Nossos Parceiros

Mostrando postagens com marcador espiritualidade litúrgica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador espiritualidade litúrgica. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Papa Francisco: A Missa não é um evento social

View Comments
Fonte: ACI Digital

Foto: Rodrigo Balladares Muñoz (CC BY-NC-SA 2.0)

VATICANO, 04 Out. 13 / 12:50 am (ACI/EWTN Noticias).- Na homilia da Missa que presidiu ontem na Casa Santa Marta onde reside, o Papa Francisco afirmou que a Missa não é um evento social, mas uma festa em que se faz presente Deus e não pode ser "domesticada" pelo hábito.

O Papa afirmou que "toda semana vamos à igreja, ou quando alguém morre vamos ao funeral… e essa memória, muitas vezes, nos aborrece porque não é próxima. É triste, mas a Missa muitas vezes se transforma em um evento social e não estamos próximos da memória da Igreja, que é a presença do Senhor diante de nós".

O Papa Francisco se inspirou na passagem do Livro do Neemias, na primeira leitura de ontem, para centrar sua homilia no tema da memória. O Povo de Deus, observou, "tinha a memória da Lei, mas era uma memória distante", aquele dia, por outro lado, "a memória se fez próxima" e "isto toca o coração". Choravam "de alegria, não de dor", disse o Santo Padre, "porque tinham a experiência da proximidade da salvação":

"E isso é importante não somente nos grandes momentos históricos, mas nos momentos da nossa vida: todos temos a memória da salvação, todos. Mas, pergunto-me: esta memória está perto de nós, ou é uma memória um pouco distante, um pouco difusa, um pouco arcaica, um pouco de museu? Pode ir longe… E quando a memória não está próxima, quando não temos esta experiência de proximidade da memória, esta entra em um processo de transformação, e a memória se transforma em uma simples recordação".

Quando a memória se torna distante, acrescentou o Papa, "transforma-se em lembrança; mas quando se faz próxima, transforma-se em alegria e esta é a alegria do povo". Isto, disse também, constitui "um princípio da nossa vida cristã". Quando a memória se faz próxima, reafirmou, "faz duas coisas: aquece o coração e dá alegria".

"E esta alegria é nossa força. A alegria da memória próxima. Por outro lado, a memória domesticada, que se afasta e se converte em uma simples lembrança, não aquece o coração, não nos dá alegria e não nos dá força. Este encontro com a memória é um evento de salvação, é um encontro com o amor de Deus que fez historia conosco e nos salvou; é um encontro de salvação. E é tão bom ser salvos, que é preciso festejar".

O Pontífice ressaltou que "quando Deus vem e se aproxima sempre há festa". E "muitas vezes –constatou– nós os cristãos temos medo de festejar: esta festa simples e fraterna que é um dom da proximidade do Senhor".

A vida, acrescentou, "nos leva a afastar esta proximidade, e a manter somente a lembrança da salvação, não a memória que está viva". A Igreja, destacou, tem a "sua memória" que é a "memória da Paixão do Senhor". "Também conosco, advertiu o Papa, acontece que afastamos esta memória e a transformamos em uma lembrança, em um evento habitual".

Para concluir o Papa Francisco alentou a pedir ao Senhor "a graça de ter sempre a sua memória perto de nós, uma memória próxima e não domesticada pelo hábito, por tantas coisas, e distanciada numa simples lembrança" 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Outubro: Recitação do Rosário

View Comments

Por Dom Eugênio Cardeal de Araujo Sales.
Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro

O mês de outubro é dedicado a uma antiga, tradicional e eficaz prática religiosa: a recitação do Rosário. O Papa Paulo VI, na Exortação Apostólica sobre “O Culto à Virgem Maria”, de 10 de fevereiro de 1974, afirmou que, segundo a tradição, o Rosário “foi acolhido e autorizadamente proposto pelo nosso Predecessor São Pio V”. Este, eleito após o Concílio de Trento (1566), tornou-se o grande restaurador. Quando Chipre, último baluarte, no Levante, caiu nas mãos do Islã, inimigo mortal da cristandade, o Papa apelou não só para a ação militar, mas para a oração. A extraordinária vitória em Lepanto, a 7 de outubro de 1571, foi atribuída pelos próprios soldados vencedores à oração do Rosário.


Muitos são os documentos pontifícios, exaltando suas benemerências e exortando os fieis a rezá-lo. Essa prática de piedade, é poderoso instrumento contra os inimigos, ostensivos ou velados, da Instituição fundada por Jesus Cristo.

Há abusos entre nós que nem sempre são devidamente corrigidos. As causas de sua permanência podem ser temor ou obediência à palavra do Evangelho: “Deixai-os crescer juntos (o joio e o trigo) até à colheita (…). Arrancai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado” (Mt 13,29-30).

Um elemento perturbador, sem dúvida fruto da semeadura do demônio, é a falsa doutrina de que na Igreja tudo depende das bases e que para qualquer ato elas devem ser consultadas. Ocorre que “base”, às vezes, significa simplesmente determinado grupo e “consulta”, o método de ação por parte de uma ditadura de minorias. A maioria do povo de Deus nem é escutada, nem respeitada.

Outro exemplo, ainda, é querer amparo religioso a direitos do operário mediante opção político-partidária fundamentalmente laica. O resultado de tal confusão compromete a missão evangelizadora que nos outorgou o Cristo.

O sagrado direito de governar a Igreja por Ele concedido aos Sucessores dos Apóstolos é inalienável. Nem a omissão em exercê-lo justificaria a intromissão de indivíduos estranhos nessa matéria. Ainda hoje pode haver quem, sem nenhum motivo válido, questione o Santo Padre no seu ministério supremo à frente da Igreja Universal. A autoridade do Bispo às vezes é contestada por grupos organizados e ativos, que chegam às vias de ameaças, caso não sejam acatados os seus desvios doutrinários e disciplinares. Como já possuem uma estrutura montada, é necessário ter coragem para enfrentá-la.

O Concílio Vaticano II, em “Gaudium et Spes” (nº 37), fala da luta que nos acompanha desde o início e, portanto, não devem causar estranheza os problemas, inclusive eclesiásticos, que podem, a qualquer tempo, nos afligir. Diz ele: “Um duro combate contra os poderes das trevas atravessa toda a história humana (…). Inserido nessa luta, o homem deve combater constantemente, se quer ser fiel ao bem”. Para haver paz, os cristãos devem respeitar as crenças dos judeus, dos muçulmanos, dos pagãos, mas também serem respeitados quando defendem sua crença e as consequências da mesma.

Para os discípulos de Jesus, é perene a fonte de esperança. Por isso, alimentados espiritualmente, o pessimismo jamais os dominará. Todos nós acreditamos no poder da prece e na vitória final do Salvador.

O mês de outubro nos estimula à oração do Rosário. Desde São Pio V, os Papas a ele têm recorrido nos momentos difíceis.

Após o Concílio Tridentino, quando a cristandade se encontrava dilacerada, surgiu uma renovação como poucas vezes antes acontecera. Inácio de Loyola com sua ascese, baseada na mística, a grande Teresa de Ávila, São João da Cruz, Francisco de Sales e outros mostraram a inesgotável força da graça, que não se limitou aos conventos ou apenas ao clero. O Terço despertou no meio do povo amplo movimento de espiritualidade. Também peregrinações e procissões, celebrações (hoje, diríamos “paraliturgias”) e cultos ao Santíssimo Sacramento, ao Deus Trino, a Cristo e a Maria, como também aos mais diversos santos, nossos mestres na caminhada para o Senhor.

Entre todas essas formas, tem lugar de destaque o Rosário. Ele é simples, todavia, e com suas imagens bíblicas (os mistérios) não só facilita a meditação, mas o amor concreto a Deus. Nossa intimidade com o Redentor é que elevou a uma dignidade tão alta a nossa pobre natureza humana.

O Papa Paulo VI, em “Marialis Cultus” (nº 42), cita o exemplo de si próprio: “Numa hora de angústia e de insegurança, publicamos a Carta Encíclica “Christi Matri” (15 de setembro de 1966) para que fossem dirigidas orações suplicantes à Bem-aventurada Virgem do Rosário para impetrar de Deus o supremo bem da paz”. Vamos encontrá-la, certamente, na recitação assídua do Terço de Nossa Senhora.

Poucas semanas após sua eleição ao Supremo Pontificado, João Paulo II, falando a cem mil pessoas na Praça de São Pedro, por ocasião do Ângelus do dia 29 de outubro de 1978, proclamou: “O Rosário é a minha oração predileta. Oração maravilhosa. Maravilhosa na simplicidade e na profundidade (…). A todos exorto cordialmente a que o rezem”. A 16 de outubro de 2002, publicou a Carta Apostólica “Rosarium Virginis Mariae” dedicada a este tema.

Também o Santo Padre Bento XVI manifestou sua devoção ao Rosário no seu discurso, em Pompeia a 19 de outubro de 2008, assim se expressando: “Essa popular oração mariana é um meio espiritual precioso para crescer na intimidade com Jesus e para aprender de Cristo, em união espiritual com Maria, a realizar sempre a vontade divina”.

Há uma palavra de garantia ao sucesso de nossa prece: “Pedi e recebereis” (Mt 7,7). No mês de outubro alcançaremos, na recitação do Rosário, o bem espiritual e material, como tantas vezes tem obtido a Igreja no decorrer da História.

sábado, 28 de setembro de 2013

"A criatividade nunca esteve presente na Liturgia cristã" - Dom Henrique Soares da Costa

View Comments

Por Dom Henrique Soares da Costa (grifos nossos):
Criatividade. Este conceito nunca esteve presente na Liturgia cristã. É-lhe totalmente estranho!

Na antiguidade mais primitiva, não havia ainda textos litúrgicos formados. É natural, é claro: a Igreja não nascera feita! Fundada pelo Cristo-Deus, foi plasmada pelo Seu Santo Espírito, conforme Sua própria promessa.
Mesmo não havendo ainda textos fixos para o rito liturgico, havia, no entanto, esquemas fixos, que os ministros sagrados deveriam seguir à risca. Portanto, cada ministro, tanto quanto pudesse, uns mais, outros, menos, compunham as orações. Em geral, escreviam-nas antes. Mas, dentro de um esquema fixo. A palavra chave nunca foi criatividade, mas fidelidade à Regra de Fé da Igreja e à lex orandi, isto é, à norma de oração da Igreja.

Logo cedo, os primeiros formulários litúrgicos foram sendo colocados por escrito e fixados. Finalmente, no século IV, com a liberdade de culto concedida aos cristãos, surgiram os grandes textos litúrgicos no Oriente, como a estupenda liturgia de São João Crisóstomo, e do Ocidente (pense-se na antiquissíma Tradição Apostólica de Hipólito de Roma). No Ocidente, a formação dos grandes textos foi mais complexa por vários motivos históricos e culturais. Em todo caso, no séculos VI e VII já se tinham os grandes formulários litúrgicos e a soleníssima Missa Estacional romana, que influenciaria toda a liturgia da Missa da Igreja latina (a Igreja do Ocidente, da qual o Bispo de Roma é o Patriarca, além de Papa de toda a Igreja do Oriente e Ocidente).

Em toda esta complexa e rica evolução histórica nunca se teve em mira a criatividade, mas a ortodoxia. Aliás, a palavra ortodoxia significa reta fé (reta opinião) e também reto louvor, reta glorificação de Deus! Assim, na Celebração litúrgica, o importante, a finalidade é o reto louvor ao Senhor Deus, exprimindo a reta fé pelos ritos sagrados que tornam autuantes na vida de cada crente e de toda a Igreja a salvação celebrada. A criatividade como ideal, objetivo e valor em si simplesmente não faz parte da realidade litúrgica, ao menos não nos vinte e um séculos de história da Igreja do Ocidente e do Oriente. Sendo assim, cedo ou tarde, com a graça de Deus, a ideologia da criatividade litúrgica desaparecerá do horizonte da Igreja, pois não faz parte do genuíno sentir eclesial. É questão de tempo...

Para fins de ilustração, trago alguns exemplos que exemplificam o problema da criatividade e como ela termina por retirar o culto a Deus do centro da Liturgia:

"Missa Mágica"
"Missa fantoche"


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Os ritos, o homem e a Liturgia - Dom Henrique Soares da Costa

View Comments
Missa no rito dominicano (Fonte: New Liturgical Movement)
Por Dom Henrique Soares da Costa (grifos nossos):
No cristianismo, o rito litúrgico tem um sentido profundo, santíssimo e bem claro: na força do Espírito Santo, aqueles gestos, palavras e símbolos tornam realmente presente o mistério da nossa redenção: colocam no PRESENTE da nossa existência com toda a sua força salvadora os santos mistérios salvíficos ocorridos no PASSADO e já nos antecipa a plenitude da salvação que manifestar-se-á sem véus nem limitações no FUTURO.

Portanto, na Liturgia cristã não há cerimônias; há ritos sagrados; não há coreografias, há gestos salvíficos.

Mas, até mesmo do ponto de vista simplesmente humano, cultural, os ritos são necessários! Eis o que disse hoje o intelectual ex-presidente Fernando Henrique, ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras:

"Agradeço, comovido, a honra de me sentar em tão ilustre companhia. Não fosse eu algo treinado em antropologia e não houvesse sido casado por tantas décadas com destacada antropóloga, poderia talvez desconsiderar a importância dos ritos que conformam a existência humana, que são elemento insubstituível na tessitura da memória, a que nos agarramos na medida em que o tempo nos consome."

Pois é: sem rito não há memória, não se colhe a transcendência das ações humanas, dos momentos, dos valores que norteiam a existência. Sem ritos, o homem se desumaniza... O rito permeia a nossa existência:
rito para o namoro, para o noivado, rito para o casamento, rito à mesa, rito na sedução, rito na morte, no funeral, no luto, nos pêsames, rito na guerra e na paz. O homem e ser capaz de rito porque é ser capaz de dar significado às coisas e aos acontecimentos...

Isto se dá ao máximo no Rito Sagrado da Liturgia quando o Evento salvífico torna-se ritualmente presente, tornando atuante na nossa vida a presença salvadora do Deus Uno e Trino: os ritos litúrgicos são ação do Filho que traz a salvação do Pai na potência operante do Espírito para que os filhos dos homens participem da vida de filhos de Deus!

Brincar com isso é matar na alma o cristianismo, esvaziar a missão da Igreja de ser sacramento da salvação e diminuir o homem na sua humanidade! É para pensar!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O nome da virgem era Maria

View Comments


Hoje celebramos a festa do Santíssimo Nome de Maria. Para melhor viver esta data litúrgica, trago a transcrição de uma meditação do Pe. Georges Chevrot:
O NOME DE MARIA

Maria. O anjo Gabriel, ao saudar Nossa Senhora, não a chama imediatamente pelo nome, evidentemente temendo surpreender por tamanha familiaridade vinda de um visitante desconhecido. Contudo em seguida diz: Não temas, Maria (Lc 1, 30). São Lucas não espera o fim do diálogo para informar, o evangelista parece impaciente em fornecer seu nome, logo no início diz: o nome da virgem era Maria (Lc 1, 27).

Quem não fica feliz em repetir com frequência o nome de um ente querido? Recordar o nome provoca um sentimento de presença da pessoa ausente. É muita estu­pidez criticar os católicos por venerar o nome de Maria. A Igreja aprovou tal prática, no século XVI instituiu uma festa em honra deste nome bendito. O costume é muito antigo, anterior ao Cristianismo. No Antigo Testamento, era habi­tual usar nome para se referir à própria pessoa, nos salmos encontramos muitos exemplos. Nosso Senhor ensinou a rezar: Santificado seja o teu nome. O apóstolo São Pedro proclama que o nome de Jesus é o único que pode salvar: Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu ne­nhum outro nome foi dado aos homens (At 4,12). Eviden­temente que se refere à pessoa do Salvador.

A leitura da Bíblia leva a outra consideração. Observa­mos que os nomes também indicam características das pes­soas. Eva significa mãe dos viventes; Deus muda o nome de Jacó para Israel, que significa mais forte que Deus. Por ordem divina, o precursor do Senhor deverá receber o nome de João, que significa Deus foi favorável. José recebe a ordem de colocar no menino o nome de Jesus, que significa Deus salva.

Joaquim e Ana escolheram chamar a filha de Mariam, nome muito comum naquele tempo. Pela providência podemos acreditar que o nome escolhido foi de inspiração divina. Um excelente autor espiritual escreveu:

Somente Deus podia escolher um nome para sua mãe. Como no batismo, quando a criança é nomeada em voz alta é gerada para a vida da graça, assim também aconte­ceu no instante em que Deus criou a alma da Virgem San­tíssima, a augusta Trindade nomeou Maria em voz alta diante do coro dos anjos. Deus já havia nomeado-a desde a eternidade. Para Deus, conceber ou nomear é a mesma coisa. [1]

O padre Broise concorda com a ideia:

Vemos muitos exemplos na Escritura em que Deus nomeia seus servidores, então podemos piamente acreditar que o nome de sua mãe não foi escolhido aleatoriamente ou por vontade humana. [2]

O nome é pouco utilizado na história antiga de Israel. Na forma mais primitiva o nome Myriam é encontrado ape­nas na irmã de Moisés. Seria de origem egípcia, e significaria Amada de Deus. Na pronúncia Mariam, tanto no aramaico como no sírio tem vários significados. Um sábio jesuíta ale­mão recorreu pacientemente a todas as etimologias que se derivaram da palavra e encontrou 67 variações. As inter­pretações comumente aceitas harmonizam-se com a mis­são da Santíssima Virgem. No aramaico primitivo Mariam significa a iluminadora, que procede do invisível. Mariam evoca também a ideia de amargura. O sentido seria: amar­go, mirra. A tradução proposta por São Jerônimo teve muita receptividade: gota do mar. Depois Stilla marís (gota do mar) se transformou em Stella maris (estrela do mar) por um erro de copista ou porque os camponeses romanos pronunciavam as vezes desta forma. A ligeira confusão valeu um dos títulos mais clássicos da piedade mariana e um dos hinos mais belos Ave maris stella, composto por São Bernardo.

Outra tradução seria soberana, princesa, senhora. Este último é o mais utilizado pela tradição cristã. Jesus é Nosso Senhor, Maria é Nossa Senhora.

As explicações do nome de Mariam correspondem aos mistérios do Rosário, colocando em destaque as três principais funções que Deus confiou a Maria.

Nos cinco mistérios gozosos, Maria aparece como a iluminadora de uma terra pecadora. Nela, o Verbo, luz dos homens, se encarnou; através dela santifica João Batista; então, no meio da noite, a luz se levanta sobre o mundo; depois, Maria apresenta no Templo aquele que deve ilu­minar todos os povos. A primeira parte da missão esta concluída: Jesus agora deve dedicar-se aos assuntos do Pai. Passam-se os anos. Voltamos a encontrar Maria traspassada pela espada da dor, associando-se ao sacrifício de Nosso Redentor. A dor é a gota mais amarga do cálice que Jesus recebe em Getsêmani e que oferece na cruz pela redenção da humanidade.

Porém seu Filho não podia permanecer cativo da morte. Na Igreja nascente, que canta a glória do ressus­citado, Nossa Senhora reza com os discípulos, que aguar­dam a descida do Espírito Santo. Então, devolve a Deus o Filho que havia lhe sido confiado; em breve, como Rainha do Céu, compartilhará ao seu lado o triunfo, intercedendo por cada um de nós.

Ave Maria. Que seu nome seja nossa luz quando a dúvida envolve e a tentação ataca! Que a recordação da paixão do calvário alivie as dores, quando estamos deses­perados! Devemos invocar o nome de Maria em nossas an­gústias, porque ela é nossa soberana protetora. No caminhar de cada dia, elevemos o olhar para a Estrela do mar.

Quando se levantam os ventos das tentações, quando se tropeça nas pedras da tribulação, olhe para a estrela e chame por Maria. Quando se agitam as ondas da soberba, da ambição e da inveja, olhe para a estrela e chame por Maria. Quando a ira, a avareza e a Impureza assaltam violentamente a alma, olhe para Maria. Quando perturbado pela memória dos pecados, confuso pela fealdade da consciência, temeroso pela ideia do Juízo, mergulhado no abismo do desespero, pense em Maria, invoque Maria. Nunca afaste Maria dos lábios e do coração; nunca se afaste dos exemplos e das virtudes de Nossa Senhora. Não se extravia quem a segue, não se desespera quem pede sua ajuda, não se perde quem pensa nela. Ninguém cai quando está segurando a mão de Maria. Quando se está sob a proteção da Virgem Santíssima, nada a temer. Não se canso quem a tem por guia; quem é amparado por ela chega felizmente ao porto seguro. Assim se compreende pela própria experiência o que foi escrito: o nome do virgem era Maria. [3]
[1] Monsenhor Gay, Elevações.
[2] De la Broise, A Santíssima Virgem.
[3] São Bernardo de Claraval, Segunda homilia sobre Missus est. 
Fonte: CHEVROT, Georges. Ave Maria: história e meditação. São Paulo, Factash Editora, 2011, pp. 32-39.

Para mais informações sobre a evolução histórica desta celebração litúrgica, que havia sumido no Rito Romano moderno e foi restaurada na terceira edição do Missal Romano, em 2002, recomendo o excelente artigo publicado hoje por nosso parceiro, Associação Redemptionis Sacramentum.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Tradição e Juventude Combinam?

View Comments



Missa Pontifical na Forma Extraordinária do Rito Romano, durante a Jornada Mundial da Juventude Rio2013



Normalmente ouvimos dizer que os jovens são rebeldes, querem “romper” com a tradição, que consideram anacrônica e retrógrada. Talvez não seja bem assim, talvez o jovem só rejeite o que não compreende.

Recentemente, uma jovem de minha comunidade fez 15 anos, e teve uma festa de aniversário muito bonita, estilo debutante, com direito a troca de vestidos, valsa, tudo o que tem direito. 

Essas festas, que surgiram como um rito de passagem para as meninas, em que eram apresentadas à sociedade (e estavam, a partir daí, disponíveis para serem paqueradas, namorarem e casarem), são bem antigas, remontando, no Brasil, ao tempo de D. Pedro I, e na Europa, segundo algumas fontes, anteriores à Revolução Francesa. 

As tradições e o roteiro da festa pouco mudaram: a debutante inicia a festa com um vestido mais delicado, mais infantil, para, à meia-noite, aparecer com um vestido mais sofisticado, receber jóias das mãos do pai, que também faz a troca dos sapatos por saltos altos, num visual mais adulto. Depois é a hora da valsa com o pai, com o avô, o irmão, o padrinho, enfim, a(s) figura(s) masculina(s) presente(s) em sua vida, a primeira dança em um evento social. 

Se na década de 80, o “cool” era recusar a festa, trocando-a por um presente, uma viagem, ou fazendo uma festa de aniversário simples, sem conotação de debutante (meu caso), a partir da década de 90 as festas de debutantes ressurgiram com força total. Algumas meninas chegavam a contratar cantores famosos ou galãs de novela para dançar a valsa, e faziam questão de um cerimonial completo. 

Em 2013, a tradição das festas de debutante está mais viva que nunca. As meninas tomam a frente das escolhas, ditam como querem os vestidos, os sapatos, decidem qual será a valsa, enfim, são pró-ativas, sem deixar de lado a tradição. 

Os jovens – não só as aniversariantes, mas também os seus amigos – compreendem os elementos da tradição que lá estão: a passagem de “menina” para “mulher”, nos sinais exteriores do vestido, jóias, sapatos; a valsa, o destaque para a debutante, que é o centro das atenções da festa. Apreciam-lhes a beleza e o significado, porque através de memórias, fotos e da vivência, aprenderam a valorizar os ritos. 

O que consigo concluir de tudo isso é que tradição e juventude não se opõem. O jovem é atraído pela beleza, ainda mais quando ela é plena de significação. Se quando vivencia a tradição, lhe explicam o sentido dos ritos, é capaz de lhes compreender a profundidade e de participar deles com a correta disposição de alma.

Creio que com a liturgia da Santa Missa não é diferente. Nossos jovens são perfeitamente capazes de apreciar a beleza do rito tridentino, assim como compreender o significado dos vários elementos da forma extraordinária. Sem dúvida, poderão se beneficiar muito da vivência, “afinando” a sua sensibilidade para o Sagrado e o transcendente. 

Entendo que conhecer a forma extraordinária do rito romano - a partir de um correto ponto de vista, sem vínculos com grupos sectários - pode levar os jovens a uma melhor compreensão do sentido sacrificial da Missa, e, posteriormente, trazendo esta disposição de alma para a forma ordinária, podem os jovens participar dela com maior reverência. 

Ninguém ama o que não conhece. Pais, Párocos, catequistas e coordenadores de grupos jovens, não tenham medo de apresentar a Missa Tridentina aos seus jovens. Essa Missa é um tesouro de nossa fé e identidade católica, da qual eles serão os guardiões. Para que nossos jovens possam amar e assumir essa fé e identidade, devemos providenciar que conheçam o que celebram. 

A Sagrada Liturgia diz respeito ao culto a Deus prestado pelo próprio Jesus Cristo, e a Santa Missa é a própria história da salvação que se desenrola diante de nós na celebração, já que nela se atualiza (torna presente) tudo o que Deus realizou ao longo dos séculos para salvar os homens. Cabe aqui, ainda, destacar as palavras da Constituição Sacrosanctum Concilium: “Toda celebração litúrgica, enquanto obra de Cristo e do seu corpo, que é a Igreja, é ação sacra por excelência” (n.7). 

Por fim, importante lembrar que, durante séculos, muitos se santificaram por esta forma da Missa, inclusive São Padre Pio e Santa Teresinha do Menino Jesus, santos tão populares entre nossos jovens atualmente. Se corretamente instruídos e motivados, nossos jovens com certeza têm tudo para abraçar a Sagrada Liturgia, conservando a integridade dos ritos e seu desenvolvimento orgânico. 

Então, voltando à reflexão inicial, “tradição e juventude combinam?”, creio que a resposta é: SIM! Nossos jovens são especiais, disseram o seu “sim” a Cristo e à Igreja, querem plenitude de significação, do Sagrado, de Graça. Cabe a nós apresentar a Liturgia Tradicional de maneira que o jovem a conheça, compreenda e ame, transportando seus significados para a vivência litúrgica e eclesial em sua paróquia. 

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Livro-chave da Reforma da Reforma agora em tradução brasileira

View Comments


O clássico da Reforma da Reforma, "Introdução ao Espírito da Liturgia", foi finalmente publicado em tradução brasileira.

O famoso livro do então Cardeal Ratzinger (Papa Bento XVI) - já foi citado diversas vezes em nosso site - é certamente o livro-base do novo movimento litúrgico iniciado pelo Papa Bento XVI.

Esperamos que esta tradução, publicada pelas Edições Loyola, sane alguns problemas de tradução da edição portuguesa.

Mais informações no site da editora.






terça-feira, 6 de agosto de 2013

Cardeal Burke: a Liturgia "não é invenção humana, mas um presente de Deus para nós"

View Comments

Fonte: Zenit | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere
Em entrevista exclusiva a Zenit, o Cardeal Burke fala da importância de estudar a liturgia, da sua relação com a causa pró-vida e dos abusos litúrgicos. 
Os abusos litúrgicos que se seguiram às reformas do Concílio Vaticano II estão "estreitamente relacionados" com uma grande porção de corrupção moral que existe no mundo hoje, diz o cardeal Raymond Leo Burke.
Em uma entrevista exclusiva a Zenit nos bastidores de "Sacra Liturgia 2013", uma grande conferência internacional sobre liturgia ocorrida em Roma no final de junho, o norte-americano mais influente do Vaticano diz que liturgias pobres também levaram a "uma leviandade na catequese" que tem "impactado" e deixado gerações de católicos mal preparadas para lidar com os desafios de hoje.
Em uma ampla discussão, o Cardeal Burke, que é Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, também explica a importância da lei litúrgica, como o Papa Francisco aborda a liturgia e porque a sagrada liturgia é vital para a nova evangelização.
ZENIT: Eminência, quais eram suas esperanças para essa conferência?
Cardeal Burke: Minha esperança para a conferência era um retorno ao ensinamento do Concílio Ecumênico Vaticano II sobre a sagrada liturgia. Além disso, um aprofundamento e apreciação da continuidade do ensinamento praticado na sagrada liturgia durante a história da Igreja, e que também se reflete no Concílio Ecumênico Vaticano II – algo que foi obscurecido depois do Concílio. Eu acredito que, em grande parte, isso foi alcançado.
ZENIT: Nós estamos saindo desse período agora?
Cardeal Burke: Sim, já o Papa Paulo VI, depois do Concílio, de uma maneira bem intensa, e depois João Paulo II e Papa Bento XVI, trabalharam diligentemente para restaurar a verdadeira natureza da sagrada liturgia como o presente de adoração dado por nós a Deus e que nós prestamos a Deus da maneira que Ele nos ensina a adorar. Então, não é invenção humana, mas um presente de Deus para nós.
ZENIT: Como é importante um bom entendimento da liturgia na Igreja de hoje. Como isso pode ajudar a evangelização?
Cardeal Burke: Para mim, é fundamental. É a mais importante área da catequese: entender a adoração devida a Deus. Os três primeiros mandamentos do Decálogo têm a ver com o relacionamento correto com Deus, especialmente no que diz respeito à adoração. É só quando nós entendemos nossa relação com Deus na oferta da adoração que nós também entendemos a ordem correta de todos os outros relacionamentos que nós temos. Como o Papa Bento XVI disse em seu belo magistério sobre a sagrada liturgia, o qual ele expressou com tanta frequência, consiste nessa conexão entre adoração e conduta correta, adoração e lei, adoração e disciplina.
ZENIT: Alguns argumentam que a liturgia tem mais a ver com estética, e não é tão importante quanto, vamos dizer, boas obras feitas com fé. Qual a sua visão desse argumento?
Cardeal Burke: É um erro de concepção comum. Primeiro, a liturgia tem a ver com Cristo. É Cristo vivo em Sua Igreja, Cristo glorioso vindo ao nosso meio e agindo em nós por meio dos sinais sacramentais, para nos dar o presente da vida eterna para nos salvarmos. É a fonte de qualquer obra verdadeiramente caridosa que realizamos, qualquer boa obra que fazemos. Então, a pessoa cujo coração é cheio de caridade e quer fazer boas obras vai, como Madre Teresa, oferecer seu primeiro propósito à adoração de Deus, a fim de que, quando ele for oferecer caridade para as pessoas pobres ou necessitadas, seja no nível de Deus, e não em um nível humano.
ZENIT: Alguns também dizem que estar preocupado com as normas litúrgicas é ser extremado legalista, que é um sufocamento do espírito. Como uma pessoa pode responder isso? Por que devemos nos preocupar com as normas litúrgicas?
Cardeal Burke: A lei litúrgica nos disciplina, a fim de que tenhamos a liberdade de adorar a Deus; de outro modo, somos sequestrados – nós somos as vítimas ou escravos ou das nossas ideias individuais, ideias relativas disto ou daquilo, ou da comunidade ou de qualquer outra coisa. Mas a lei litúrgica salvaguarda a objetividade da adoração divina e prepara esse espaço entre nós, essa liberdade de adorar a Deus como Ele quer, para que, então, estejamos certos de não estarmos adorando a nós mesmos ou, ao mesmo tempo, como diz Aquinate, falsificando de algum modo o culto divino.
ZENIT: Ela oferece uma espécie de modelo?
Cardeal Burke: Exatamente, é o que disciplina faz em todo aspecto de nossas vidas. A menos que sejamos disciplinados, então não somos livres.
ZENIT: Como um bispo diocesano nos Estados Unidos, qual o estado em que o senhor encontrou a liturgia nas paróquias das quais o senhor esteve encarregado de cuidar? Quais são, na sua visão, as prioridades para a renovação litúrgica na vida diocesana hoje?
Cardeal Burke: Eu encontrei, é claro, vários aspectos bonitos – em ambas as dioceses nas quais servi –, como um forte senso de participação da parte dos fiéis. O que eu também encontrei foram algumas sombras, como o Papa João Paulo II as chamava: a perda da fé na Eucaristia, a perda da devoção eucarística e certos abusos litúrgicos. E, como bispo diocesano, eu precisava enfrentá-los e eu fiz o melhor que pude. Mas, ao enfrentá-los, você sempre tenta ajudar tanto o padre quanto os fiéis a entenderem as razões profundas para a disciplina da Igreja, as razões pelas quais certo abuso não somente não ajuda no culto divino, como, de fato, o bloqueia e o corrompe.
ZENIT: É dito que amar a sagrada liturgia e ser pró-vida andam juntos, que aqueles que adoram corretamente são mais dados a querer trazer crianças para o mundo. Você poderia explicar por que é assim?
Cardeal Burke: É na sagrada liturgia, acima de tudo, e particularmente na Sagrada Eucaristia, que nós olhamos para o amor que Deus tem por cada vida humana sem exceção, sem limites, começando pelo primeiro momento da concepção, porque Cristo derramou sua vida, como ele disse, por todos os homens. E lembre-se que Ele nos ensina que tudo o que tivermos feito ao menor dos nossos irmãos, nós fazemos diretamente a Ele. Em outras palavras, Ele se identifica a si mesmo no sacrifício eucarístico com cada vida humana. Então, se por um lado, a Eucaristia inspira uma grande reverência, respeito e cuidado pela vida humana, ao mesmo tempo inspira uma alegria entre aqueles que são casados de procriar, de cooperar com Deus em trazer uma nova vida humana a este mundo.
ZENIT: "Sacra Liturgia" foi sobre celebração litúrgica, mas também formação. Qual a base de formação litúrgica que precisamos em nossas paróquias, dioceses e particularmente em nossos seminários?
Cardeal Burke: A primeira importante lição que precisa ser ensinada é a de que a sagrada liturgia é uma expressão do direito divino de receber de nós o culto que lhe é devido, e que emana de quem nós somos. Nós somos criaturas de Deus e, então, o culto divino, de um modo bem particular, expressa ao mesmo tempo a infinita majestade de Deus e também nossa dignidade como as únicas criaturas na terra capazes de prestar-lhe culto, de, em outras palavras, elevar a Ele nossas mentes e corações em louvor e adoração. Essa seria a primeira lição. Depois, estudar com atenção como os ritos litúrgicos se desenvolveram ao longo dos séculos e não ver a história da Igreja como uma espécie de corrupção daqueles ritos litúrgicos. Neste sentido, a Igreja, no decorrer do tempo, chegou a um entendimento cada vez mais profundo da sagrada liturgia e expressou isso de várias formas, através das vestes sagradas, dos vasos sagrados, da arquitetura sacra – até o cuidado com os paramentos utilizados na Santa Missa. Todas essas são expressões da realidade litúrgica e devem ser cuidadosamente estudadas, e, é claro, então, deve-se estudar a relação da liturgia com os outros aspectos das nossas vidas.
ZENIT: Você é conhecido por celebrar a Forma Extraordinária do Rito Romano. Por que o Papa Bento XVI tornou-a livremente disponível e que papel isso tem na Igreja do século XXI?
Cardeal Burke: O que o Papa Bento XVI viu e experimentou, também por aqueles que vinham a ele, e que estavam muito ligados ao que chamamos hoje de Forma Extraordinária – a Missa Tradicional – foi que, nas reformas introduzidas depois do Concílio, ocorreu uma incompreensão fundamental: nomeadamente, as reformas foram feitas com a ideia de que havia uma ruptura, de que o modo como a Missa era celebrada até o tempo do Concílio era, de alguma maneira, radicalmente defeituosa e que deveria haver uma mudança violenta, uma redução nos ritos litúrgicos e até na linguagem usada, em todos os aspectos. Então, a fim de restabelecer a continuidade, o Santo Padre deu ampla possibilidade para a celebração dos ritos sagrados tal como eram celebrados até 1962, e então expressou a esperança de que através destas duas formas do mesmo rito – é tudo o mesmo rito romano, pode ser diferente, mas é a mesma Missa, o mesmo Sacramento da Penitência e assim por diante – poderia haver um mútuo enriquecimento. E essa continuidade poderia ser mais perfeitamente expressa no que alguns chamaram de "reforma da reforma".
ZENIT: Papa Francisco é uma pessoa diferente de Bento XVI em vários aspectos, mas é difícil de acreditar que há diferenças substanciais entre eles na importância da sagrada liturgia. Existem algumas diferenças?
Cardeal Burke: Eu não vejo nada disso. O Santo Padre claramente não teve a oportunidade de ensinar com autoridade sobre a sagrada liturgia, mas nas coisas que ele disse sobre a sagrada liturgia eu vejo uma perfeita continuidade com o Papa Bento XVI e com sua disciplina, e é isso o que o Papa Francisco está fazendo.
ZENIT: Essa conferência está refletindo sobre os 50 anos desde a abertura do Concílio Vaticano II, e, há 50 anos, em dezembro, essa constituição sobre a sagrada liturgia foi promulgada. Você já mencionou como a renovação litúrgica não foi como o Concílio desejava, mas como você vê o progresso das coisas no futuro? O que você prevê, especialmente entre os jovens?
Cardeal Burke: Os jovens estão voltando atrás agora e estudando ambos os textos do Concílio Ecumênico Vaticano II com os seus sérios textos sobre teologia litúrgica que permanecem válidos ainda hoje. Eles estão estudando os ritos como eles eram celebrados, se esforçando para entender o significado e vários elementos do dito e há um grande entusiasmo e interesse nisso. Tudo isso, eu acredito, é direcionado a uma experiência mais intensa da presença de Deus conosco na sagrada liturgia. Esse elemento transcendente foi mais tristemente perdido quando a reforma após o Concílio foi, por assim dizer, enviesada e manipulada para outros propósitos – aquele senso de transcendência da ação de Cristo por meio dos sacramentos.
ZENIT: Isso reflete a perda do sagrado na sociedade como um todo?
Cardeal Burke: Reflete, de fato. Para mim, não há dúvidas de que os abusos na sagrada liturgia, a redução da sagrada liturgia a uma espécie de atividade humana, está estreitamente relacionada a muita corrupção moral e a uma leviandade na catequese que tem impactado e deixado gerações de católicos mal preparadas para lidar com os desafios do nosso tempo. Você pode ver isso em toda a gama da vida da Igreja.
ZENIT: O Papa Bento disse certa vez que as crises que vemos na sociedade hoje podem ser associadas aos problemas na liturgia.
Cardeal Burke: Sim, ele estava convencido disso e eu posso dizer que também estou. Era, é claro, mais importante que ele estivesse convencido disso, mas eu acredito que ele estava absolutamente correto.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A piedade litúrgica do Papa Francisco: actuosa participatio

View Comments

Há quem diga que o Papa Francisco pouco tem a nos ensinar em matéria de liturgia. É verdade que tal tarefa não seria das mais fáceis para o sucessor - seja ele quem fosse - do Papa Bento XVI, um brilhante teólogo e um católico com um profundo entendimento da Sagrada Liturgia, manifesto não somente em todo seu ofício na Congregação Doutrina da Fé como também durante seu pontificado. E falo em católico porque o Papa Emérito Bento XVI não é um daqueles liturgistas teóricos - de bela retórica, entretanto, de vivência nula -, mas alguém de quem, por sua ars celebrandi, se pode dizer que penetra nos sagrados mistérios.

Bem, este breve texto do Pe. Gaspar S. C. Pelegrini, que reproduzimos na íntegra abaixo, faz notar certos gestos e atitudes do Sumo Pontífice os quais, aos olhos do observador atento, demonstram que Francisco também tem a Sagrada Liturgia como centro de sua espiritualidade, como "fonte e ponto culminante" (Lumen Gentium, 11) de toda sua vida cristã e, portanto, de sua ação evangelizadora e da alegria que ele sempre manifesta.

Já adianto meus comentários ao texto. A piedade litúrgica do Papa, manifesta em seu comportamento durante as ações litúrgicas, nos mostra que devemos imitá-lo e "saber distinguir os diversos momentos e o que convém a cada um", como disse o Pe. Gaspar. Vou um pouco mais longe: digo que o Santo Padre está nos ensinando, com todo o seu modo de ser, o real sentido de actuosa participatio, a participação ativa tão querida pelo Concílio Vaticano II (Sacrosanctum Concilium, 14), e, ao mesmo tempo, tão distorcida. 

Afinal, temos um Papa muito alegre e afável, expansivo (no bom sentido do termo), extremamente sorridente e bem-humorado, que até parece tornar a conhecida expressão "o doce Cristo na terra" mais real. E que gosta de estar no meio do povo, e faz questão disso. Ora, poderia-se esperar que ele transmitisse esse seu modo de ser para a liturgia, para torná-la "mais próxima do povo", mais "participativa", como escutamos freqüentemente por aí. Mas não. Durante a liturgia o Santo Padre se porta sereno, compenetrado, tem um olhar ascético, muito profundo. E demonstra assim que a participação ativa, plena e frutuosa não é somente externa, mas também interna (Sacrosanctum Concilium, 19).


***

(Os grifos são nossos, bem como as fotos ilustrativas, retiradas do Facebook.)

A Missa do Papa


Certamente ainda se vai escrever muito sobre a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro. As alocuções do Santo Padre, seus gestos, etc.

Eu peço licença para falar de um ponto que muito vem me impressionando: a Missa do Papa. Participando da Jornada, pude constatar com meus olhos o que eu já vinha observando desde o dia seguinte à eleição do Papa Francisco: como ele celebra.

Durante missa com os seminaristas em Roma
Quando ele está no papamóvel, ou nos diversos encontros com o povo, ele acena, brinca, gesticula, sorri, abraça, etc. Mas quando ele vai celebrar a Santa Missa, a impressão é que é outra pessoa. Olhos baixos ou fechados, recolhimento, tom de voz mais grave, orações pausadas, etc.

Santo Padre cativando o povo com sua alegria e carisma
Creio que é mais um gesto de Francisco que precisamos imitar. Devemos saber distinguir os diversos momentos e o que convém a cada um.

Ao meu ver, houve até momentos na Jornada (no Glória da Missa de envio, por exemplo), em que faltou “sintonia”, digamos assim, entre o modo de celebrar, entre a atitude do Papa e o modo de cantar de alguns componentes do coral. Os olhos baixos e recolhidos do Papa, sua atitude de oração não combinavam com alguns do coral que batiam palmas, ou balançavam as mãos ou sorriam para as câmeras. Isso, a meu ver...

Ao fundo, o Sumo Pontífice, recolhido, durante a Missa de Envio da JMJ 2013
Há uma oração que parece ter um valor especial para o Papa, pois ele a reza de um modo diferente, mais pausado ainda: é a oração antes da paz: “Senhor Jesus Cristo, dissestes aos vossos Apóstolos...” Na forma extraordinária do Rito Romano, esta oração é a primeira das três que antecedem a comunhão e a rubrica determina que o celebrante deve rezá-la, bem como as outras duas, olhando para a hóstia consagrada. Pois, é assim que o Santo Padre a reza, chegando a interrompê-la um pouquinho para contemplar o Senhor Sacramentado.

Um último ponto, é como o Papa termina sua Missa sempre voltando-se para nossa SenhoraSempre que há uma imagem da Virgem Maria no altar, ele se dirige até ela, oscula, põe a mão e faz o sinal da Cruz.

Papa Francisco durante visita à Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida
Que possamos imitar os muitos gestos de Francisco, de modo especial seu “modus celebrandi”, seu modo de celebrar. No que depende de cada um de nós, procuremos superar as faltas de sintonia entre celebrante, coral e povo. Que no altar, no coral e na assembleia, todos realmente estejam “una voce”, ou seja a uma só voz, com os mesmos sentimentos e as mesmas atitudes.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Música na liturgia: orientada ao canto gregoriano

View Comments

Publicamos tradução e adaptação de trechos do artigo “'Oriented toward gregorian chant'? What does this phrase mean?”, da Irmã Joan L. Roccasalvo, C.S.J.*, publicado na Catholic News Agency. Os grifos são nossos.

Foto: Gabriel Gilder (FutureFashion)

Características da Música Orientada ao Canto Gregoriano

Para começar, música da liturgia deve soar diferente de música da rua, música de um show de rock, música cantada em uma discoteca ou música para filmes. Ela difere dos sons tipicamente associados com música romântica. É oração que se canta, oração que carrega a marca do silêncio. A orientação para o canto gregoriano envolve melodia, ritmo, tipos de som e harmonização.

Melodia. Melodias baseadas no paradigma do canto apresentam as seguintes características. Primeiro, a melodia se move para cima ou para baixo, de forma gradual. Ela quase não tem saltos mais amplos do que uma terça. Segundo, se os intervalos maiores do que uma terça são usados ​​para intensificar um texto, eles são seguidos por uma subida ou descida gradual. Um amplo intervalo ascendente de uma quinta é seguido por progressão escalar descendente; um amplo intervalo descendente de uma quinta é seguido por uma progressão escalar ascendente. Esta estrutura melódica foi quase sempre seguida por J. S. Bach. O perfil de uma linha melódica parece-se com uma onda suave. Melodias cantadas com afetação ou maneirismo peculiar não são compatíveis com a orientação para o canto gregoriano.

Ritmo. O Ritmo baseado no paradigma do canto é flexível e não tem batida vertical, por exemplo: 1-2; 1-2-3; 1-2-3-4; 1-2-3 4-5-6. Esses acentos caem verticalmente na primeira batida, ou, se não, em uma batida sincopada, algo similar ao jazz. Ritmos bruscos, pesados e frenéticos encontrados na cultura popular não são compatíveis com a orientação para o canto gregoriano. O ritmo que mais se aproxima do canto gregoriano é o padrão de subidas e quedas de ondas suaves. A batida ou tactus sobe e desce, e move-se direcionadamente, mas sem uma batida sobe-desce cadenciada.

Som. A voz é o instrumento natural que expressa os sentimentos do coração de forma mais significativa do que um instrumento musical. O órgão, o rei de todos os instrumentos, é preferível se suporta levemente as vozes. Os instrumentos de metal que, por sua própria natureza, clamam proeminência, devem ser usados ​​com moderação ou em ocasiões especiais. Nem eles nem qualquer instrumento musical devem sobrepor as vozes. Na Missa da Ressurreição, de Randall DeBruyn, os instrumentos de metal sobrepõem-se as vozes com seu barulhento som percussivo, o que a torna uma composição de missa inapropriada.

Harmonia. A maioria do canto é monofônico, cantado sem instrumentação. Mas alguns cânticos se prestam bem à harmonização. Hoje, até mesmo o canto gregoriano foi colocado em harmonias simples. As harmonias não devem assemelhar-se ao complexo estilo contrapontístico que foi banido na época da Contra-Reforma. Em conclusão, a música orientada para o canto gregoriano é a música que foi reduzida e purificada a partir do som secular.

Música Litúrgica Contemporânea: os Ordinários e os Próprios da Missa

Hoje ninguém advocaria que o canto gregoriano seja a única música cantada nas comunidades paroquiais. Esperemos que os mosteiros de clausura permitam que suas 3.000 ou mais melodias floresçam para o bem de seus hóspedes e para os tempos. A continuidade do tesouro musical da Igreja não reclama meramente o passado, também acolhe a música contemporânea que carrega a marca do transcendental.

Há uma ênfase renovada em duas direções, ambas essenciais para a participação plena dos fiéis na Missa. Primeiro, estamos testemunhando uma renovação no cantar a Missa. Ou seja, cantar as partes do Ordinário: Kyrie, Gloria, Sanctus e o Agnus Dei. Existem 18 Missas com ordinários em canto gregoriano no Liber Usualis, o livro litúrgico contendo as peças completas de canto gregoriano em latim para cada Missa do ano [NdT.: em se tratando do Ordinário da Missa, as missas em gregoriano estão tanto no Liber Usualis como no Graduale Romanum. Contudo, este último é o livro de hinos litúrgicos próprios da Missa, trazendo também os hinos em gregoriano para o Próprio, tendo sido reeditado em 1974, conforme a reforma litúrgica. Já o primeiro é mais abrangente, traz também hinos para o Ofício Divino, e não foi reeditado após a reforma litúrgica]. As Missas mais fáceis são a XVI e a XVIII, que podem ser cantadas durante a Quaresma e o Advento.

Segundo, há um interesse renovado em cantar o Próprio (as partes móveis) da Missa em vernáculo, devido aos ricos textos retirados do Velho e do Novo Testamentos. Nos anos pós-conciliares testemunhou-se muitas paróquias abandonarem as partes do Próprio prescritas para a Missa: a Entrada (ou Intróito), o Gradual [NdT.: e mesmo o Salmo Responsorial, que durante muito tempo foi substituído por um “canto de meditação”], a Antífona de Comunhão.
***

O artigo termina mencionando alguns compositores que seguem esta orientação ao gregoriano, que mencionaremos a seguir. 

Para composições em inglês, a Irmã Roccasalvo destaca os compositores do Corpus Christi Watershed, um apostolado dedicado à difusão da bela música litúrgica, bem conforme a orientação ao gregoriano retratada neste artigo. Dentre os compositores de música “moderna, acessível e bela” cita: Kevin Allen, Fr. Samuel Weber Bruce E. Ford, Jeff Ostrowski, Aristotle A. Esguerra, Arlene Oost-Zinner, Brian Michael Page, Richard Rice, Ian Williams, Kathy Pluth, David Frill, Chris Mueller, Richard Clark, Noel Jones, Charles Culbreth, Jacob Brancke e outros. 

Mas a influência do canto gregoriano vai muito além. A irmã também lembra a música da comunidade monástica francesa ecumênica de Taizé, “que criou música de silêncio e encanta aqueles que a cantam - ou melhor, rezam-na”, com hinos de ritmo livre como “Jesus, remember me when you come into your kingdom.” e “Stay here, remain with me, watch and pray”. Bem como os salmos do Pe. Joseph Gelineau, S.J., que “expressam uma pureza cristalina que é absoluta beleza, se cantadas adequadamente, e a música de Richard Proux, “que merece menção, bem como sua adorável revisão da The Community Mass” [NdT: é um arranjo de missa originalmente de 1971, bem conhecido nos Estados Unidos, revisado por Proux para a nova tradução do Missal Romano. É possível ouvi-la aqui].

“Toda música apropriada à igreja - polifonia, motetos, saltérios protestantes e outros hinos encontraram modos de adaptar seus próprios estilos às melodias e ritmos do cantochão. A música sacra das escolas Elizabetana e Anglicana, da Ucrânia e da Rússia, hinódia Protestante Reformada e muitos compositores contemporâneos também pertencem ao tesouro ampliado da Igreja, porque a sua estrutura assemelha-se a do canto gregoriano”. Hinos protestantes clássicos como “Old One Hundredth”, “For All the Saints”, “Lift High the Cross”, e muitos outros, todos beberam do gregoriano.

Mesmo grandes compositores também sofreram grande influência do gregoriano, como David Wilcox, Lucien Deiss, Leo Sowerby, Noël Goemanne, Flor Peters, e Healy Willan. E também compositores como JohnTavener e Arvo Pärt, que basearam quase todas suas composições em cantochão.


***

Dito isto, podemos dizer que também visualizamos esta mesma ênfase aqui no Brasil, embora o processo não esteja tão adiantado. Podemos citar como exemplo o trabalho sendo feito pela Arquidiocese de Campinas.

Certamente a nova tradução do Missal para o português, que ansiosamente aguardamos, será o ponto de partida para uma nova e renovada safra de música adequada à liturgia, pois orientada ao canto gregoriano.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

"Pensamentos e Palavras..."

View Comments


Donde tudo nasce? Da atitude amorosa de Deus para com seu povo, para o qual quer dar sempre o que tem de melhor: a Si mesmo, isto é, Seu Filho Jesus Cristo. E para perpetuar esta presença, este "Ser-Um-Conosco", Ele traz ao coração, "re-corda-nos" todos os dias, pelas mãos dos sacerdotes o único e eterno sacrifício per-feito: o oferecimento de Si mesmo ao Pai, de modo incruento, mas que re-nova o sacrifício cruento, uma vez por todas já realizado no Calvário, para a nossa salvação.

Ora, neste querer salvaguardar todo o Mistério que está e de que é imbuída a Liturgia, isto é, a Santa Missa, Jesus, Homem Perfeito, no qual se revela Deus, instituiu homens para que perpetuassem sua obra salvífica, por meio da "re-nov-ação" do Gólgota.

De lá, emana toda a vida e ação do Corpo Místico, da Igreja, dos fiéis, do povo de Deus escolhido. Ela realiza e atualiza, por seus ministros, o "banquete das núpcias do Cordeiro", o culto látrico que mais Lhe agrada: dar-se em alimento, por amor.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Espiritualidade pagã e espiritualidade cristã

View Comments


Todos nós conhecemos as críticas de Nosso Senhor Jesus Cristo aos fariseus por tratarem muitas vezes a observância da Lei cerimonial do Antigo Testamento de forma ritualista, supervalorizando o exterior e descuidando do interior. Creio eu que essa espiritualidade exterior possa ter sido influenciada pelo paganismo. Mas para isso, é necessário retrocedermos um pouco...

Em finais do século V a. C., o profeta Malaquias anunciava a indignação de Deus com relação ao desleixo dos sacerdotes judeus com o culto do Templo de Jerusalém (ofereciam pães profanados, animais coxos, enfermos ou com ossos quebrados, contrariando as prescrições levíticas do Pentateuco mosaico).  Logo após a repreensão, o Senhor anuncia, pela boca de Malaquias, uma nova e pura oblação. Os Padres da Igreja interpretaram essa oblação pura anunciada (a ser oferecida do nascer ao por do Sol em todo o lugar) como a Celebração Eucarística, a Santa Missa. Não é nosso objetivo nesse momento analisar a superioridade e plenitude do Sacrifício eucarístico da Nova Aliança com os sacrifícios da Lei antiga. O erro condenado por Deus na Profecia de Malaquias refere-se ao desleixo nos aspectos exteriores do culto, que muitas vezes torna-se reflexo do desleixo interior ou de uma compreensão errada da Misericórdia Divina e do dever de se fazer as coisas com empenho. Esse delito recorda-nos as banais oferendas de frutos de Caim, diferentes de Abel que buscava oferecer a Deus os melhores cordeiros de seu rebanho. A Deus devemos oferecer o que temos de melhor, sendo as pequenas coisas e as coisas exteriores reflexos de uma adoração interior.


Nos tempos de Jesus, ao que parece, o desleixo litúrgico havia decaído, sobrando talvez como centelha deste fenômeno apenas o comércio e câmbio monetário dentro dos átrios do Templo de Jerusalém. Flávio Josefo relata como o povo e os sacerdotes conservavam o silêncio durante os sacrifícios. No mundo pagão sob o Império de Roma, as coisas não pareciam estar tão diferentes: na passagem do séc. I a.C. para o I d.C. Otaviano César Augusto havia reformado a liturgia dos sacrifícios, restaurando os usos da tradição do povo romano, apoiando-se no caráter ritualista. O culto dos gregos e romanos (e de muitos povos idólatras com quem os judeus tiveram contato no Antigo Testamento) era ritualista, ou seja, baseava-se unicamente na perfeita execução dos elementos exteriores, dos ritos, nos seus mínimos detalhes (um único erro invalidava o sacrifício, tornando necessária sua completa repetição desde o início). Para isso é necessário que entendamos que na religião greco-romana a relação do home com a divindade era em sua essência uma relação de troca: o homem busacava agradar os deuses com sacrifícios, oferendas, libações, jogos, etc em troca de favores. A moral e as normas de conduta não integravam a religião, tendo sido objeto de reflexão dos filósofos e suas escolas. A religião era apenas mais um dos diversos departamentos da vida, tendo um aspecto doméstico (os deuses e ancestrais protetores da família e da casa) e o público (os deuses do universo, responsáveis pelo funcionamento do universo e de vários aspectos da vida). A religião pública era considerada um dos componentes das autoridades e magistrados, que legislavam sobre os ritos e sacrifícios, além de auxiliar materialmente a construção e preservação dos templos, santuários e altares públicos.

 
A mentalidade religiosa pagã pode ter penetrado com maior força entre os judeus sob o reinado de Herodes, o Grande. Herodes era filho de mãe judia e pai idumeu (os idumeus eram uma tribo árabe que havia sido submetida ao judaísmo sob a dinastia dos reis Asomneus) e parece não ter sido extamanete o que chamaríamos de um judeu convicto: quando esteve em Roma e recebeu a coroa da Judeia das mãos do triúnviro romano Marco Antônio, Herodes subiu ao templo do Monte Capitólio onde ofereceu um sacrifício a Júpiter. Embora Herodes tenha eliminado grande parte da aristocracia judaica que compunha o Sinédrio, conseguiu controlar o cargo de Sumo Sacerdote do Templo judaico o que fizeram também depois os governadores nomeados por Roma. Assim, a aristocracia do Templo era bastante influenciada pelos pagãos. Por outro lado, os fariseus buscavam acentuar a identidade judaica, pregando uma observância rigorista da Lei mosaica. Trata-se, naturalmente, do segundo erro extremo concernente ao culto: a supervalorização dos elementos exteriores em detrimento da vida interior. Opondo-se a isso, Nosso Senhor fala da verdadeira adoração como sendo "em espírito e verdade". A adoração deve refletir uma vida de santidade. 

A Lei mosaica era composta de dois elementos: prescrições morais (princípios de conduta com relação a Deus e ao próximo, do qual o centro é o Decálogo, os 10 mandamentos) e prescrições cerimoniais (alguns costumes, hábitos e formas de celebrar o Culto). Contudo, o historiador Paul Veyne aponta que o Cristianismo fora recebido no mundo romano com um certo ar de novidade ao combinar uma religião (relação homem-Deus, culto) com uma filosofia de vida (moral, normas de conduta). Tal fato pode nos levar a corroborar a veracidade das críticas de Jesus aos fariseus, corrente predominante nas diversas comunidades judaicas então espalhadas pelo Império. Ao mundo romano, a observância farisaica da Lei pode ter sido visto de forma muito semelhante a sua forma ritualista de encarar a religião. Basta lembrarmos que os Césares ordenavam oferecer em seu nome ocasionalmente sacrifícios no Templo de Jerusalém.

A liturgia deve estar unida a nossa vida: os ritos exteriores devem ser executados com amor e cuidado, mas sendo esse amor e cuidado um gesto de amor e carinho para com Deus, tal como um filho que prepara com toda dedicação um presente para seus pais, ainda que dentro de suas limitações. Tal como as nossas boas obras obras devem ser reflexo de uma Fé reta, a celebração da Sagrada Liturgia da Igreja deve ser um reflexo de uma vida santa de seus membros. No Ofertório da Missa, oferecemos nossos trabalhos, obras, orações, sacrifícios, afetos, intenções e nosso ser por inteiro juntamente com o Sacrifício de Cristo que se torna presente debaixo das aparências do Pão e do Vinho eucarístico
s. São Josemaría Escrivá escreveu que deveríamos amar a Santa Missa como sendo o centro de nosso dia, onde oferecêssemos nosso trabalho, apostolado, obras, intenções e ações de graças e onde nos muniríamos das graças necessárias para continuar nossos afazeres e dar testemunho cristão durante o dia, de forma que o dia tornasse um prolongamento da Missa celebrada. Tal pensamento vale igualmente para os que assistem missa diária quanto para os que assistem somenta a missa dominical.


Porventura não agem às vezes muitos cristãos como os maus sacerdotes do Antigo Testamento, desprezando o aspecto exterior do culto? Não agem outros no extremo contrário, achando que rendas e brocados e o barroco em larga escala converterão o mundo? Em nossas orações e participação da Missa não agimos muitas vezes com uma mentalidade de troca? Não estão em muitas almas as devoções corrompidas por essa barganha pagã? Que façamos essas perguntas em nosso exame de consciência e possamos cada vez mais ao participarmos da Liturgia unirmo-nos às intenções de toda a Igreja, buscando como Jesus no jardim das oliveiras aquele desejo de que "faça-se a Tua vontade e não a minha". E que esse participação ativa seja também frutuosa, refletindo em uma santificação de todas as nossas atividades cotidianas e de nossa relação com o próximo.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Parceiros