vez que se promover práticas para que suscite vocações como os coroinhas uma vez que “do conjunto destas crianças, ao longo dos séculos, tem surgido um número considerável de ministros consagrados” (47), pratica-se o oposto substituindo-se tais grupos pelos MECE.

Nesse sentido, as paróquias e dioceses são chamados a deixar de pegar este "atalho" e pôr em prática a proposta da reforma litúrgica de formar e instituir acólitos e leitores, bem como promover os grupos de coroinhas meninos para o bem vocacional da diocese e para que sejam formados a longo prazo os futuros ministros instituídos.


Vários acólitos à frente do altar na Basílica de São Pedro

A cerca da instituição desses ministros é útil saber que sua instituição é permanente e universal, para toda a Igreja. Seguem as regras descritas pelo Cân. 230 § 1 e regulamentado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Para serem instituídos acólitos ou leitores os candidatos devem ser homens, maiores de idade e ainda que:

Demonstrem maturidade humana e vida cristã  exemplar.
2   Tenham firme vontade de servir a Deus e participem, há algum tempo, de atividades pastorais, numa comunidade eclesial, na qual sejam bem aceitos.
3    Estejam preparados, doutrinal e praticamente, para exercerem conscientemente  o seu ministério.
     Façam seu pedido ao Ordinário próprio, livremente e por escrito, e, se casado, com o consentimento da esposa.

Uma vez que tenham recebido a devida formação e tenham seu pedido sido aceito pelo Bispo, é-lhes concedido o ministério por meio de rito litúrgico. Este rito já não mais se chama ordenação e, naturalmente, não constam mais os ritos da procissão ou ladainha de todos os santos. É um rito mais simples; que mantém todavia a entrega do livro ao leitor e do recipiente com o pão ou o vinho ao acólito. A instituição de acólitos se faz dentro da missa e a de leitor da missa ou da celebração da palavra. Não se permite instituir no leitorato e acolitato um mesmo ministro na mesma celebração, mas deve-se respeitar um intervalo entre a recepção de um e outro ofício, regulamentado pelo direito. É válido lembrar, ainda, que estes ministérios não dá direito ao sustento ou à remuneração por parte da Igreja.

Uma vez recebido o ministério são funções do leitor fazer as leituras da missa, na falta do salmista, recitar o salmo entre as leituras e, na falta do diácono, enuncia as intenções da oração universal. O acólito pode levar a cruz na procissão de entrada, durante toda a celebração aproxima-se do diácono ou do sacerdote para lhes apresentar o missal ou lhes servir no que for preciso. Na liturgia eucarística prepara o altar e, se for o caso, leva para o altar o pão e o vinho levados pelos fiéis. Entrega o turíbulo ao sacerdote, na ausência de diácono e incensa o sacerdote e o povo. O acólito, por sua própria instituição é ministro extraordinário da comunhão, segundo o Cân. 910 § 2. Ao fim da comunhão o acólito pode purificar os vasos sagrados.

A Igreja, toda ela ministerial, nunca esteve tão longe da nós e justamente quando as estruturas canônicas e litúrgicas permitem uma tão ativa participação do leigo na liturgia. É vergonhoso que dioceses que elogiam o Concílio Ecumênico Vaticano II de uma maneira tão enfática, não se proponham a usufruir da riqueza dos ministérios litúrgicos. Os clérigos que dizem que a Igreja era clericalista no pré-concílio são os primeiros a dizer que ministério instituído é "coisa de seminarista". E continuamos tomando os caminhos mais fáceis, fazendo "missa das crianças" em vez de educá-las no serviço do altar, conceder ministérios "provisórios" de forma permanente, fugindo do verdadeiro Espírito da Liturgia.


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