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segunda-feira, 22 de março de 2010

Música litúrgica - a Aclamação antes do Evangelho

Artigos anteriores da série:

Introito
Salmo Responsorial
Gradual
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Na Liturgia da Santa Missa em Rito Romano existem pelo menos três palavras hebraicas. Duas delas são usadas em absolutamente todas as Missas: Amém e Hosana. Em latim ou vernáculo (língua do país), estas palavras estão sempre presentes, ainda que com alguma pequena adaptação requerida pelo idioma da Liturgia. Amém, em diversas orações. Hosana, no Sanctus (Hosana nas alturas; Hosanna in excelsis).

A terceira palavra, presente não em todas as Missas, mas na maioria delas, é Aleluia. Aparece escrita em hebraico no início deste texto. Naquele idioma se diz Haleluya, com H aspirado (como o do inglês na palavra hot). O uso da letra Y para escrevê-la em letras latinas serve para lembrar que, a rigor, este som é considerado uma consoante.

Mas não é meu intento entediar o leitor com considerações lingüísticas ou fonéticas (e não seria nem mesmo se eu entendesse destes assuntos). Apenas me permita recordar seu significado: a partir do verbo lehalel (louvar, glorificar) obtemos o imperativo halelu, que significa “louvai”. Este verbo, acrescido das duas primeiras letras do nome de Deus, torna-se haleluya, literalmente “louvai o Senhor”.

Abundante em numerosos salmos, o Aleluia está presente na Santa Missa na Aclamação antes do Evangelho. Trata-se de uma cerimônia em si mesma, por seu próprio direito. Não pode ser tratada como um simples anúncio de que o Evangelho vai ser lido, no estilo das vinhetas radiofônicas ou televisivas. Algumas músicas totalmente inadequadas, usadas neste momento, e de uso disseminado pelo Brasil, demonstram esse pensamento.

O leitor pode identificar facilmente essas músicas, ou melhor, esses textos. Alguns exemplos:

“A vossa palavra, Senhor, é sinal de interesse por nós”

“Vamos aclamar o Evangelho”

“Aleluia, aleluia, aleluia, Jesus Cristo vai falar”

“Aleluia, aleluia, minha alma abrirei”

Estes são apenas alguns entre numerosos. Repare o leitor que não estou falando da música, mas do texto. O texto para a Aclamação antes do Evangelho (com ou sem Aleluia, pois às vezes ele é omitido, como logo veremos) é preciso, lembremo-nos de que ele é parte do Próprio; e, assim, está previsto no Lecionário (e também no Graduale Romanum).

O texto da Aclamação antes do Evangelho não necessariamente se relaciona, ao menos de modo óbvio, com o Evangelho que a segue. A tradição litúrgica não exige esse tipo de correlação entre todas as leituras da Missa, entre as antífonas, ou entre leituras e antífonas. E, ainda que assim fosse, a iniciativa de introduzir textos novos é incorreta; além disto, prejudica gravemente a Liturgia quando traz expressões que querem “preparar o povo para acolher a palavra de Deus” ou coisa do tipo, dizendo que “Jesus Cristo vai falar”, como num dos exemplos que dei. A meu ver é a vinheta radiofônica por excelência.

Nesta cerimônia a Igreja nos prescreve um ou mais versículos para se cantar ou recitar alternadamente com a palavra Aleluia. De modo geral, os versículos que a Igreja oferece no Graduale Romanum são tirados dos salmos; os que ela nos dá no Lecionário são freqüentemente trechos dos próprios Evangelhos. Num caso ou no outro, veja-se quanto se perde ao se dar preferência a textos inventados.

Estou escrevendo este texto durante a Quaresma de 2010. A Quaresma é precisamente o tempo litúrgico em que o Aleluia é omitido, desaparecendo por completo de todos os lugares em que aparece nos outros tempos, inclusive na Liturgia das Horas. Mesmo o Advento, um tempo de natureza penitencial, conserva o Aleluia. Portanto, tomarei primeiramente exemplos do Tempo Comum.

Abrindo o Graduale Romanum no Quinto Domingo do Tempo Comum, encontramos o Aleluia com o seguinte texto:

Alleluia. Laudate Dominum, omnes gentes: et collaudate eum, omnes populi. Alleluia.

Tal é a estrutura do Aleluia: a palavra Aleluia, o versículo e a repetição do Aleluia. O versículo, no caso, é o primeiro versículo do Salmo 116 (“louvai o Senhor, todas as nações, louvai-o, todos os povos”). Na música, costumeiramente, tem-se aquilo a que chamamos de ABA, uma forma ternária, em que a terceira parte consiste numa repetição da primeira, e a segunda é diferente . Já havia mencionado esta ideia de ABA no texto sobre o Gradual; e, de fato, as composições gregorianas para o Aleluia são semelhantes aos Graduais, diferindo no fato de que a sua parte A utiliza, em seu texto, apenas a palavra Aleluia.

Se olharmos o Lecionário no Quinto Domingo do Tempo Comum, o versículo ao Aleluia é outro, e igualmente lícito:

“Vinde após mim!”, o Senhor lhes falou, “e vos farei pescadores de homens”.

Este versículo tira-se do próprio Evangelho que será lido em seguida (no caso do ano C, Lc 5, 1-11).

Se numa determinada Missa não há música, ou, por algum motivo, não há música para o Aleluia, o leitor se encarrega deste rito recitando: Aleluia, aleluia, aleluia. “Vinde após mim!”, o Senhor lhes falou, “e vos farei pescadores de homens”. Aleluia, aleluia, aleluia – um “triplo aleluia”.

Se este rito é cantado, a música pode utilizar a palavra Aleluia quantas vezes for conveniente para a sua própria estrutura, respeitado, naturalmente, o limite do bom senso. O canto gregoriano utiliza uma única vez, antes do versículo; e mais uma única vez, depois dele. Os Aleluias gregorianos são melismáticos (o leitor se lembra desta palavra usada no texto que escrevi aqui sobre o Gradual), desenhando seus melismas com mais generosidade sobre a vogal a.



O “triplo aleluia” passou a ser utilizado em algumas composições novas escritas para a Aclamação antes do Evangelho. Além disto, como existem várias antífonas do Ofício Divino, no Tempo Pascal, cujo texto é esse mesmo triplo aleluia, elas foram aproveitadas e reunidas no Graduale Simplex como possibilidades para uso na Missa. Um deles é o Aleluia do Sábado Santo.


O Graduale Simplex é um livro de canto gregoriano mais simples, destinado a “igrejas pequenas”, formulado em cumprimento a uma determinação de um dos documentos do Concílio Vaticano II (a constituição Sacrosanctum Concilium).

Se numa igreja a música da Missa segue o Graduale Romanum, algo especial ocorrerá durante o Tempo Pascal. Lembremo-nos de que o Graduale Romanum nos provê um Gradual no lugar do Salmo Responsorial do Lecionário. Durante o Tempo Pascal o Graduale Romanum dispensa o Gradual e coloca em seu lugar um Aleluia; assim, as Missas deste tempo contam com dois Aleluias. Numa Missa dominical temos, então:

1 – Primeira leitura

2 – Aleluia

3 – Segunda Leitura

4 – Aleluia

5 – Evangelho

Os Aleluias são diferentes, cada um com seus próprios versículos. Se seguirmos o Lecionário, depois da Primeira Leitura teremos um Salmo Responsorial, como nos outros tempos.


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Na Quaresma o Aleluia desaparece da Liturgia. No Rito Novo, a partir de 1969-1970, isto ocorre da Quarta-feira de Cinzas em diante. No Rito Tridentino, começa já no tempo litúrgico chamado Septuagesima, aproximadamente setenta dias antes da Páscoa.

Na Santa Missa, o lugar do Aleluia é tomado pelo Trato. No Graduale Romanum são dados versículos de salmos. Vejamos os Tratos dos Domingos da Quaresma:

1º Domingo – Sl 90, 1-7. 11-16

2º Domingo – Sl 59, 4. 6

3º Domingo – Sl 122, 1-3

4º Domingo – Sl 124, 1-2

5º Domingo – Sl 128, 1-4

O Trato do Primeiro Domingo da Quaresma é bem conhecido dos entusiastas de canto gregoriano por ser consideravelmente longo, contando treze versículos, enquanto os outros contêm apenas dois ou três. Sua partitura no Graduale Romanum ocupa meia dúzia de páginas.

Antes do Evangelho, na Quaresma, temos um Trato mesmo quando se trata de Solenidade. É muito comum que a Solenidade de São José (19 de Março) e da Anunciação do Senhor (25 de Março) caiam na Quaresma, como em 2010. Uma Solenidade em meio à Quaresma utiliza até mesmo o Gloria, ausente das outras Missas; mas o Aleluia sempre precisará esperar a Páscoa.

O Aleluia, como disse, se estrutura numa forma ABA em que o Aleluia funciona como uma espécie de “refrão”; o Trato, porém, não tem refrão, utilizando os versículos e nada mais.

Se não o Graduale Romanum, mas o Lecionário for a fonte dos textos para a música, temos um refrão – na verdade, não um, mas um conjunto de refrãos possíveis. Eles são cantados também num ABA em alternância com um versículo. Há, portanto, duas opções num dado Domingo da Quaresma.

No Primeiro Domingo da Quaresma, a seguir o Lecionário teremos:

Louvor e glória a ti, Senhor, Cristo, palavra de Deus.
O homem não vive somente de pão, mas de toda palavra da boca de Deus.
Louvor e glória a ti, Senhor, Cristo, palavra de Deus.

... sendo o versículo o texto de Mt 4, 4.

No Missal em uso no Brasil são diversas as aclamações:

Glória e louvor a vós, Senhor Jesus
Louvor e honra a vós, Senhor Jesus
Louvor a vós, ó Cristo, Rei da eterna glória
Louvor e glória a ti, Senhor, Cristo, palavra de Deus
Glória a Cristo, palavra eterna do Pai, que é amor
Jesus Cristo, sois bendito, sois o ungido de Deus Pai

Aparentemente esta lista não é exaustiva. Embora em cada liturgia o Lecionário traga especificamente uma destas aclamações, aparentemente são intercambiáveis.

As aclamações quaresmais em latim são oito:

1. Gloria et laus tibi, Christe (Glória e louvor a vós, ó Cristo)
2. Gloria tibi, Christe, Sapientia Dei Patris. (Glória a vós, ó Cristo, Sabedoria de Deus Pai)
3. Gloria tibi, Christe, Verbum Dei (Glória a vós, ó Cristo, Verbo de Deus)
4. Gloria tibi, Domine, Fili Dei vivi (Glória a vós, Senhor, Filho de Deus Vivo)
5. Laus et honor tibi, Domine Iesu (Louvor e honra a vós, Senhor Jesus)
6. Laus tibi, Christe, Rex aeternae gloriae (Louvor a vós, ó Cristo, Rei da eterna glória)
7. Magna et mirabilia opera tua, Domine (Grandes e maravilhosas são vossas obras, Senhor)
8. Salus et gloria et virtus Domino Iesu Christo (Salvação, glória e poder ao Senhor Jesus Cristo)


Um exame destas aclamações mostra que, salvo engano, nem todas foram traduzidas para inclusão no Lecionário que usamos, e mesmo algumas outras ausentes desta lista foram adotadas, como a já listada “Jesus Cristo, sois bendito, sois o ungido de Deus Pai” e a estranha “Salve Cristo, luz da vida, companheiro na partilha”.

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Conheço alguns lugares, inclusive por Missas transmitidas pela televisão, em que a aclamação antes do Evangelho é repetida depois do Evangelho. Em muitas das vezes, esta repetição é acompanhada de palmas, cuja suposta intenção é a de dar glória à Palavra de Deus.

Em primeiro lugar: já se falou tanto da absoluta inconveniência das palmas na Liturgia que se faz desnecessário que eu aborde este assunto aqui.

Em segundo lugar: não existe nenhuma instrução para se cantar o Aleluia (ou outra aclamação) depois do Evangelho. Seu lugar é antes do Evangelho, e só. Repeti-lo é incorreto. Não só viola a Liturgia como causa confusão aos fiéis, que, ao vê-lo cantado uma segunda vez em certas igrejas, não entenderão por que em outras isso não é feito, podendo achar que algo ficou faltando (é mais raro que o fiel pense que algo esteja sobrando).

Por isso, coloco aqui um apelo pessoal pela extinção desta prática, especialmente nas Missas transmitidas pela televisão. Nada de repetir a aclamação; nada de aplausos.


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Em atenção à Quaresma, não postarei vídeos de Aleluias. Claro que sua omissão se aplica somente à Liturgia, e o leitor há de imaginar que, durante a Quaresma, coros e cantores precisam ensaiar Aleluias para a chegada da Páscoa. Mesmo assim, deixarei os Aleluias para o Tempo Pascal, assim o leitor se poderá rejubilar ainda mais com eles. Não ficaremos, entretanto, sem um Trato.

O Trato que ouviremos não é de nenhum dos Domingos da Quaresma, mas o das Missas Votivas da Santíssima Virgem, Gaude Maria Virgo.

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