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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Hierarquia e Ministério

A hierarquia eclesiástica sempre teve profunda relação com os ministérios litúrgicos. O Bispo, sucessor dos apóstolos, é o sumo sacerdote do seu povo. Na Missa Estacional, a liturgia diocesana apresenta-se na sua plenitude, quando o Bispo celebra a Missa cercado por seus presbíteros e servido por seus diáconos.  

  Concelebrantes na Basílica de São Pedro na Missa Crismal da Quinta-feira Santa. 

Os presbíteros, embora não gozem da plenitude do sacramento da ordem, são eles verdadeiramente sacerdotes que celebram o sacrifício eucarístico também na ausência do Bispo, embora sempre em seu nome. Antes da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, o ministério de sacerdote do presbítero se dissolvia diante da presença do Bispo. Os presbíteros não eram ordinariamente chamados a concelebrar com o Bispo e acabavam servindo ao Bispo em diversos ministérios não propriamente sacerdotais como presbíteros-assistentes e diáconos-assisntetes. Na missa da Quinta-feira santa, um número limitado tomava uma posição de concelebrantes "de honra", sem contudo oferecer o sacrifício na Santa Missa.

 É louvável que o Concílio tenha desejado reestabelecer nestes ministros a relação de "cooperadores da ordem episcopal" e não um mero substituto da mesma, resgatando o uso das concelebrações e abolindo o uso do presbítero-assistente. Embora alguns possam lamentar a perda deste ministério da liturgicia episcopal, vale lembrar que o presbítero-assistente não é senão uma sombra do concelebrante. Tanto é que na Missa in coram episcopo, este ministério desaparece, sendo substituido pelo sacerdote que celebra o santo sacrifício na presença do Bispo.

Missa in coram episcopo, note-se os diáconos-assistestes junto ao Bispo, 
o diácono oficiante junto ao presbítero e a ausência do presbítero-assistente.

Talvez pudesse ter sido mantido na misssa do neo-sacerdote, de acordo com o costume. Seria, neste caso, bom que este sacerdote não concelebrasse, a fim de não se ver preso a outro ministério que não o de auxiliar o celebrante como um ministro mais experiente.

Com os presbíteros tomando seu posto como sacerdotes na liturgia do Bispo, os cargos de assistência recaem agora exclusivamente sobre os demais ministros. Um efeito colateral disto, porém, foi a proibição de ministros superiores exerceram cargos inferiores, como os presbíteros oficiarem como diáconos. Isso parece um tanto equivocado, a princípio, por que não se perde o ministério inferior com o recebimento de um superior; em segundo lugar, por que embora com o diaconato permanente e as ordens menores tendo sido transformadas em ministérios leigos, por vezes existem ministros superiores em excesso e ministros infeiores em falta; tal proibição pode ser pastoralmente pouco vantajosa para certas comunidades com este perfil. 

Nos parece ser mais acertada a decisão de proibir que ministros exerçam funções inferiores apenas na presença de ministros daquela própria ordem, como por exemplo que monsenhores não precedam os próprios diáconos como assistentes do Bispo na cátedra, por uma questão de autenticidade, a fim de que cada ordem exerça o seu ministério mesmo na presença de ordens superiores.

Ministros-assistentes junto à cátedra, note que os diáconos-assistentes são monsenhores

 No que se refere aos ministérios, é sempre bom lembrar o antigo esquema proveniente da tradição litúrgica que parece não ter sido muito bem assimilada pelo Missal de Paulo VI. Existe dois tipos de ministros: os oficiantes e os assistentes. Os últimos são ministros próprios da liturgia episcopal. Eles não oficiam na missa, mas apenas servem ao Bispo, geralmente junto da cátedra ou faldistório em pequenos ritos. Na forma extraordinária são um presbítero,  dois diácono e  até seis acólitos; na forma ordinária são apenas dois diáconos e quatro acólitos. Embora esses assistentes tenham perdido sua veste distintiva que era o uso de pluvial ou dalmática, sem estola, com sobrepeliz e hábito talar, a natureza de suas funções não sofreu uma grande mudança.

O Bispo assistido por dois diáconos-assistentes, nota-se a batina à vista sob a dalmática.

Os ministros oficiantes,  ao contrário, são aqueles que exercem os ministérios propriamente ditos e estão presentes em todas as missas. Na forma extraordinária, para a missa solene, tinha-se um diácono e um subdiácono, além dos acólitos que exerciam as diferentes funções da Santa Missa como turiferário, ceroferários, etc. O ministério do leitor, todavia era suprimido na missa solene, sendo que a epístola da missa era cantada pelo subdiácono; apenas na missa simples cantada é que o leitor exercia verdadeiramente seu ministério.

Na forma ordinária acontecem mudanças invasivas em relação a estes ministérios. O diácono oficiante não é necessariamente um único ministro, vários diáconos podem tomar parte em uma mesma celebração. Por exemplo, um dos diáconos servir ao sacerdote no altar e outro cantar o evangelho, um terceiro ainda pronunciar as intenções da oração universal, etc.

 Vários diáconos oficiam durante missa do Domingo de Ramos.

 O subdiaconato, por outro lado, foi abolido na igreja latina, tendo suas funções sido distribuídas entre o leitor e o acólito. Ao leitor cabe, conforme a disciplina mais antiga, a leitura da epístola, enquanto que ao acólito é dado servir ao sacerdote. Veja que falamos aqui dos acólitos e leitores instituídos, todavia na falta deles, também os ministros não-instituidos são chamados a exercer tais ofícios.

Conjunto de assentos para, da esquerda para a direita, o sacerdote, diácono e subdiácono.

A este ponto vemos que a prática ritual atual difere muito da prática antiga. Na forma antiga, vemos que o sacerdote se senta, na missa solene, entre o diácono e o subdiácono, ou, em alguns lugares sentam-se em lugares escalonados presbítero, diácono e subdiácono. Atualmente para a Missa Solene do presbítero tenta-se compensar a falta do subdiácono, com um outro diácono oficiante. Pode parecer num primeiro momento sensato ter o sacerdote na missa solene cercado por dois diáconos; até por uma questão estética a tunícela veste do subdiácono é bastante parecida com a dalmática dos diáconos. Mas se analisarmos a estrutura antiga e a natureza dos ministérios, veremos que faz mais sentido que apenas ocupe um lado do sacerdote o primeiro dos diáconos oficiantes e o outro lado seja ocupado pelo primeiro dos acólitos oficiantes. 

Missa Solene, o sacerdote é assistido por diácono e sub-diácono

Seria inclusive bom que este acólito fosse instituído e vestisse não apenas batina e sobrepeliz, mas fizesse uso de amito, alva e cíngulo, para se aproximar mais da veste dos oficiantes do rito antigo, do subdiácono em particular, todavia sem a tunícela. Seria esta uma forma de dar nova harmonia à liturgia depois da reforma, tomando como base as próprias palavras do Papa Paulo VI que permitem um certo paralelismo entre esses dois ofícios "Nada impede, todavia, que, a juízo da Conferência Episcopal, nalguns lugares, o Acólito possa também ser chamado Subdiácono" Ministeria Quaedam, IV.

Esta parece ser também a alternativa mais sensata vista por Mons. Peter Elliott que descreve em seu livro "Cerimonies of The Roman Rite" que o serviço do acólito da missa solene é similar ao do subdiácono no rito antigo, sendo inclusive incentivada a prática de que este ministro leve a cruz na procissão de entrada.
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