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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A urgente reforma da tradução do Missal

Infelizmente, a tradução do Missale Romanun de 1970, do latim para o português, foi muito mal feita. Os erros cometidos na versão portuguesa se repetiram em outras línguas, entretanto, mui provavelmente, a nossa realidade supera qualquer outra. Os problemas vão desde a omissão de trechos importantes e a deformação de sentidos até a troca de palavras, tudo para favorecer um inapropriado espírito litúrgico. Para entender como foi feita a tradução nada melhor do que ler o relato do seu mentor; D. Clemente Isnard, OSB.

Em latim:

- Dominus Vobiscum
- Et cum spiritu tuo

Em português:

- O Senhor esteja convosco
- Ele está no meio de nós

Quando o correto seria:

- O Senhor esteja convosco
- E com o teu espírito

Na tradução do Missal para a língua inglesa o mesmo erro se repetiu. Entretanto, a Conferência dos Bispos dos EUA, acatando o pedido da Santa Sé por edições reformadas e revistas, lançou uma nova versão com uma acentuada melhora.

- The Lord be with you.
- And also with you.

Foi corrigido para:

- The Lord be with you.
- And with your spirit.

Vejam este link, contém a reforma feita na tradução do Missal em inglês. As diferenças são enormes e gritantes. Com a correção, o sentido Sacrificial da Liturgia foi exaltado e passou a ser melhor expressado.

A nossa Oração Eucarística V – feita por um misterioso Sacerdote maranhense – nasceu durante o processo da tradução. Esta consegue ir desde erros de linguagem culta – “A todos que chamastes pra outra vida” “sempre bem felizes no reino que pra todos preparastes” – até imprecisões teológicas profundas:

Toda vez que comemos deste pão, toda vez que bebemos deste vinho, anunciamos a morte de Jesus, proclamamos a sua ressurreição e aguardamos a volta do Senhor que vem satisfazer nosso ardente desejo de amor que tem sede e fome da presença do Senhor.”

E a Transubstanciação? Desde quando há pão e vinho no Altar depois da Consagração?

Nem mesmo o tradicional Cânon Romano passou ileso. Na versão original, em latim, depois da resposta ao “Mistério da Fé”, o Sacerdote reza:

“V. Unde et mémores, Dómine, nos servi tui, sed et plebs tua sancta, eiúsdem Christi, Fílii tui, Dómini nostri, tam beátæ passiónis, necnon et ab ínferis resurrectiónis, sed et in cælos gloriósæ ascensiónis: offérimus præcláræ maiestáti tuæ de tuis donis ac datis hóstiam puram, hóstiam sanctam, hóstiam immaculátam, Panem sanctum vitæ ætérnæ et Cálicem salútis perpétuæ.”

Não precisa ser um grande conhecedor de latim para perceber que, comparando com a tradução oficial, há perda de relevantes trechos:

“V. Celebrando, pois, a memória da paixão do vosso Filho, da sua ressurreição dentre os mortos, e gloriosa ascensão aos céus, nós, vossos servos, e também vosso povo santo, vos oferecemos ó Pai, dentre os bens que nos destes, o sacrifício perfeito e santo, pão da vida eterna e cálice da salvação.”

A parte da “Hóstia Santa! Hóstia Pura! Hóstia Imaculada etc” foi simplesmente cortada!

Depois do ofetório o Presbítero clama:

“Orai, Irmãos e Irmãs, para que nosso sacrífio seja aceito por Deus Pai todo poderoso.”

Entretanto, a versão original, em latim, frisa com mais perfeição o sentido do Sacrifício celebrado pelo Sacerdote:

“Oráte, fratres: ut meum ac vestrum [meu e vosso] sacrifícium acceptábile fiat apud Deum Patrem omnipoténtem.”

Antes da Consagração do Vinho, o Sacerdote reza:

“V. Símili modo, postquam cenátum est, accípiens et hunc præclárum cálicem in sanctas ac venerábiles manus suas, item tibi grátias agens benedíxit, dedítque discípulis suis, dicens:”

Que foi traduzido como:

“V. Do mesmo modo, ao fim da ceia, tomou o cálice em suas mãos, deu graças novamente, e o deu a seus discípulos dizendo:”

Foi retirada a “Sanctas et venerabiles manibus suas”

Ademais, como é de conhecimento de muitos – ou seria de todos? -, houve uma modificação nas palavras da Consagração do vinho. Obviamente, não chega a invalidar a Missa, longe disso, mas exprime de forma imperfeita uma verdade.

“ACCIPITE ET BIBITE EX EO OMNES: HIC EST ENIM CALIX SANGUINIS MEI NOVI ET ÆTERNI TESTAMENTI, QUI PRO VOBIS ET PRO MULTIS [POR MUITOS] EFFUNDETUR IN RE M I S S I O N E M PECCATORUM. HOC FACITE IN MEAMCOMMEMORATIONEM.”

“TOMAI TODOS E BEBEI: ESTE É O CÁLICE DO MEU SANGUE, O SANGUE DA NOVA E ETERNA ALIANÇA, QUE SERÁ DERRAMADO POR VÓS, E POR TODOS, PARA A REMISSÃO DOS PECADOS. FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM.”

Os problemas vão além desses aqui listados, mas espero ter ajudado a entender a crucial importância da revisão da tradução do Missal. Graças a Deus a Santa Se está atenta, cobrará as novas edições, quer as Conferências as façam ou não. Rezemos, e muito, na intenção dos trabalhos dos liturgistas!

Nesse vídeo, de uma Missa na forma ordinária, em latim e versus Deum, celebrada em São Paulo, por Pe. Renato Leite, podemos ouvir o Cânon Romano:

Um comentário:

  1. A tradução da terceira edição típica do Missal Romano está em andamento, sendo realizada pela CNBB. É o que informou nosso Bispo Diocesano em visita ao nosso seminário na semana passada. Chegava ele da Visita Ad Limina Apostolorum, relatando que a tradução estava em andamento e que era algo complexo, pois para cada parte, cada oração eucarística, etc, todos os Bispos votam e fazem comentários sobre a tradução.

    Perguntei a ele se havia previsão de quando a tradução seria concluída e enviada a Roma para avaliação, e ele disse não saber como está o andamento da tradução.

    Disse também que durante a visita ad Limina, os bispos visitaram alguns dicastérios, entre eles o do Culto Divino. Lá fizeram algumas perguntas; uma delas foi sobre a tradução da Consagração do vinho, o famoso "pro multis". Eles perguntaram se não havia como permanecer com a tradução anterior alegando que o povo estranharia. Entao o dicastério respondeu que não, isso nao deve ser motivo para nao traduzir e que a solução seria elaborar uma catequese junto ao povo antes da nova tradução entrar em vigor.

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