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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O Ano da Fé e a Sagrada Liturgia

O Santo Padre proclamou recentemente um Ano da Fé, com início no dia 11 de outubro de 2012 – cinquentenário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II e 20 anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica  –, e fim na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo (24 de novembro de 2013). Trata-se de um “convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo” (Carta ap. Porta fidei, n. 6), com uma ênfase muito forte na catequese e na nova evangelização, como se pode entender do restante da proposta do Santo Padre.

A escolha da data inicial não se trata de mera coincidência, mas antes “ocasião propícia para compreender que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato João Paulo II, «não perdem o seu valor nem a sua beleza. É necessário fazê-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, no âmbito da Tradição da Igreja” (Ibid., n. 5). E o Sumo Pontífice ainda recordou as palavras do célebre discurso em que comentou, pela primeira vez como Papa, a questão da abordagem hermenêutica diante do Concílio, ruptura ou continuidade:
Quero aqui repetir com veemência as palavras que disse a propósito do Concílio poucos meses depois da minha eleição para Sucessor de Pedro: «Se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja». (Discurso à Cúria Romana (22 de Dezembro de 2005): AAS 98 (2006), 52)
O que o Ano da Fé tem a ver com a Liturgia? Tudo! Lex orandi, lex credendi. E o modo como a maioria das nossas celebrações litúrgicas acontece parece indicar ao mundo que nossa fé em nada difere de outras “opções” disponíveis no “mercado” das religiões, das seitas e da auto-ajuda. Mas se de fato cremos que o Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós, oferecendo-se a Si próprio em sacrifício ao Deus Altíssimo para nos resgatar das trevas do pecado, e que este sacrifício é perpetuado no tempo de forma incruenta por meio do Santo Sacrifício do Altar, é isto que nossas celebrações litúrgicas – em especial a Santa Missa – precisam dizer. Penso que é isto que o Santo Padre quis dizer quando falou que “sem a liturgia e os sacramentos, a profissão de fé não seria eficaz, porque faltaria a graça que sustenta o testemunho dos cristãos” (Carta ap. Porta fidei, n. 11). Afinal, de que adianta dizer “eu creio” se não há uma coerência de vida, tanto na vida secular como na vida espiritual? Como dizer “eu creio” e rezar como se não se cresse ou como se isso não fizesse diferença?

O Santo Padre nos indica o caminho. Conhecer e assimilar os textos do Concílio Vaticano II. E aqui entra a Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia. O primeiro documento a ser aprovado pelos padres conciliares, e certamente o primeiro a ser ignorado quando de sua aplicação prática. Que o Concílio Vaticano II quis uma reforma litúrgica, isso todo mundo sabe, afinal é quase que um dos únicos ponto do documento que se comenta. Curiosamente, estas pessoas que se dizem aplicadores da reforma litúrgica são as mesmas que dizem por aí que o Concílio aboliu o latim, que o Concílio quis o fim da celebração orientada (versus deum, ad orientem).

Não é nada disso que o Concílio quis dizer no tocante à Sagrada Liturgia porque não foi para nada disso que os 2147 padres conciliares deram seu placet, quando aprovaram o documento. O Papa Bento, no mesmo discurso citado acima, classifica como perigosa a hermenêutica da descontinuidade, que “afirma que os textos do Concílio como tais ainda não seriam a verdadeira expressão do espírito do Concílio”. Seguindo a chave hermenêutica do Papa, o que quis de fato o Concílio foi - apenas citando dois exemplos:
  • a conservação do uso do latim nos ritos latinos, deixando, porém, maior espaço para o vernáculo, especialmente nas leituras e admonições, em algumas orações e cantos (Sacrosanctum Concilium, n. 36);
  • a primazia do canto gregoriano na ação litúrgica, como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano, embora não se excluam outros gêneros de música sacra, como a polifonia (Sacrosanctum Concilium, n. 116);

Complementando o motu proprio que promulgou o Ano da Fé, no último dia 6, Solenidade da Epifania do Senhor, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou a “Nota com indicações pastorais para o Ano da Fé”. Alguns pontos que destaco, por estarem relacionados direta ou indiretamente com a Sagrada Liturgia e a ressacralização litúrgica que vem sendo promovida pelo Santo Padre ao longo de seu pontificado:

III. A nível diocesano 
1. Deseja-se uma celebração de abertura do Ano da Fé e uma solene conclusão do mesmo a nível de cada Igreja particular, ocasião para “confessar a fé no Senhor Ressuscitado nas nossas catedrais e nas igrejas do mundo inteiro” (Bento XVI, Carta ap. Porta fidei, n. 8). 
2. Será oportuno organizar em cada Diocese do mundo uma jornada sobre o Catecismo da Igreja Católica, convidando especialmente os sacerdotes, as pessoas consagradas e os catequistas. Nesta ocasião, por exemplo, as Eparquias orientais católicas poderiam preparar um encontro com os sacerdotes para testemunhar a sensibilidade específica e a tradição litúrgica próprias ao interno da única fé em Cristo; assim as jovens Igrejas particulares nas terras de missão poderão ser convidadas a oferecer um testemunho renovado daquela alegria na fé que tanto as caracterizam. 
5. Será oportuno controlar a assimilação (receptio) do Concílio Vaticano II e do Catecismo da Igreja Católica na vida e na missão de cada Igreja particular, especialmente em âmbito catequético. Neste sentido se deseja um empenho renovado por parte dos Ofícios catequéticos das Dioceses, os quais – com o apoio das Comissões para a Catequese das Conferências Episcopais ; têm o dever de providenciar à formação dos catequistas no que diz respeito aos conteúdos da fé. 
6. A formação permanente do clero poderá ser concentrada, especialmente neste Ano da Fé, nos Documentos do Concílio Vaticano II e no Catecismo da Igreja Católica, tratando, por exemplo, de temas como “o anúncio do Cristo ressuscitado”, “a Igreja, sacramento de salvação”, “a missão evangelizadora no mundo de hoje”, “fé e incredulidade”, “fé, ecumenismo e diálogo interreligioso”, “fé e vida eterna”, “a hermenêutica da reforma na continuidade”, “o Catecismo na preocupação pastoral ordinária”.

 
IV. A nível das paróquias / comunidades / associações / movimentos
2. O Ano da Fé “será uma ocasião propícia também para intensificar a celebração da fé na liturgia, particularmente na Eucaristia (Ibid., n. 9). Na Eucaristia, mistério da fé e fonte da nova evangelização, a fé da Igreja é proclamada, celebrada e fortalecida. Todos os fiéis são convidados a participar dela conscientemente, ativamente e frutuosamente, a fim de serem testemunhas autênticas do Senhor.
3. Os sacerdotes poderão dedicar maior atenção ao estudo dos Documentos do Concílio Vaticano II e do Catecismo da Igreja Católica, tirando daí fruto para a pastoral paroquial – a catequese, a pregação, a preparação aos sacramentos – e propondo ciclos de homilias sobre a fé ou sobre alguns dos seus aspectos específicos, como por exemplo “o encontro com Cristo”, “os conteúdos fundamentais do Credo”, “a fé e a Igreja” (Cf. Bento XVI, Exort. Ap. Pós-Sinodal Verbum Domini, 30 de setembro de 2010, nn. 59-60 e 74)

Finalizo, seguindo as indicações da Nota pastoral, com um apelo a todas os clérigos e aos leigos que, de alguma forma, trabalham com a liturgia, em pastorais e grupos de acólitos: leiamos a Sacrosanctum Concilium, para que os seus 130 pontos sejam verdadeiramente recebidos e aplicados, e para que a forma ordinária do Rito Romano seja celebrada com toda a dignidade e zelo que é devido ao Santo Sacrifício.
Estou convencido de que a crise na Igreja, pela qual passamos hoje, é causada em grande parte pela decadência da liturgia, que às vezes é concebida de uma maneira etsi Deus non daretur [Como se Deus não existisse], isto é, que nela não importa mais se Deus existe e se Ele nos fala e nos escuta. Quando, porém, na liturgia não aparece mais a comunhão da fé, a unidade mundial da Igreja, o mistério de Cristo vivo, onde, então, ainda aparece Igreja, em sua essência espiritual? Aí a comunidade ainda celebra somente a si mesma, mas isso não vale a pena. E já que a comunidade por si só nem existe, e é sempre formada somente pela fé, sendo criada como unidade pelo Senhor, é inevitável, naquela suposição, que a Igreja se divida em partidos de todo tipo, e os grupos se oponham uns aos outros dentro de uma Igreja que se dilacera a si mesma. Por isso precisamos de um novo movimento litúrgico, que dê vida à verdadeira herança do Concílio Vaticano II.” (Cardeal Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI, Lembranças da Minha Vida, Paulinas, São Paulo, 2006)
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