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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Missa crioula – Ou, a tradição gaúcha e a bizarrice litúrgica

Aproveitando que hoje iniciamos, no Rio Grande do Sul, a Semana Farroupilha, que culminará no glorioso 20 de Setembro, em que lembramos os feitos do decênio heróico (1835-1845), e, na oportunidade, cultivamos todo o ethos gaúcho, lanço algumas considerações sobre a “Missa crioula”. A pretexto de gauchismo, desde os anos 70, se promovem, mormente na Semana Farroupilha, essa empulhação travestida de tradição.

A celebração da tal Missa crioula não tem nada nem de católico, nem de tradicional gaúcho. É de um gauchismo caricato, artificial. Tradicional por tradicional, rezem a Missa tridentina, então, hehehe

Seria interessante deixar claro, por exemplo, que não se deve admitir a mistura de símbolos litúrgicos com culturais gaúchos, que não se deve entoar cantos que, embora religiosos, não sejam adequados à liturgia, que não existe um rito gaúcho, que não se deve inventar ritos como os de colocar os lenços na cruz etc.

Essa Missa dos CTGs NÃO é lícita! O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) inventou um rito, meteu no meio do rito romano e deu nessa palhaçada! A tal “Missa Crioula” dos CTGs é de uma falta de respeito que nunca vi em lugar nenhum! Totalmente sem propósito, além de violar a norma litúrgica, que não confere aos sacerdotes mudar o rito, nem aos Bispos. Só o Papa pode mudar a liturgia. O rito do MTG é ilícito (ainda que a Missa seja válida), suas cerimônias não são coerentes com o rito romano, e sua celebração é totalmente artificial, pois partem do pressuposto de que o verdadeiro gauchismo é fazer tudo “de um modo gaúcho”: ora, isso é artificial, é um gauchismo fictício, industrializado. Digo mais: a tal Missa Crioula é CARICATURIZADA! Se o MTG quer algo que seja tradicional, que represente o Rio Grande na época de ouro (das revoluções, por exemplo, que são sempre por nós cultuadas), então que façam celebrar a Missa tridentina (que era o rito em vigor na época).

Essa celebração atenta contra o rito romano, contra a unidade da Igreja, contra a noção de liturgia, mas também contra o verdadeiro gauchismo. Não se é gaúcho por meter bombacha em tudo… Palavra de quem anda sempre com uma!

Não se confunda, outrossim, a Missa Crioula do MTG (que tem coisas absolutamente bizarras, como mudança dos textos da Bíblia, adaptação do Ordinário, e invenção de um Próprio que não consta do Missal, entre outras coisas das mais esquisitas), com a belíssima Misa Criolla, de Ariel Ramirez, composição sacra com ritmos da pampa (chacarera, milonga, zamba), toda em espanhol, para os textos do Ordinário (Kyrie, Gloria etc), sem alterar a letra e sem palhaçadas.

Acreditem: as palavras acima NÃO foram duras… Foram amorosas, para que os leitores tenham noção do “espetáculo” que é essa tal invenção do MTG. Se alguém de vcs assistir algo assim, garanto que tem um enfarto!

A unidade do rito romano é ferozmente violada pela Missa dos CTGs. Talvez na melhor das intenções, mas o fato é que dessacraliza a cerimônia.

As leituras são mudadas. O texto da Bíblia é mudado. O texto do Ordinário da Missa é mudado. As cerimônias são mudadas, e outras são acrescentadas. Não é respeitado o calendário litúrgico, nem o uso dos paramentos. Um Próprio (a parte que se altera a cada Missa) completamente diverso daqueles previstos no Missal é criado. As adaptações culturais permitidas pelo Vaticano II não devem, segundo texto expresso do próprio Concílio, atentar contra a unidade do rito romano. Ora, mudar os textos, as leituras, as orações, e até os paramentos do padre não é atender contra essa unidade? O rito romano resta preservado? Se mudam as orações, os textos, as leituras, os paramentos e a própria estrutura da Missa (Ordinário), pode-se falar que é o mesmo rito?

Trata-se de uma distorção do rito romano, o que é ÍLÍCITO, ou da criação de um rito novo, o que também é ILÍCITO, dado que só o Papa pode legislar sobre liturgia.

Creiam-me, meus caros, sou gaúcho e cultuador de nossa riquíssima tradição. Ando no dia-a-dia de bombacha, asso meu churrasco, vou a campo a cavalo. Mas cada coisa na sua hora. Como bem disse, tradição por tradição, a Missa crioula de tradicional não tem nada. É uma caricatura, um arremedo, e ouso dizer um deboche da verdadeira cultura gaúcha.

O “rito crioulo” é artificial porque cria elementos não presentes em nenhum outro rito e completamente destoante até mesmo da espiritualidade católica tradicional. Não usa uma linguagem adequada para a liturgia também. De outra sorte, nem mesmo atende a um legítimo anseio do povo gaúcho: tradicional por tradicional (que é o que esse rito pretende ser), a forma extraordinária do rito romano é muito mais.

Além disso, ele não se pretende outro rito, mas uma variação do rito romano, ou um rito romano inculturado. Entretanto, o próprio Vaticano II – como bem recordava João Paulo II – só permitiu a inculturação litúrgica salvaguardada a unidade substancial do rito romano. Além disso, é preciso autorização de Roma. Esse rito crioulo, de romano não tem nada (nada mesmo!), e, se é um rito novo, só poderia ser “criado” a partir de desenvolvimento litúrgico (o que não se faz, ademais, de uma hora para outra; desenvolvimento supõe anos, décadas, séculos). Outrossim, só quem pode criar ou reformar ritos é o Papa.

Vejam o absurdo aqui.

Todos sabem que eu sou gaúcho daqueles de andar pilchado (estou até de bombacha e alpargata neste exato momento, e tomando meu mate da tarde), mas essa mania de ter tudo “à moda crioula” é um deboche da verdadeira tradição. Gaúcho que anda pilchado usa pilcha mais contemporânea, não uma “roupa típica do século XIX”: ninguém anda na rua fantasiado de gaúcho antigo (só se usa isso em apresentações artísticas de grupos que preservam o nosso folclore, os chamados CTGs). A pilcha que o homem do campo usa não é a pilcha do seu antepassado: e os homens da cidade que gostam das coisas do Sul também não se pilcham como se estivéssemos na Revolução Farroupilha. Se assim o fosse, não seria pilcha, mas fantasia…

É o mesmo raciocínio para a Missa crioula Uma caricatura da verdadeira tradição gaúcha.

Sei que esse é um argumento por um viés não-religioso, mas ajuda a entender que esse rito de gaúcho não tem nada, não diz nada para o autêntico homem do campo (que vai à Missa todo Domingo e não precisa de “Missa fantasiada de CTG” para isso), e que eu, gaúcho cultuador das mais caras tradições pampeanas, sinto-me envergonhado por essa criação sulina…

Nada é tão tradicional na liturgia quanto a Missa justamente chamada tradicional. Mas querem chamar de tradicional essa invenção modernosa… O que a Missa crioula tem de tradicional para ser cultuada em Centros de TRADIÇÃO Gaúcha?

Alguns poderiam levantar, sem embargo, que os próprios ritos que temos hoje começaram aos poucos, sem muitas regras, se desenvolvendo localmente, muitas vezes a partir dos livros litúrgicos oficiais e com certa criatividade.

Todavia, não nos esqueçamos que isso foi um processo natural, e não havia a proibição que hoje temos de não inventar nada. Até porque as coisas estavam ainda em ebulição. Hoje, temos os livros formados, e qualquer processo de inculturação só é legítimo em territórios ainda não-alcançados pelo Evangelho, e sempre com a atenta supervisão e aprovação do Papa.

Ainda assim, para fins de debate apenas, imaginemos que, no futuro, se tenha um rito gaúcho, crioulo, campeiro, sulino... Claro que certos elementos regionais vão influenciar na formação do rito (ou em sua inculturação), mas acho que não podem soar como caricatura. Não se é gaúcho, por exemplo, por, na eventual Oração Eucarística crioula, falar em bombacha e chimarrão. Os elementos culturais ficam forçados, digamos assim. Assim como o rito romano tradicional (ou o moderno bem feito) não é romano por falar em "senado", "cônsul", "direito romano", "togas" e "corrida de bigas". Nem o rito bizantino fica nomeando "filosofia", "teatro", "cicuta" etc.

O que faz o rito romano ser romano é ter incorporado não os termos, não os elementos exteriores de uma cultura, mas o ethos. Por exemplo, é próprio da cultura romana (e ocidental, por derivação), a sobriedade aliada à nobreza. Isso quer dizer que cultivamos o que é nobre, distinto, bonito, mas sem extravagância, sem o que, para nós, seria exagerado. A sobriedade, a simplicidade, limita a nobreza. Somos equilibrados, digamos assim. E esse equilíbrio, essa nobre simplicidade, é marca fundamental do rito romano tradicional (é verdade que, em alguns pontos, a meu ver, essa nobre simplicidade se perdeu por causa de algumas rubricas, e isso fez com que os reformadores litúrgicos instaurassem o rito moderno, que cumpriu bem seu papel nesse sentido, mas exagerou muito, a meu ver, na simplicidade, deixando de lado a nobreza, mas isso é outro assunto).

Nos ritos orientais, por sua vez, é justo o que é exuberante a característica de sua mentalidade. Assim, natural que os siríacos, os maronitas, os bizantinos, os armênios, tenham liturgias mais longas, com mais incenso, com palavras mais rebuscadas, com vestes mais esplendorosas, que, para nós, soaria como culturalmente exagerado.

Assim, o que vejo é que se um "rito crioulo" pudesse existir, ele deveria incorporar o ethos gaúcho, não simplesmente jogar termos e costumes regionais da pampa para dentro da celebração.

Claro que ele nasceria primeiro não como um rito próprio, mas como uma adaptação do rito romano para uso local e eventual, e, aos poucos, poderia ir aumentando sua influência a ponto de, COM OS SÉCULOS, se formar um novo rito, autônomo. Ainda assim, seria, repito, o ethos, a mentalidade do gaúcho, que ajudaria no nascedouro e no desenvolvimento desse hipotético rito.

O que vemos com a "Missa crioula" e com essa eventual "Oração Eucarística crioula" seria simplesmente uma adaptação das formas romanas a uma linguagem campeira. Aliás, estereotipada.

Muito melhor é que aquilo que está na alma do gaúcho (sua bravura, seu gosto pela guerra, sua característica mais sisuda e menos "calorosa" do que o restante do país, seu amor pela ordem, seu gosto pela liberdade etc) é que vá, aos poucos, formando um "jeito" de celebrar o rito, e isso, aos poucos, se vá desenvolvendo. Não vejo agora nenhum exemplo, mas também acho que os primeiros cristãos romanos não tinham eles a mão se para eles lhes fosse indagado como formar um "rito romano".

Outra coisa que se poderia pensar, em hipótese, seria como incorporar a tradição musical gaúcha, SEM PERDER A ESTÉTICA PRÓPRIA DA LITURGIA, no rito. Assim, embora o rito da "Missa crioula" do MTG seja um fiasco, a obra musical "Misa criolla" do Ariel Ramírez me parece um feliz e acertado exemplo de inculturação bem sucedida, até porque apenas propõe melodias campeiras (chacareras, zambas e milongas, especificamente), sem alterar fórmulas nem ritos (o que até poderia ser feito, mas dentro do quadro geral que apresentei, não do modo como é feito pelos CTGs da vida).

Evidentemente, toda essa conversa sobre a Missa crioula pode ser aplicada às Missas sertaneja, do vaqueiro etc.

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Diferenciemos a Missa "crioula" do MTG/CTGs de uma autêntica obra de arte, como mencionamos acima, que é a Misa Criolla, de Ariel Ramírez. Abaixo, uma sua versão executada pelo Coro da Catedral de Santo Isidoro, na Argentina, e pelo grupo de folclore gaucho igualmente argentino Los Fronterizos. Muito boa. Vale a pena conferir:

Kyrie

Gloria

Credo

Sanctus

Agnus Dei

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Outra versão de algumas partes, com um grupo mais orquestral, mas ainda com o bombo legüero e as guitarras. A melhor ainda é de cima.

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