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sábado, 19 de julho de 2014

A Igreja dos Mártires frente às "Missas Inculturadas"


A Igreja dos Mártires desde os primeiros séculos seguiu o exemplo de seu Divino Fundador dando testemunho da Verdade. Por esta magnífica vocação todos os apóstolos, com exceção de São João, derramaram seu sangue e com eles muitos outros, ajudados pelo Espírito Santo, mantiveram-se perseverantes até serem entregues à morte por não negarem a sua fé. Segundo uma tão famosa e antiga citação "o sangue dos mártires é a semente da Igreja". De tal situação não podemos colher outro ensinamento se não o de que a Igreja está disposta a derramar seu sangue em vez de trair o seu Senhor. Nesta mesma igreja a terrível heresia do relativismo em que "todas as religiões são boas e podem levar ao céu" são tem espaço.

Entre os mártires, um dos mais célebres é São Paulo. De perseguidor passou à pregador, responsável pela evangelização de muitos povos, sendo boa parte do novo testamento cartas suas às mais diversas comunidades. Entre seus escritos, destaca-se um trecho da carta aos coríntios  cujo conteúdo  transcrevemos:
"Para os judeus fiz-me judeu, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da lei, fiz-me como se eu estivesse debaixo da lei, embora o não esteja, a fim de ganhar aqueles que estão debaixo da lei. Para os que não têm lei, fiz-me como se eu não tivesse lei, ainda que eu não esteja isento da lei de Deus - porquanto estou sob a lei de Cristo -, a fim de ganhar os que não têm lei. Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de salvar a todos." 1Cor 9,20-22
Em uma primeira visão, poderíamos ver nesse trecho uma negação da pregação silenciosa dos mártires. Como pode alguém se fazer "tudo para todos" e ainda permanecer contrário ao relativismo? O próprio apóstolo responde a natureza do seu fazer tudo para todos explicitando sua finalidade "ganhar os que estão debaixo da lei", "ganhar os que não têm lei", em resumo, "salvar a todos". Fica assim claro que São Paulo não nega a sua fé, mas leva-a a todos superando tudo aquilo que não é inerente à sã doutrina e que poderia servir de obstáculo à sua propagação. Neste mesmo espírito missionários devemos enxergar a inculturação litúrgica. É função dela criar uma ponte que leve a todos, independentemente de sua cultura, à fé em Cristo, servindo de caminho do paganismo à Verdade.

Exemplos da correta aplicação da inculturação se encontram nos mais diversos países. Na Índia, os santos tem feições indianas, seus andores são enfeitados com uma quantidade imensa de cores, luzes e flores, próprios daquilo que lá é considerado solene. Na Índia, Cristo se faz indiano, para ganhar os indianos. Na China o menino Jesus veste amarelo/dourado, a cor reservada aos imperadores da China, uma forma única do anúncio do reinado de Cristo naquele país, além dos traços orientais e vestes típicas. Na China, Cristo se faz chinês para ganhar os chineses.



Por vezes, essa inculturação demanda mudanças nas rubricas. Como no Japão em que se usa o amarelo em substituição ao branco para as ocasiões de júbilo e branco no lugar do preto para as exéquias, a fim de refletir melhor a cultura daquele povo. É necessário lembrar que, neste caso, não se trata de uma simples execução das rubricas de maneira adaptada aos costumes de um lugar, mas da alteração das mesmas. E como nos lembra a Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II:
22. § 1. Regular a sagrada Liturgia compete ùnicamente à autoridade da Igreja, a qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas do direito, no Bispo.
§ 2. Em virtude do poder concedido pelo direito, pertence também às competentes assembleias episcopais territoriais de vário género legitimamente constituídas regular, dentro dos limites estabelecidos, a Liturgia.
§ 3. Por isso, ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica.
Ou seja, à exceção daqueles casos em que as rubricas indicam explicitamente que algum detalhe é de competência da conferência episcopal ou do ordinário, o poder para modificar o que está explicitado nos livros litúrgicos compete exclusivamente à Santa Sé.

Em nosso país, vemos o surgimento de muitos gêneros de celebração: missa afro, missa crioula, missa sertaneja. Tais celebrações pretendem ser "inculturadas", mas traem os princípios da inculturação. Em primeiro lugar, as modificações realizadas em tais missas são ilícitas, dado que carecem de qualquer autorização da Santa Sé. Em segundo lugar, essas celebrações não estão de acordo com a finalidade da inculturação que é levar Cristo a novas culturas.

Quando da colonização portuguesa, haviam comunidades que desconheciam o Evangelho e estavam imersas em culturas muito distintas daquelas dos missionários, assim necessitava-se de uma linguagem adequada à sua realidade a fim de que a fé fosse plenamente assimilada. A realidade brasileira atual é completamente diversa. Trata-se de uma sociedade com seis séculos de cristianismo, cujos costumes foram erigidos sobre uma base católica herdada de Portugal. Assim sendo, a inculturação que se pretende no Brasil é completamente infundada.

Vejamos com que detalhes se realizam de fato nessas celebrações, tomando como modelo a "missa sertaneja". O espaço litúrgico é invadido por uma profusão de instrumentos do campo: selas, balaios, cana-de-açúcar. O padre veste-se com paramentos xadrez, botinas e um chapéu. Toca-se viola e sanfona na missa. As fórmulas da missa se modificam, "Deus todo poderoso" se torna "O grande tropeiro" ou coisa do gênero. Faz-se até café em pleno presbitério.

Nos perguntamos: é uma celebração adaptada à cultura sertaneja? Não! O que se apresenta é uma  caricatura daquela cultura dentro de uma caricatura de Missa, que em nada encarna o modo de viver deste povo. Café e Missa? Não, aos domingos vai-se à missa em jejum, por isso mesmo muito cedo que é quando este povo está acostumado a começar o dia. A sanfona? Guardada desde o fim do baile. Na missa o toque dos sinos convoca a assembleia e, dentro da igreja, além dos sinos o suave toque do órgão. O padre antes da Santa Missa já está, de batina, rezando. Pede-se com muita piedade a bênção ao padre, ao vigário como é costume dizer. Os chapéus dos homens? Retirados na porta da igreja, onde também as mulheres se cobrem com o véu, então eles para um lado e elas para outro. E quando a missa começa, mais ainda do que antes, absoluto silêncio.

Veja que a cultura sertaneja por ser eminentemente católica tem como um ato de respeito manter os objetos profanos fora da igreja. Enquanto que nas "missas inculturadas" esquece-se totalmente da noção de sacralidade e se profana tudo que faz parte da celebração com objetos "temáticos". Também é muito ligada ao cumprimento de formalidades e o respeito às regras, por isso mesmo ser "sistemático" é uma qualidade muito comum aos sertanejos; impossível imaginar uma comunidade com esta maneira de ver o mundo mudando a Santa Missa segundo o que lhes parece adequado. Fica claro assim que a "missa sertaneja" não é nem um pouco sertaneja, mas é uma liturgia de laboratório, que alguém criou para satisfazer, na linguagem própria da roça, o seu "empenho": uma vontade descabida de realizar algo desnecessário.

Extrapolando o exemplo de volta aos diversos tipos de "missa inculturada", vemos que são todas celebrações artificiais que não correspondem à cultura nenhuma e, mais importante, não levam os fieis à procura de Cristo. Existe alguém que vá numa missa afro e que se vista daquela maneira ao sair dali? O resultado prático disso tudo é a criação de uma igreja com liturgia teatralizada, que mais serve como distração do que como esforço evangelizador. Essa igreja chega ao absurdo de, nessas celebrações, promover o sincretismo e igualar a fé cristã a outras religiões, apenas para promover um espetáculo agradável aos olhos. Essa igreja não está disposta a construir um caminho do paganismo de volta para a Verdade, mas liga a fé cristã às diversas culturas para levá-los de volta ao seu paganismo. Essa não é a igreja que se faz "tudo para todos, a fim de salvar a todos", esta não é a Igreja dos Mártires.
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