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quinta-feira, 13 de abril de 2017

O Mito do Cerimoniário Concelebrante

É costume no rito antigo que todos os sacerdotes presentes a uma ordenação presbiteral imponham as mãos ao ordenado. A teologia não esclaresce se a imposição das mãos dos presbíteros tem valor também sacramental, tal qual a do Bispo, ou se se trata apenas de um gesto simbólico e complementar ao rito. Abaixo o Cardeal Cañizares Llovera ordena alguns eleitos, atrás dele se nota um grupo de presbíteros que, portanto a estola sobre suas vestes corais, repetem os gestos episcopais.

























Na forma ordinária, inseriram-se muitas possibilidades de concelebração. Isto possibilitou que todo presbitério diocesano ou todos os confrades dos ordenados concelebrassem na sua missa de ordenação; tornando a ocorrência de sacerdotes que vestem a estola apenas para impor as mãos durante o rito, muito mais rara. 

Por conta do vácuo das rubricas no novus ordo, este costume antigo deu à luz muitos outros, alguns legítimos, outros absurdos. Citaremos primeiro aqueles, depois estes. 

Na consagração do Crisma, segundo o Pontifical Romano de 1961, se previam além dos sete diáconos e sete subdiáconos, um grupo de doze presbíteros, como vemos na foto abaixo. Estes, embora não concelebrassem sacramentalmente, vestiam-se com as vestes eucarísticas; em particular, a casula. Se trata de algo que confere solenidade à celebração, mas não só. São um embrião daquilo que no rito novo se quis restaurar: a reunião do presbitério ao redor do Bispo. E mais! Não apenas como um colégio de ministros, mas como um colégio de sacerdotes.


No rito novo, todos os presbíteros acompanham o Bispo na consagração do Santo Crisma. Em alguns lugares entendeu-se que aqueles que aqueles que, por ventura, não concelebrassem, como os cerimoniários, poderiam vestir sobre a sobrepeliz a estola branca a fim de tomar parte neste rito. Embora não haja previsão explícita nas rubricas, parece ser algo razoável. Veja que existe uma analogia muito precisa com o costume supracitado. São ambos ritos inseridos no andamento da celebração no qual convém que todos os sacerdotes tomem parte e para o qual se usa estola. Se algum sacerdote está presente e não endossa já a estola, parece natural que a use para este rito somente. 

Tal analogia, porém, extrapola muitas vezes os limites do razoável. Um exemplo notável disto é quando os mesmos cerimoniários, ou ainda regentes do coro, acreditam que basta vestir a escola sobre a sobrepeliz no momento da consagração para se tornarem ipso facto concelebrantes. 

Aqui a analogia não se aplica por diversos motivos. Em primeiro lugar por que, diferente da ordenação ou da confecção do Santo Crisma, a consagração do pão e do vinho não acontece dentro da missa, mas é parte essencial da mesma, não pode alguém tomar parte como sacerdote neste rito se não o vez desde o início da celebração. Vale lembrar aqui também a Introdução Geral do Missal Romano que proíbe que alguém seja admitido a concelebrar depois de iniciada a celebração.

Além disto, a Eucaristia é tratada sempre como o bem mais precioso e sua celebração possui sempre as rubricas mais rígidas. Tanto é que quando se fala da celebração da mesma, o missal é taxativo em dizer que é obrigatório ao sacerdote o uso da casula. Qualquer omissão da mesma deve ser explicitamente concedida pela Santa Sé,  como é o caso da omissão da casula quando os concelebrantes são muitos. Todavia, mesmo neste caso, se requer que seja mantida a alva, proibindo-se que alguém celebre missa vestindo apenas estola e sobrepeliz, como geralmente se vestem os cerimoniários e mestres de cerimônias.

Uma última possibilidade seria que o mestre de cerimônias se vestisse com amito, cíngulo, alva e estola. Embora o bom senso já nos proibiria de, resolvendo-se apenas o problema da veste, déssemos continuidade ao estudo dessa possibilidade; faz bem saber que o Cerimonial dos Bispos ao tratar das vestes destes ministros não contempla esta possibilidade.

Neste sentido, a prática de os cerimoniários concelebrarem é de todo abusiva. Se se quer que todo o presbitério, sem exceções, concelebre; este ministério seja confiado a alguém que não é presbítero. Se por outro lado, urge que seja um presbítero a organizar a celebração, que abra mão da concelebração na ocasião.



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