Manchetes

terça-feira, 22 de julho de 2014

Convite: Missa na Forma Extraordinária em Santo Amaro

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Divulgamos a missa tridentina em Santo Amaro, a pedido do leitor José Tadeu Hoe:



sábado, 19 de julho de 2014

A Igreja dos Mártires frente às "Missas Inculturadas"

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A Igreja dos Mártires desde os primeiros séculos seguiu o exemplo de seu Divino Fundador dando testemunho da Verdade. Por esta magnífica vocação todos os apóstolos, com exceção de São João, derramaram seu sangue e com eles muitos outros, ajudados pelo Espírito Santo, mantiveram-se perseverantes até serem entregues à morte por não negarem a sua fé. Segundo uma tão famosa e antiga citação "o sangue dos mártires é a semente da Igreja". De tal situação não podemos colher outro ensinamento se não o de que a Igreja está disposta a derramar seu sangue em vez de trair o seu Senhor. Nesta mesma igreja a terrível heresia do relativismo em que "todas as religiões são boas e podem levar ao céu" são tem espaço.

Entre os mártires, um dos mais célebres é São Paulo. De perseguidor passou à pregador, responsável pela evangelização de muitos povos, sendo boa parte do novo testamento cartas suas às mais diversas comunidades. Entre seus escritos, destaca-se um trecho da carta aos coríntios  cujo conteúdo  transcrevemos:
"Para os judeus fiz-me judeu, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da lei, fiz-me como se eu estivesse debaixo da lei, embora o não esteja, a fim de ganhar aqueles que estão debaixo da lei. Para os que não têm lei, fiz-me como se eu não tivesse lei, ainda que eu não esteja isento da lei de Deus - porquanto estou sob a lei de Cristo -, a fim de ganhar os que não têm lei. Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de salvar a todos." 1Cor 9,20-22
Em uma primeira visão, poderíamos ver nesse trecho uma negação da pregação silenciosa dos mártires. Como pode alguém se fazer "tudo para todos" e ainda permanecer contrário ao relativismo? O próprio apóstolo responde a natureza do seu fazer tudo para todos explicitando sua finalidade "ganhar os que estão debaixo da lei", "ganhar os que não têm lei", em resumo, "salvar a todos". Fica assim claro que São Paulo não nega a sua fé, mas leva-a a todos superando tudo aquilo que não é inerente à sã doutrina e que poderia servir de obstáculo à sua propagação. Neste mesmo espírito missionários devemos enxergar a inculturação litúrgica. É função dela criar uma ponte que leve a todos, independentemente de sua cultura, à fé em Cristo, servindo de caminho do paganismo à Verdade.

Exemplos da correta aplicação da inculturação se encontram nos mais diversos países. Na Índia, os santos tem feições indianas, seus andores são enfeitados com uma quantidade imensa de cores, luzes e flores, próprios daquilo que lá é considerado solene. Na Índia, Cristo se faz indiano, para ganhar os indianos. Na China o menino Jesus veste amarelo/dourado, a cor reservada aos imperadores da China, uma forma única do anúncio do reinado de Cristo naquele país, além dos traços orientais e vestes típicas. Na China, Cristo se faz chinês para ganhar os chineses.



Por vezes, essa inculturação demanda mudanças nas rubricas. Como no Japão em que se usa o amarelo em substituição ao branco para as ocasiões de júbilo e branco no lugar do preto para as exéquias, a fim de refletir melhor a cultura daquele povo. É necessário lembrar que, neste caso, não se trata de uma simples execução das rubricas de maneira adaptada aos costumes de um lugar, mas da alteração das mesmas. E como nos lembra a Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II:
22. § 1. Regular a sagrada Liturgia compete ùnicamente à autoridade da Igreja, a qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas do direito, no Bispo.
§ 2. Em virtude do poder concedido pelo direito, pertence também às competentes assembleias episcopais territoriais de vário género legitimamente constituídas regular, dentro dos limites estabelecidos, a Liturgia.
§ 3. Por isso, ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica.
Ou seja, à exceção daqueles casos em que as rubricas indicam explicitamente que algum detalhe é de competência da conferência episcopal ou do ordinário, o poder para modificar o que está explicitado nos livros litúrgicos compete exclusivamente à Santa Sé.

Em nosso país, vemos o surgimento de muitos gêneros de celebração: missa afro, missa crioula, missa sertaneja. Tais celebrações pretendem ser "inculturadas", mas traem os princípios da inculturação. Em primeiro lugar, as modificações realizadas em tais missas são ilícitas, dado que carecem de qualquer autorização da Santa Sé. Em segundo lugar, essas celebrações não estão de acordo com a finalidade da inculturação que é levar Cristo a novas culturas.

Quando da colonização portuguesa, haviam comunidades que desconheciam o Evangelho e estavam imersas em culturas muito distintas daquelas dos missionários, assim necessitava-se de uma linguagem adequada à sua realidade a fim de que a fé fosse plenamente assimilada. A realidade brasileira atual é completamente diversa. Trata-se de uma sociedade com seis séculos de cristianismo, cujos costumes foram erigidos sobre uma base católica herdada de Portugal. Assim sendo, a inculturação que se pretende no Brasil é completamente infundada.

Vejamos com que detalhes se realizam de fato nessas celebrações, tomando como modelo a "missa sertaneja". O espaço litúrgico é invadido por uma profusão de instrumentos do campo: selas, balaios, cana-de-açúcar. O padre veste-se com paramentos xadrez, botinas e um chapéu. Toca-se viola e sanfona na missa. As fórmulas da missa se modificam, "Deus todo poderoso" se torna "O grande tropeiro" ou coisa do gênero. Faz-se até café em pleno presbitério.

Nos perguntamos: é uma celebração adaptada à cultura sertaneja? Não! O que se apresenta é uma  caricatura daquela cultura dentro de uma caricatura de Missa, que em nada encarna o modo de viver deste povo. Café e Missa? Não, aos domingos vai-se à missa em jejum, por isso mesmo muito cedo que é quando este povo está acostumado a começar o dia. A sanfona? Guardada desde o fim do baile. Na missa o toque dos sinos convoca a assembleia e, dentro da igreja, além dos sinos o suave toque do órgão. O padre antes da Santa Missa já está, de batina, rezando. Pede-se com muita piedade a bênção ao padre, ao vigário como é costume dizer. Os chapéus dos homens? Retirados na porta da igreja, onde também as mulheres se cobrem com o véu, então eles para um lado e elas para outro. E quando a missa começa, mais ainda do que antes, absoluto silêncio.

Veja que a cultura sertaneja por ser eminentemente católica tem como um ato de respeito manter os objetos profanos fora da igreja. Enquanto que nas "missas inculturadas" esquece-se totalmente da noção de sacralidade e se profana tudo que faz parte da celebração com objetos "temáticos". Também é muito ligada ao cumprimento de formalidades e o respeito às regras, por isso mesmo ser "sistemático" é uma qualidade muito comum aos sertanejos; impossível imaginar uma comunidade com esta maneira de ver o mundo mudando a Santa Missa segundo o que lhes parece adequado. Fica claro assim que a "missa sertaneja" não é nem um pouco sertaneja, mas é uma liturgia de laboratório, que alguém criou para satisfazer, na linguagem própria da roça, o seu "empenho": uma vontade descabida de realizar algo desnecessário.

Extrapolando o exemplo de volta aos diversos tipos de "missa inculturada", vemos que são todas celebrações artificiais que não correspondem à cultura nenhuma e, mais importante, não levam os fieis à procura de Cristo. Existe alguém que vá numa missa afro e que se vista daquela maneira ao sair dali? O resultado prático disso tudo é a criação de uma igreja com liturgia teatralizada, que mais serve como distração do que como esforço evangelizador. Essa igreja chega ao absurdo de, nessas celebrações, promover o sincretismo e igualar a fé cristã a outras religiões, apenas para promover um espetáculo agradável aos olhos. Essa igreja não está disposta a construir um caminho do paganismo de volta para a Verdade, mas liga a fé cristã às diversas culturas para levá-los de volta ao seu paganismo. Essa não é a igreja que se faz "tudo para todos, a fim de salvar a todos", esta não é a Igreja dos Mártires.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O chão no Rito Romano

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A antífona da festa de Santo Agostinho traz o seguinte texto, retirado de sua obra Confissões:

"De vós mesmo nos provém essa atração, que louvar-vos, ó Senhor, nos dê prazer, pois Senhor vós nos fizestes para vós e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em vós, Senhor"

Essa antífona reflete a intelectualidade do mundo em que Santo Agostinho vivia. Segundo o pensamento da época os elementos (terra, água, ar, fogo) se organizavam em camadas segundo suas densidades. O mais denso ocupava a camada inferior e o menos denso a superior. A pedra atirada para cima desce pois seu lugar próprio é junto ao elemento terra e não junto ao elemento ar. No texto acima vemos uma necessidade da subida, pois o santo interpreta a alma humana como um elemento que pertencente a Deus, que dele saiu e a ele deva voltar e enquanto não o faz permanece inquieta. Mas, vejamos a história pelo outro lado. Ao expulsar Adão do Éden, Deus lança sobre ele uma terrível maldição: 


"[Tu] és pó, e pó te hás de tornar" Gn 3,19 

 Essa pequena sentença, inicia-se lembrando da natureza terrena no homem e conclui retirando da natureza humana o dom preternatural da imortalidade. Ora, usando da mesma analogia de Santo Agostinho, o homem enquanto pó tende a voltar à camada mais baixa da criação por que dela foi tirado e a ela pertence. Neste ponto, faz-se presente a natureza simbólica da liturgia. O chão não é outro lugar se não a camada à qual nosso corpo mortal pertence. Assim, o piso da igreja é também símbolo litúrgico e está associado pela tradição católica à morte.

Vemos que antes da reforma litúrgica, os corpos dos defuntos eram todos mantidos sobre os catafalcos, permanecendo inclusive este objeto na liturgia mesmo na ausência do falecido. Após a reforma houve uma recuperação de um símbolo até então esquecido: o chão. Mantendo-se o falecido suspenso para o velório por uma questão de praticidade, mas depositando o caixão no chão para as exéquias.


Fazendo as vezes do Cristo Cabeça, o sacerdote quando celebra a liturgia da Sexta-feira Santa inicia os ritos com a prostração em memória da morte do nosso Divino Mestre. 


Mas essa relação com a morte não é simplesmente em relação à morte física, mas também no que diz respeito à morte espiritual. Todos aqueles que são chamados a professar os votos perpétuos, as virgens em sua consagração, todos os clérigos em sua ordenação, bem como abade e abadessa quando da respectiva bênção se prostram durante a ladainha em sinal de sua morte espiritual, do abandono das próprias vontades para melhor servir ao ministério ou ao estado de vida que abraçam.


Tendo em vista tais ritos e o respectivo significado que se confere ao "estar no chão" vemos com estranheza alguns costumes que se tem inserido na liturgia nos últimos tempos. O primeiro deles é de se dizer que os castiçais e a cruz não devem estar sobre o altar, mas sobre o chão próximo ao altar. O Missal Romano propõem ambas as possibilidades, sendo as duas lícitas portanto. Todavia, os castiçais e as velas se não foram muito grandes em relação ao altar de tal forma que fique pouco proporcional, devem ser colocado sobre o altar que é um local muito mais digno que o chão.

O segundo são os "arranjos" que se criam para serem postos no chão. E aí se coloca de tudo, sem nenhum pudor: o círio pascal, que deveria estar em esplendoroso castiçal; as sagradas escrituras, que deveriam estar no ambão ou outro local tão digno quanto; água benta, que deveria estar nas pias de água benta; imagens de Nossa Senhora e dos santos, que deveriam estar nos respectivos nichos e retábulos; e flores que podem ocupar muitos lugares na igreja, mas não devem ficar jogadas ao solo.


Saibamos valorizar também o chão como parte do espaço sagrado, evitando que nele se disponham objetos sagrados cujo lugar não é ali e também objetos profanos que não devem ter lugar dentro do espaço sagrado que é a igreja.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

CORPVS CHRISTI: Novo livro de Dom Athanasius em Português

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Publicado inicialmente em italiano pela Livraria do Vaticano, já se encontra em português o novo livro de Dom Athanasius Schneider.

O autor é bispo auxiliar de Santa Maria Santíssima, em Astana (Casaquistão), e um dos bispos que apoiam nosso apostoladoDom Athanaius escreveu ainda: "DOMINUS Est: Reflexões de um bispo da ásia sobre a Sagrada Comunhão", publicado inicialmente pela Editora do Vaticano e traduzido para diversos idiomas. Publico uma tradução do texto que se encontra na contra-capa do livro:
"A Encarnação de Deus atinge o seu verdadeiro ápice de auto-humilhação e auto esvaziamento no Mistério da Eucaristia. Neste sacramento o mistério do “Deus conosco” se revela de modo insuperável, com todas as consequências do incomensurável amor de Deus.
Cristo não é somente o “Deus conosco”, Ele é o Deus que na pequena Hóstia Consagrada se entrega de modo incondicional nas mãos dos homens, renunciado a sua própria defesa. Jesus Eucarístico na Hóstia Consagrada é verdadeiramente o mais pobre e o mais indefeso na Igreja, e isto acontece em primeiro lugar durante a distribuição da Comunhão.Durante a distribuição da Comunhão se constata nos nossos dias o fenômeno de uma surpreendente falta de sensibilidade e de cuidado diante de todas as exigências concretas da presença real e substancial do Deus Encarnado na pequena Hóstia Consagrada. Os necessários atos exteriores de adoração, de sacralidade e respeito no trato com a Hóstia Consagrada são geralmente reduzidos ao mínimo. O modo exterior de tratar a Hóstia com gestos de adoração conduzem a uma fé na Encarnação e na Transubstanciação eucarística.
Eucaristia é o verdadeiro coração da vida da Igreja. Se o culto concreto ao Deus Eucaristia se torna objetivamente reduzido, o coração da vida da Igreja estará ferido. Para curar o coração da vida da Igreja nos nossos dias é necessário recuperar o modo de tratar Jesus Eucarístico na Hóstia Consagrada – ainda no seu menor fragmento, que não é nada menos que Nosso Senhor mesmo."
Dom Athanasius foi durante muitos anos professor de Patrística no Institutum Sapientiae, aqui no Brasil.
O livro pode ser adquirido clicando AQUI.

Forma Extraordinária ganha lançamento no Brasil: Ordinário bilíngue para fiéis

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A Editora Ecclesiae surpreende-nos mais uma vez. Com um crescente catálogo de publicações de altíssimo nível, a Ecclesiae lança ao público em geral seu missalete para o rito romano tradicional.

Trata-se de um  Ordinário para a Missa segundo a Forma Extraordinária do Rito Romano, conforme o Missale Romanum de 1962, com belas ilustrações, como pode-se verificar nas imagens abaixo, que recebi da editora.

Ainda é pouco, sabemo-lo. Esperamos, contudo, que outras editoras católicas tomem iniciativas semelhantes, para que os livros litúrgicos do rito antigo tornem-se mais acessíveis e, assim, o rito seja mais conhecido e celebrado.

O Ordo pode ser adquirido neste link.

ATUALIZAÇÃO: Conforme indicado por alguns leitores e diferentemente do que havíamos escrito previamente, a Ecclesiae não é a primeira editora a publicar seu missalete. A Editora Martyria já havia lançado anteriormente um Ordinário semelhante, que pode ser conferido aqui.

Capa
Índice

Consagração
Liturgia Sacrifical

terça-feira, 8 de julho de 2014

Rei de Tremenda Majestade

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Rex tremendae majestatis
Qui salvandos salvas gratis,
Salva me, fons pietatis!

Ó Rei, de tremenda majestade,
que ao salvar, salva gratuitamente
salva a mim, ó fonte de piedade!

Com essas palavras retiradas do coração da sequencia Dies Irae, iniciamos uma pequena explanação sobre a natureza majestosa de nosso Deus e sua expressão na construção da atmosfera litúrgica. Deus Pai é "criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis", assim é soberano em toda a criação, sendo cabível a Ele todo louvor, honra e glória. O Cristo, como definido pelo concílio de Nicéia é "homoousios to Patri", isto é, consubstancial ao Pai. A consequência direta dessa definição dogmática é que Cristo participa de toda a gloria. Afim de assinalar essa dignidade real de Cristo, o mesmo concílio quis que o credo fosse marcado pela expressão "cujus regni non erit finis - cujo reino não terá fim" ao se referir à gloria do Unigênito.

O papa Pio XI, ao instituir a festa de Cristo Rei nos lembra que Cristo reina na criação pela "eminente e suprema perfeição com que sobrepuja a todas as criaturas". Em relação a essa perfeição elenca três aspectos. O primeiro é o seu reinado nas inteligências humanas, "por causa da penetração do seu espírito e da extensão de sua ciência, mas sobretudo porque é a própria Verdade em pessoa". O segundo é seu reinado sobre as vontades humanas "n'Ele se alia a indefectível santidade do divino querer com a mais reta, a mais submissa das vontades humanas; e também porque suas inspirações entusiasmam nossa vontade livre pelas causas mais nobres." O terceiro é seu reinado nos corações  "por causa daquela inefável 'caridade que excede a toda humana compreensão' (Ef 3, 19); e porque sua doçura e sua bondade atraem os corações: pois nunca houve, no gênero humano, e nunca haverá quem tanto amor tenha ateado como Cristo Jesus."

 Cristo Rei nas Escrituras

O reinado de Nosso Senhor sobre todas as criaturas se expressa em suas duas naturezas. Em sua natureza divina, não pode deixar de ser igual ao Pai e ter, com Ele e o Espírito Santo, "a suprema e absoluta soberania e domínio de todas as criaturas". Em sua natureza humana "do Pai recebeu 'poder honra e realeza' (Dan 7,13-14)". Nesse sentido, o título de "Rei" aplicado a Nosso Senhor, tem seu sentido cosmológico de ser, enquanto Verbo Divino, o soberano de todas as coisas criadas, mas possui também uma raiz histórica documentada no antigo testamento, de como o messias receberia de Deus Pai a sua realeza.

Essa dignidade é prefigurada em Adão, a quem foi dado, pelo criador, o direito de reinar pela obra criada. Ao fim dos sete dias, Deus Pai estabelece o primeiro reinado. Adão é soberano de toda a criação, a ele cabe nomear e governar toda a obra divina. No decorrer da história da salvação, tendo Deus se aproximado de seu povo, lhe oferece uma aliança, escolhendo ele próprio seu primaz, o Rei Davi, e lhe jurando não apenas o reinado, mas garantindo-o ainda perpetuamente à sua descendência:
"Fui eu mesmo que escolhi este meu Rei, e em Sião, meu monte santo, o consagrei!" Sl 2,6
"O Senhor fez a Davi um juramento, de que não há de se retratar: Colocarei em teu trono um descendente de tua raça." Sl 131,11

 O Rei Davi

 Assim o Rei Davi se torna imagem daquele que já existia antes de todos os séculos "Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro", que já estava destinado a ocupar o primeiro lugar no povo de Israel, não apenas em seu próprio tempo como Davi, mas de todos os tempos:
"Porque nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado: sobre o seu ombro está o manto real, e ele se chama "Conselheiro Maravilhoso", "Deus Forte", "Pai para sempre", "Príncipe da Paz". Grande será o seu domínio, e a paz não terá fim sobre o trono de Davi e seu reino, firmado e reforçado com o direito e a justiça, desde agora e para sempre. O zelo de Javé dos exércitos é quem realizará isso." Is 9,5-6
Essa doutrina de Cristo Rei preconizada nesses e em tantos outros textos do antigo testamento confirma de modo admirável no Novo Testamento. São Lucas narra o anúncio do Arcanjo São Gabriel:
"Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim." Lc 18,32-33

 São Mateus, descreve a genealogia terrena do Verbo no início do seu evangelho assinala o cumprimento dessa promessa, enumerando todas as gerações entre Adão e Jessé, entre Davi e Jesus:
"Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi. (...) Abraão gerou Isaac. (...) Jessé gerou o rei Davi. (...) Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo." Mt 1,1-6

Tendo nascido, o Cristo Recebe três homenagens dos Reis Magos. O incenso e a mirra se referem às naturezas de Jesus, Deus e homem; o ouro todavia se refere a algo que não é propriamente uma natureza sua, mas uma característica intrínseca à sua natureza divina, a realeza, como posteriormente foi definido pelo Concílio de Nicéia, acrescentando ao credo a perpetuidade de seu reinado.


Durante toda a sua vida, Nosso Senhor "Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens." Fl 2,6-7 De modo a viver uma vida ordinária. Mesmo durante sua vida pública, não revelou sua majestade, se não em momentos pontuais e de grande significado. O primeiro deles, foi seu diálogo com os doutores da lei, onde apresentou a sabedoria de Deus àqueles homens. O Cristo se mostrou rei das inteligências humanas.


Finda sua vida oculta, inicia seu ministério público com o batismo de João no rio Jordão. Naquela ocasião, a glória de Deus Pai se manifesta no Deus Filho pela ação do Espírito Santo. A voz estrondosa que desce das nuvens apresenta o Cristo "por quem todas as coisas foram feitas e que por nós homens desceu dos céus". Nosso Senhor passa então a anunciar o Reino de Deus entre os homens, fazendo com que os pecadores convertessem a sua conduta e se voltassem para Deus, apresentando-se como o Rei das vontades humanas. E reina sobre todas elas, a começar pela sua própria que não queria morrer na cruz na Cidade Santa.

Igualmente sua glória se manifesta no monte Tabor, durante a sua transfiguração. Quando fortalece a fé dos discípulos por tão grande sinal e também dialoga sobre os acontecimentos que decorrerão em Jerusalém com Moisés e Elias. 

Tendo encerrado os três anos de sua vida pública, dirige-se para a cidade Santa de Jerusalém, ali é aclamado como Rei. É notável que se tratava de uma aclamação de Rei de Israel apenas e não Rei do Universo. Todavia, em toda a sua mansidão, Jesus não irrompe dizendo que não é rei, ao contrário, se deixa levar para dentro da cidade. Mais adiante, quando preso e posto diante de Pilatos, Ele revela a verdadeira natureza de seu reinado:

"Respondeu Jesus: O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus súditos certamente teriam pelejado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu Reino não é deste mundo."Jo 18,36

 Por fim, Pilatos ainda instiga uma última confissão de sua declaração e Nosso Senhor diz com toda a clareza para Pilatos, para Israel e para todo o universo:

 "Perguntou-lhe então Pilatos: És, portanto, rei? Respondeu Jesus: Sim, eu sou rei." Jo 18,37

Tal declaração conduz à imolação do senhor que "sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz." Fl 2, 8. E assim, por amor o Rei Jesus faz de seu trono a cruz; recebe por coroa, espinhos; uma cana por cetro. Com um manto vermelho zombam de sua dignidade. Do alto de sua dor e humilhação, mostra-se ainda rei do amor por toda a humanidade sem exclusão, perdoando até mesmo os que lhe crucificaram.


Tendo sofrido a paixão e por conta dela "Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor." Fl 2,9-11 Nosso Senhor ressuscita dentre os mortos, reinando sobre absolutamente tudo. Nada está fora de seu império: a terra, o inferno e o paraíso tudo lhe pertence. Nesse sentido, as palavras do livro do apocalipse encerram o tema, colocando sob os pés do Cristo todo o poder, inclusive sobre o tempo.
"Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Começo e o Fim" Ap 22,13

Cristo Rei na Liturgia
A Igreja desde sua fundação apostólica deu ao mundo real e verdadeiro testemunho de nosso Divino Mestre. Em sua fé prega o Cristo Rei do Universo e em sua liturgia apresenta a seus fiéis a sua majestade. Como diz a tradição eclesiástica "Lex orandi, Lex credendi", isto é, os fiéis reza de acordo com aquilo que creem. Assim, a realeza de Cristo se expressa em muitos elementos litúrgicos.

O primeiro deles é, sem dúvida, a arquitetura da igreja. Que deve apresentar o lugar de Cristo como "ponto monárquico" para onde as atenções naturalmente se dirigem. Esse lugar seja marcado pelo altar e pela cruz que se deve por junto dele. Também o sacrário, se não se encontra em capela própria, deve estar nesse ponto. Olhando a liturgia do ponto de vista de Cristo Rei, não faz sentido a cruz ser posta de lado ou o sacrário ocupar uma posição secundária. Um ocupa o lugar central em seu palácio.

E justamente por ser a habitação real é importante que seja construido com toda a riqueza artística de que se dispõe. Essa beleza não se resume ao seu interior, mas também ao exterior. A igreja deve ser facilmente reconhecida como tal para dar testemunho de Cristo para todos aqueles que a veem. Desse anúncio público não podem faltar os sinos que rompem o silêncio a cada hora lembrando a todos que Nosso Senhor reina também sobre o tempo.



Na sequencia, lembramos a atmosfera sacra e respeitosa que se deve manter no espaço sagrado, mesmo fora da liturgia. Ninguém se aproxima do trono ser ter sido chamado (e nós o somos!), assim nos aproximamos do trono real com todo o respeito e decoro. Os sinais de reverência devem ser aprendidos por todos quanto assistem a celebração e, de forma mais profunda, por aqueles que servem o altar, estes servirão de exemplo para todos os demais.

Os fiéis são imagem de Cristo sacerdote, profeta e rei por conta de seu sacerdote comum e o sacerdote participa dessa mesma vocação tripla em seu sacerdócio ministerial. Ademais, por ser chamado ao sacerdócio, existe no padre o ideal que seu lugar na comunidade é monárquico, o padre é escolhido por Deus para ser posto à frente de sua comunidade, trata-se certamente não de uma autoridade escolhida, mas eleita por Deus. Na celebração o sacerdote ocupa a primazia dentre os fieis, cabe a ele assim guiar o rebanho na direção de Deus. 

Mais do que o presbítero, no sacerdócio do Bispo a realeza de Cristo se mostra. O Bispo ocupa a cátedra, é chamado a tomar o primeiro lugar dentro do presbitério de sua catedral, porta ainda os símbolos da autoridade a ele outorgada: as insígnias episcopais. Além de tudo isso, os ofícios litúrgicos todos eles pertencem ao Bispo e são por ele delegados ao clero. O diácono ao ler o evangelho pede a bênção ao Bispo antes de fazê-lo, no rito antigo o subdiácono depois de ler a epístola levava o livro ao Bispo. Na missa celebrada in coram episcopo, o sacerdote reverencia o Bispo antes de se dirigir para o altar, bem como qualquer clérigo antes de fazer a homilia em Missa celebrada pelo Bispo. É também o Bispo que governa a diocese e cada uma das paróquias, e todas as Missas que ali celebra se faz em nome dele. Assim, é necessário que o Bispo se revista de paramentos providos de uma nobre simplicidade e se porte de forma respeitosa, a fim de honrar a autoridade de Cristo Rei que reside nele.


Cabe lembrar que na Encíclica Quas Primas, o Papa Pio XI combateu ferozmente o laicismo. Em termos gerais o laicismo é a ideia de que a sociedade deve ser laica e Cristo não deve ser honrado fora dos espaços sagrados, seu Nome não deve ser dito fora das reuniões religiosas e sua imagem não deve fazer parte do ambiente civil. Nesse sentido este pontífice instituiu com essa carta a festa de Cristo Rei. Tal festa é um meio pelo qual Cristo reina na sociedade. A festa era celebrada no último domingo de Outubro, de modo a preceder a festa de Todos os Santos, em uma especial ligação da gloria de Cristo com a dos Santos. Na forma ordinária, tal festa foi transferida para o fim do ano litúrgico, com a ideia d que sua celebração relembrava o seu poder sobre o tempo "Alfa e Ômega" como diz o livro do Apocalipse.

Além da festa de Cristo Rei, uma outra parte da liturgia que se mostra útil ao anunciar seu reinado social são as procissões. A maior parte da liturgia católica acontece, como seria de se esperar, dentro do lugar sagrado e é vista apenas por aqueles que dedicaram seu tempo a essa celebração. As procissões por outro lado, mostram Cristo como Rei de todos, publicamente. Nesse sentido, vão ao encontro do que diz Pio XI, ou seja, da necessidade de que Cristo reina sobre as sociedades e não apenas sobre os indivíduos.

Entre as diversas procissões, a procissão de Corpus Christi chama a atenção de forma particular por ser aquela que conta com a presença mais perfeita de Jesus: a eucaristia. Nela aparecem muitos elementos do majestade de Nosso Senhor e que são levados para o exterior do templo. O véu umeral, o pálio, os sinos que se levam e também os da Igreja, as tochas, o incenso, o ostensório, a guarda de honra do Santíssimo Sacramento e diversos elementos que a cultura popular acrescenta, tudo isso mostra o império de Cristo sobre o mundo.

Saída da Procissão de Corpus Christi em São João Del-Rei, 
enviado pelo leitor Luiz Marcarenhas


Em resumo, como dito por ele mesmo, Nosso Senhor é rei e em sua liturgia deve transparecer sua realeza, a beleza litúrgica deve corresponder à dignidade, embora também à sua humildade de Jesus. Em duas palavras, deve haver na liturgia sempre uma "nobre simplicidade". O oposto disso é o pobrismo que nega qualquer sinal de beleza, suprime as diversas expressões artísticas em busca de um "cristo despojado" que não se suporta chamar de rei, odeia a nobreza dos vasos sagrados para a eucaristia, despreza os crucifixos e as casulas. Esse homem  pregado em tantos lugares não é o Messias do Antigo Testamento, o Cristo do Novo Testamento, o Senhor da Igreja Católica, o Rei do Universo!



sexta-feira, 27 de junho de 2014

Para os coroinhas

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É muito comum que se refiram à batina usada sob a sobrepeliz por coroinhas como "túnica" preta ou vermelha. Chegando a dizer que a batina é algo clerical e por isso mesmo inapropriado aos coroinhas. Isso é um equívoco. Em primeiro lugar por que aqueles que servem à liturgia, embora não sejam clérigos, se equiparam a eles; usam vestes clericais como a batina e a sobrepeliz e têm lugar no presbitério. 

Não é incomum ou mesmo errado que por vezes essa batina seja um modelo simplificado, sem todos os detalhes daquelas usadas pelos clérigos. Isso não quer dizer que parte da batina seja proibida aos leigos, como a faixa ou o colarinho. A batina é clerical em toda a sua extensão; e justamente por ser clerical que só permite seu uso aos leigos durante as celebrações e nunca fora delas. A proibição de partes da batina aos coroinhas é ilógica e não encontra eco na tradição.

Sobre o colarinho romano em particular, é comum associar a ele toda a clericalidade das vestes sacerdotais. Algo que se pode entender, afinal de contas as camisas 'clergyman' são mais comuns que as batinas no nosso país, mas nada que tenha uma lógica histórica. Afinal de contas, as batinas já existiam muito antes do colarinho e, mesmo na atualidade, o formato das golas das batinas são bastante variáveis.

São Felipe Neri, com a batina sem o modelo romano do colarinho

Chega-se ao ponto de chamar de colarinho romano apenas aqueles usados pelo padre. O "branco" do pescoço dos coroinhas, é "amito". Outro equívoco. O amito é um paramento, usado SOBRE a batina e nunca sob ela. Faz-se uso do amito com a alva e, na forma extraordinária, por vezes também com a sobrepeliz. 

A parte irônica nesse pavor de clericalizar os coroinhas é que o tiro sai pela culatra. O amito é muito mais clerical que o colarinho romano uma vez que o colarinho é de uso comum aos coroinhas, enquanto que o amito, na forma extraordinária, é algo de uso exclusivo das ordens maiores, havendo inclusive o rito de entrega do amito pelo Bispo aos subdiáconos.

Clérigo vestindo o amito sobre a batina, antes dos demais paramentos.

Os responsáveis pelo ministério de coroinhas não devem ter medo de clericalizá-los por essas vestes. Séculos de tradição litúrgica e pastoral da Igreja deixam claro que não existe nada errado com elas!
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