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domingo, 27 de novembro de 2011

Primeiro Domingo do Advento pelo Beato Cardeal Schuster

Notas do tradutor: quando o autor do texto fala em "missal atual", refere-se ao que hoje chamamos Forma Extraordinária do Rito Romano, que em sua época era a única e, obviamente, não tinha esse nome. Considerando também que o autor faleceu em 1954, seu "missal atual" não é sequer o de 1962, embora as alterações feitas nesse ano não pareçam ter sido extensas.

No que se refira a este dia litúrgico específico, o Primeiro Domingo do Advento, não há diferença nenhuma. Todos os textos aos quais o autor se refere são exatamente os mesmos que o leitor encontrará no Missal de 1962, na chamada "Missa Tridentina", a Forma Extraordinária do Rito Romano.

Mesmo que o leitor tenha como referência a Forma Ordinária, a leitura lhe será de proveito. Deve considerar o seguinte:

  1. Os textos do Introito, do Gradual, do Alleluia, do Ofertório e da Comunhão são os mesmos em ambas as formas.
  2. O Evangelho da Forma Extraordinária é o mesmo do Ano A da Forma Ordinária. Os anos B e C têm Evangelhos diferentes.
  3. A Forma Extraordinária tem apenas uma leitura, além do Evangelho; ela coincide com a Segunda Leitura da Forma Ordinária, mas só no Ano A. Os anos B e C têm Segundas Leituras diferentes.
  4. A Primeira Leitura da Forma Ordinária não está presente, de nenhuma maneira, na Forma Extraordinária.
  5. São também diferentes as orações do Ofertório e depois da Comunhão.

Finalmente, quanto ao venerável autor: o Beato Ildefonso Schuster (1880-1954), beneditino, cardeal da Santa Igreja Romana, nascido Alfredo Schuster, escreveu importantes textos sobre Liturgia, contidos no seu Liber Sacramentorum - notas históricas e litúrgicas sobre o Missal Romano. Foi arcebispo de Milão, predecessor imediato de Giovanni Montini, mais tarde papa Paulo VI, que abriu o processo de beatificação de dom Schuster.

Foi feito cardeal por Pio XI, e beatificado pelo Beato João Paulo II em 1996. Publicamos hoje um capítulo do segundo tomo dessa obra, no qual o Beato Schuster explica aspectos sobre o Primeiro Domingo do Advento.

A tradução das citações bíblicas em latim foi tomada da Bíblia Ave Maria, e aparece entre colchetes, assim como demais notas do tradutor.

Beato Ildefonso [Alfredo Ludovico], Cardeal Schuster, OSB - do Segundo Tomo de Liber Sacramentorum - Notes historiques et liturgiques sur le Missel Romain: Primeiro Domingo do Advento. Estação em Santa Maria Maior.
O Missal Romano atual começa hoje seu ciclo litúrgico, diferentemente dos antigos Sacramentários, nos quais o ano se abria com a Solenidade do Natal. A razão disto é que a encarnação do Verbo de Deus é o verdadeiro ponto central, a coluna divisória da longa série de séculos percorridos pela humanidade; esta, nos desígnios da divina Providência, ora prepara esta plenitude dos tempos que preludia o feliz dia da redenção, ora, do estábulo de Belém, dirige seus passos em direção ao vale de Josafá, onde o Menino da Manjedoura espera para julgar toda a descendência de Adão, resgatada com seu Sangue precioso. A ordem do missal atual é mais lógica e corresponde melhor a essa nobre concepção da história, que faz da Encarnação o verdadeiro ponto central do drama do universo; entretanto, os antigos, fazendo seus Sacramentários começarem com a festa do Natal, seguiam uma tradição da liturgia primitiva, que até o século IV não conhecia ainda um período de quatro ou seis semanas de preparação a esta grande solenidade.
Foi em meados do século V que, como contragolpe às heresias cristológicas de Nestório, a comemoração do nascimento do Salvador adquiriu uma grande solenidade; e, em Ravena, na Gália e na Espanha, começou a aparecer na liturgia um ciclo especial de preparação para o Natal. A polêmica contra Nestório e Eutiques e os grandes concílios de Éfeso e Calcedônia, onde foi solenemente proclamado o dogma das duas naturezas, divina e humana, na única pessoa do Senhor Jesus, e nos quais foram exaltadas as glórias e prerrogativas da Theotokos, deram um vigoroso impulso à piedade católica ligada ao mistério da Encarnação, que encontrou em São Leão Magno e em São Pedro Crisólogo os pregadores mais poderosos e mais entusiasmados deste mistério da Redenção.
O Sacramentário leonino, tendo sido mutilado, não nos pode ensinar sobre as origens do Advento litúrgico em Roma; mas é provável que o rito da metrópole pontifícia, neste ponto, tenha sido idêntico em substância àquele de Nápoles e da diocese sufragânea de Ravena, onde Crisólogo – embora não se lhe deva atribuir a paternidade das coletas do Advento do famoso rotulus [rolo] de Ravena – pronunciou esplêndidas homilias em preparação à festa do Natal, em quatro ocasiões diferentes.
Há alguns séculos a Igreja romana consagra quatro semanas à celebração do Advento. É verdade que os Sacramentários gelasiano e gregoriano, de acordo com muitos lecionários antigos, enumeram cinco; mas as listas de leituras de Cápua e de Nápoles, e o uso dos Nestorianos, que conheciam somente quatro semanas de Advento, ainda depõem neste ponto a favor da antigüidade da pura tradição romana.
Durante a Quaresma, o que predomina é o conceito de penitência e luto pelo deicídio que se consuma em Jerusalém; durante o Advento, pelo contrário, o espírito da santa liturgia, ao anúncio jubiloso da libertação próxima – Evangelizo vobis gaudium magnum quod erit omni populo ["Eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo"](Lc 2, 10) – é o de um santo entusiasmo, de um terno reconhecimento e de um desejo intenso da vinda do Verbo de Deus aos corações de todos os filhos de Adão. Nosso coração, como o de Abraão que exultavit, diz Jesus Cristo, ut videret diem meum, vidit et gavisus est ["Abraão, vosso pai, exultou com o pensamento de ver o meu dia"](Jo 8, 56), deve estar penetrado de santo entusiasmo pelo triunfo definitivo da humanidade, que, pela união hipostática do Cristo, se eleva ao trono da Divindade.
Os cantos da missa, os responsos, as antífonas do ofício divino são, por esta razão, todas coloridas pelo alleluia; parece que a natureza inteira – como a descreveu o apóstolo, na espera da parusia final: expectatio enim creaturae revelationem filiorum Dei expectat ["a criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus"](Rom 8, 19) – se exalta pela encarnação do Verbo de Deus que, depois de tantos séculos de espera, finalmente vem sobre esta terra para conferir à obra-prima de suas mãos a perfeição última – Instaurare omnia in Christo ["reunir em Cristo todas as coisas"](Ef 1, 10). A santa liturgia, durante este tempo, recolhe nas Escrituras as expressões mais enérgicas e mais aptas a exprimir o desejo intenso e a alegria com os quais os santos patriarcas, os profetas e os justos de todo o Antigo Testamento apressaram, por seus votos e clamores, a descida do Filho de Deus. Não há nada que possamos fazer melhor do que nos associar a seus piedosos sentimentos, suplicando ao Verbo encarnado que se digne nascer em todos os corações, e estender também seu reino àquelas regiões onde, até o presente, seu santo nome ainda não tenha sido anunciado, cujos habitantes ainda durmam nas trevas e nas sombras da morte.
Parece que a estação deste dia na basílica Liberiana – onde, desde a época de Sixto III se venerava uma reprodução romana do santuário da Natividade em Belém – quer sinalizar aos fiéis o propósito e o fim verdadeiros deste período de preparação e de oração. É lá que nos espera o Praesepe Domini, o berço do Verbo encarnado, que, demonstrando a verdade de sua natureza humana, é também o trono do qual Ele nos dá suas primeiras lições evangélicas sobre obediência, pobreza, mortificação dos sentidos, condenando o orgulho, a sensualidade e o pomposo enganador do mundo.
O Ordo Romanus de Cencius Camerarius nos atesta que no século XII o Papa ainda tinha o hábito de se dirigir a Santa Maria Maior para ali celebrar a missa estacional deste dia. É provável que este uso remonte ao tempo de São Gregório Magno, o reordenador por excelência da liturgia estacional; ainda, seguindo uma indicação de numerosos manuscritos antigos de suas obras, a homilia deste dia sobre o Evangelho, que se lê no breviário, foi pronunciada precisamente em Santa Maria Maior.
A antífona do introito Ad te levavi, com o salmo 24 que a segue, exprime muito bem os sentimentos da humanidade abatida, mas cheia de esperança; ela reza ao Senhor para que a recoloque no caminho que conduz a Belém, sob a verdade e a justiça.
Omite-se o Hino angélico [Gloria in excelsis..., "Glória a Deus nas alturas..."], para retomá-lo com maior alegria na noite de Natal. Entretanto, na Idade Média, o papa o entoava solenemente, neste dia, em Santa Maria Maior, o que combina bem com o caráter de festa de todo o Ofício do Advento.
Na coleta, suplica-se ao Senhor que se levante em nosso auxílio, e, por seu poder, que nos poupe dos perigos aos quais o pecado nos expõe.
A primeira leitura é tirada da epístola de São Paulo aos Romanos (13, 11-14). Depois da tibieza e da letargia espiritual na qual estávamos mergulhados pela prosperidade temporal, agora, ao fim do ano, a Igreja nos tira do sono com as palavras inspiradas do Apóstolo, que, certa vez, fizeram Agostinho converter-se. A noite do século, da ignorância e do pecado já quase terminou; a tocha evangélica, tal como aurora matinal, já doura os cimos dos colles mundi [montes do mundo], e convém que nossas ações sejam dignas, também elas, deste novo tempo de luz e de santidade inaugurado pelo Cristo. A frase lapidar de São Paulo “revestir-se de Jesus Cristo” é tão profunda que não se a pode traduzir ou explicar facilmente. Como o expõem os santos doutores, o divino Salvador, por seus exemplos, seus méritos, seu espírito, deve ser como uma vestimenta sobrenatural para nossa alma, e faz-se necessário que ela reviva, por assim dizer, Jesus, e continue de modo místico sobre a Terra sua encarnação e sua santíssima vida, para glória do Pai.
O responsório gradual, na mesma regra da antiga liturgia, é tomado de empréstimo ao mesmo salmo 24 do qual se tirou o Introito. O versículo aleluiático que, originalmente, seguia a segunda leitura – o Evangelho era a terceira – é tirado do salmo 84 e exprime o desejo de que o Pai nos mostre sua misericórdia e sua salvação, isto é, Jesus encarnado.

Na leitura evangélica deste dia (Lc 21, 25-33), a Igreja relaciona a segunda vinda de Jesus ao fim do mundo, in gloria majestatis suae, com sua primeira aparição em Belém in humilitate passionis, na qualidade de Redentor. Tanto num como noutro caso, ele convida seus eleitos a levantar a cabeça, porque o dia da batalha e da libertação se aproxima. A Igreja se manteve fiel a este chamado: as primeiras gerações cristãs terminavam suas sinaxes com um voto fervente, a fim de que Jesus apressasse a hora de sua última aparição. Amen, veni, Domine Iesu ["Amém, vem, Senhor Jesus"](Ap 22, 20) é, ainda hoje, a fé ardente que apóia a família católica em suas lutas e em suas dores, hi qui diligunt adventum eius ["aqueles que aguardam com amor a sua aparição"](2Tim 4, 8).
São Gregório Magno comentou aos fiéis de Roma a leitura evangélica deste dia naquela mesma basílica estacional de Santa Maria Maior onde ainda hoje nos reunimos; e, para reproduzir nas mais vivas cores a catástrofe final do mundo, ele tomou de empréstimo os elementos de sua descrição a um tremor de terra que, três anos antes, havia derrubado templos e casas, enchendo as almas de terror.
A antífona do ofertório também vem do salmo 24 – o salmo, então, próprio do Primeiro Domingo do Advento – e exprime muito bem seu significado: aquele que espera o Senhor com fé vigilante não será confundido.
A coleta sobre as oblações (Secreta) em sua sobriedade e sua elegante concisão exprime em termos diferentes o antigo conceito que ainda informa a epiclese romana, e suplica ao senhor que a eficácia do Sacrifício eucarístico purifique nossas almas e nos conceda aproximarmo-nos dignamente para receber o seu Autor.
A antífona para a Comunhão é um canto de júbilo e de gratidão, tirado do salmo 84, o mesmo que nos dera o versículo aleluiático. A Eucaristia é o penhor da bondade infinita do Senhor, e nossa terra, antes árida e estéril por causa do pecado, banhada pelo orvalho da graça tem agora o seu fruto.
A coleta de ação de graças depois da santa Comunhão – a verdadeira Eucharistia, no sentido etimológico – se inspira no salmo 47. O pão celeste do qual participamos é aquele que, melhor que qualquer outro, nos disporá por sua virtude divina à preparação conveniente para a festa próxima da redenção comum.
Na baixa Idade Média, no começo do novo ano litúrgico, era um costume disseminado cantar antes do Introito alguns versículos em honra de São Gregório Magno, o inspirado redator do Antifonário que leva seu nome:
Sanctissimus namque Gregorius, cum preces effunderet ad Dominum ut musicum tonum ei desuper in car minibus dedisset: tune descendit Spiritus Sanctus super eum in specie columbae, et illustravit cor eius. Et sic demum exorsus est canere ita dicendo: Ad te levavi etc. 
A célebre seqüência do século XVI, Dies irae, dies illa, antes de ser relacionada com os defuntos (acrescendo-se então o verso final Dona eis requiem. Amen["Dai-lhe o descanso. Amém."]) era cantada hoje antes do Evangelho, como para preparar as almas à terrível narração da catástrofe final descrita por São Lucas.
O homem se compõe de espírito e de carne; aquele se atrai pela verdade e pelo amor; esta somente compreende o bem ou o mal sensível, devendo ser mortificada pela penitência e por um temor salutar dos julgamentos divinos.
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