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sábado, 14 de agosto de 2010

Beato Cardeal Schuster: A Santa Liturgia, suas divisões e suas fontes, parte III

Estamos publicando, em quatro partes, o primeiro capítulo do primeiro tomo do Liber Sacramentorum do Beato Ildefonso [Alfredo Ludovico] Cardeal Schuster, OSB

A segunda parte deste texto se encontra neste link. Hoje publicamos a terceira. A quarta e última parte será publicada no próximo Sábado. Até lá, não deixe acompanhar nossas novidades diárias.

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Sacramentário gregoriano. Este é o nome atribuído pelo papa Adriano I (772-795) a uma coleção de Missas estacionais, da qual uma parte é, sem dúvida, anterior ao pontificado de São Gregório Magno, mas que compreende também numerosos elementos posteriores a ele. O compilador adotou, certamente, como base de seu trabalho, um sacramentário cujo nome era o do santo Pontífice, mas como ignoramos o critério de suas modificações, talvez fosse mais exato dar à coleção o nome do papa Adriano I. Este sacramentário contém apenas as Missas estacionais às quais o papa tomava parte do ordinário, e omite todas as outras festas e solenidades nas quais não se celebrava o tempo litúrgico.

Sacramentário gelasiano. Este nome foi atribuído na França a uma coleção litúrgica romana, importada pelos gauleses entre 628 e 731, bem depois de São Gregório Magno, mas bem antes do pontificado de Adriano I. O original romano sofreu na França grandes modificações, e por esta razão que esta coleção exige uma crítica e uma seleção bem cuidada, a fim de que seus documentos possam testemunhar os usos litúrgicos de Roma anteriores a Carlos Magno. A introdução do sacramentário gregoriano na França ameaçou, por um instante, obscurecer o renome da coleção gelasiana, mais tendo-se mostrado o livro de São Gregório insuficiente para o uso cotidiano das igrejas, ele foi aumentado e enriquecido com elementos emprestados àquele atribuído ao papa Gelásio, o qual, graças a esta fusão, deixou numerosos traços mesmo na atual liturgia romano-franca.

Missale Francorum. É representado por um único manuscrito uncial fragmentário do século VII, conservado antigamente na abadia de Saint-Denis, e atualmente na Biblioteca Vaticana. As onze Missas que compreende são todas de estilo romano, mas a coleção não está isenta de interpolações galicanas, especialmente nas rubricas.

Sacramentário leonino. É o mais antigo e copioso dos sacramentários, mas infelizmente a estranha desordem e a própria natureza dos materiais litúrgicos empregados pelo compilador impedem que esta coleção tenha algum dia um caráter verdadeiramente oficial. Encontram-se nele, por exemplo, violentas declamações contra os falsos devotos que, sub specie gratiae, enganam os simples, e se insiste sobre a necessidade de se precaver contra sua malícia. Algumas Missas parecem inspirar-se na angústia e na dor dos Romanos durante o cerco dos ostrogodos (537-539); uma coleta fúnebre se reporta à sepultura do papa Simplício (morto em 483); mas, em todo caso, esta recolha é anterior a São Gregório e parece a única fonte romana ao abrigo de interpolações estrangeiras. Talvez a feliz conservação do texto se deva ao caráter privado da coleção, que não saiu dos estreitos limites da basílica e do título ao qual era destinada. Os materiais empregados pelo redator apresentam todas as características de autenticidade, mas não se pode excluir a hipótese de que a coleção nunca tenha tido caráter oficial nem de uso prático, não tendo nunca sido usada. De acordo com alguns, a inteção do compilador teria sido apenas bibliográfica.

Rolo de Ravena. Assim é chamado um rolo opistográfico em grandes caracteres unciais que pertencia, muito provavelmente, aos arquivos metropolitanos de Ravena. Compreende ao todo quarenta orações de tipo romano, em preparação para a Solenidade do Natal, mas é bem difícil determinar sua data, podendo remontar ao tempo de São Pedro Crisólogo.

Ordines Romani. Esta é uma importantíssima compilação de cerimoniais de diversas épocas, permitindo-nos seguir passo a passo, do século VIII ao século XV, todo o desenvolvimento progressivo da liturgia papal em Roma. O mais antigo destes Ordines, o primeiro, parece datar do século VIII, mas os elementos contidos nele não são sincrônicos, e nem todos podem reivindicar cidadania romana. Repete-se aqui o caso dos sacramentários, os quais, uma vez fora de Roma, foram modificados e adaptados ao uso de outras cortes episcopais, sem possuir, entretanto, nenhuma correlação com o desenvolvimento litúrgico que, por sua vez, seguia seu curso na Cidade Eterna. A este respeito, um caso singular ocorre com Amalhar: atribuía ao Ordo Romanus autoridade que entendia indiscutível. Ora, quando foi a Roma em 832, constatou, quase escandalizado, que o clero romano tinha perdido completamente a noção de tal Ordo.

Os documentos mais importantes da liturgia galicana são o Missale Gothicum da igreja de Autun, de fins do século VII; o Missale Gallicanum vetus, da mesma época; as onze missas descobertas por Mone num palimpsesto que pertencera a João II, Bispo de Constança (760-781); o lecionário de Luxeuil (século VII), as homilias de São Germano de Paris e o Missal de Bobbio (século VII).

A liturgia hispânica ou moçárabe deixou materiais documentais mais numerosos, mas ainda parcialmente inéditos. Dom Morin publicou em 1893 o Liber Comicus ou Comes, contendo as leituras da Missa com rubricas muito importantes; Dom Férotin publicou o Liber Ordinum, espécie de eucológio ou ritual, mas ainda falta realizar um estudo cuidadoso sobre o sacramentário e sobre o antifonário, pois o rito moçárabe, exumado por Ximénès no século XV para uso de uma capela na Catedral de Toledo, sofreu importantes interpolações de numerosos empréstimos feitos à liturgia romana; é por isso que o missal e o breviário moçárabes reproduzidos por Migne em sua Patrologia (t. LXXXV) não se prestam a finalidades verdadeiramente científicas.

A liturgia de Milão também possui suas fontes documentais próprias. Entre as mais importantes estão o Sacramentário de Biasca, do século X, e o de Bérgamo, do século XI. Os monges de Solesmes ajuntaram à publicação de um antifonário ambrosiano um estudo bem detalhado e profundo de Dom Cagin, e Magistretti publicou o Beroldus do século XII, demonstrando a grande importância histórica e litúrgica destas coleções de tradições cerimoniais; lembrando os Ordines Romani. Finalmente, Ceriano publicou o texto antigo do missal ambrosiano, e, depois de sua morte, Magistretti e Ratti, completando a obra do ilustre mestre, editaram o aparelho crítico deste insigne monumento da igreja milanesa.
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