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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Por que a música católica está uma bagunça?

Publicado originalmente em 9 de Dezembro de 2011 no Chant Café, este é mais um ótimo texto do Jeffrey Tucker.

Em alguns trechos (poucos), Tucker fala de situações que fazem mais sentido nos Estados Unidos (como o cartel de editoras que acabam controlando o repertório litúrgico); entretanto, o texto quase inteiro é uma descrição excelente da atual situação da música litúrgica na Igreja Católica, tanto no Brasil, como nos Estados Unidos e na maioria dos outros países onde vivem católicos.

Para o leitor ter uma ideia, o artigo obteve, em pouco tempo, lá no Chant Café, 72 comentários...

O leitor pode ler o texto original neste endereço: Why is Catholic music such a mess?

As notas do tradutor aparecem em vermelho, entre colchetes.

*

Esta pergunta me é feita com tanta frequência que justifica um artigo. Um homem católico, tentando firmar-se mais na sua Fé, mas que não assiste à Missa regularmente, decide que é hora de tentar de novo. Ele vai a uma paróquia perto da sua casa. A procissão de entrada lhe diz: não mudou nada desde a última vez. Ele range os dentes o tempo todo. Na hora da Comunhão, já está enlouquecendo. No canto final, já enlouqueceu. Ele vai para o estacionamento xingando mentalmente, irritado, lembrando-se de por que não vai à igreja com freqüência. 
O problema é a música. É música pop mal tocada por pessoas que, no entanto, parecem se orgulhar da sua performance. Durante toda a Missa, o homem se pergunta: como é que pode acontecer que a mais bela liturgia, produto de dois mil anos de tradição, seja reduzida a isso? E, mais importante que isso, não há nada que se possa fazer a esse respeito? 
Recebo telefonemas e e-mails com histórias parecidas com esta, e já faz anos. O forte contraste entre a realidade e o que eles lembram de como é a Missa, ou imaginam como possa ser, é demais para se tolerar. 
Vejo meu trabalho aqui uma tentativa de acalmar as pessoas e lhes mostrar que a origem do problema não é, como pensam, a princípio, metafisicamente maliciosa. Não precisamos de um expurgo, mesmo que seja uma ideia tentadora. A solução também não é um salto para um futuro autoritário no qual um bispo ou o Papa imponham um certo repertório e lancem fora todo mundo que não o siga, por mais satisfatória que seja tal fantasia. 
Há várias razões principais pelas quais este problema persiste, e essas razões se relacionam entre si de maneira complexa. Esclareçamos primeiro que os próprios músicos experimentam certo desconforto em relação ao que fazem. Eles não têm certeza absoluta de que estão realmente contribuindo com a liturgia. Sentem uma espécie de desconexão com o que está acontecendo no altar. Não têm clareza quanto à propriedade da música que estão fazendo. Porém, são voluntários (isto é, não são pagos), conscientes de que ninguém parece ter objeções, e recebem elogios de tempos em tempos. Então, assim eles raciocinam, eles podem muito bem continuar a fazer o que fazem, isto é: aparecer meia hora antes da Missa e escolher hinos e fazer o que já sabem como se faz. [O que Tucker chama de "hinos" não são os hinos litúrgicos que fazem parte do Ofício, mas a música não-litúrgica que acaba entrando na Missa, sejam relativamente sóbrios como os de antes, sejam as canções pop de hoje] Eles não veem o cenário mais amplo. Eles não imaginam aquilo que não sabem fazer e compreender musicamente. 
A questão número um, no meu ponto de vista formado ao longo de uma década de estudo, é que os próprios músicos não conhecem o assunto. A maioria das pessoas que estão fazendo música na Igreja Católica não possuía nem mesmo uma compreensão rudimentar das exigências musicais do Rito Romano. Elas não sabem quais as partes da Missa que constituem o Ordinário. Elas não sabem que o Próprio da Missa existe. Elas não têm ideia de como a música se relaciona à palavra ou ao calendário (além de Natal e Páscoa). Elas não sabem o que é obrigatório, o que é opcional, o que é escolha da Igreja, o que é escolha da editora de música, o que é da tradição, nem como diferenciar a música litúrgica genuína da música não-litúrgica. 
E é porque isto nunca lhes foi explicado. Uma razão para nunca terem aprendido isto é que muito poucas pessoas realmente têm essa compreensão. Você pode participar de dez convenções nacionais [ou certos cursos], ler dez livros, assinar todas as publicações sobre liturgia, ler sites o dia inteiro, falar com o seu pároco e predecessores, e mesmo assim nunca descobrir estes pontos básicos da liturgia católica e suas exigências musicais. Sim, você vai se deparar com slogans e com o conhecimento de que “o povo” tem que participar, mas não participa (é sempre mais fácil focar no pecado dos outros), mas só.
A informação essencial quanto ao papel da música é desconhecida, e este problema não é sério apenas na raiz; chega também no topo. De novo, não é a malícia que evita a difusão desse conhecimento; é que existe tanta informação que se perdeu nestas décadas confusas que existe muito pouca gente que realmente entende. 
O segundo problema é que os recursos para uma verdadeira contribuição musical com a liturgia estão faltando há algumas décadas. O livro de música do Rito Romano, o Gradual Romano, é desconhecido de 98% dos músicos da Igreja Católica. Eles nunca viram um exemplar, nem sequer ouviram falar dele, embora seja mencionado tanto no Missal quanto na Instrução do Missal (IGMR). Mesmo na improvável possibilidade de que tenham visto o livro, eles não sabem ler nem a língua (latim) nem a notação (pauta de quatro linhas). Eles não sabem que há versões em inglês disponíveis. [Lembrando que o autor do texto é americano. Da nossa parte, precisamos de música litúrgica em português. O Salvem a Liturgia tem trabalhado nisto, e certamente existem trabalhos feitos nos países de língua portuguesa que merecem e precisam ser difundidos] Se eles soubessem que há, não saberiam como obter. 
Historiadores que examinaram este problema de perto notam que tudo isso começou na década de 1960 como uma extensão do problema que já existia antes do Concílio Vaticano II. Numa cultura de Missas Baixas, era comum substituir o Próprio cantado por hinos e o Próprio recitado. [Missa Baixa é o nome dado à Missa apenas rezada, não cantada, na Forma Extraordinária do Rito Romano. Às vezes imaginamos o passado como um paraíso de Missas Altas com canto gregoriano e polifonia o tempo todo, todo Domingo. Nem sempre era o caso; onde não houvesse tais recursos artísticos, humanos e materiais, a Missa Baixa era a regra, por força das circunstâncias. Isto é o que o autor chama de "cultura de Missas Baixas"] Quando o estilo dos hinos, nos anos 60, mudou de pesadão para modernete, o Próprio da Missa ficou de lado. Por isto é que foi nos anos 60 que começaram a aparecer os sinais daquilo que muitos veem como uma corrupção. A música pop começou a dominar, primeiro como canções que substituíam o Próprio. Só mais tarde tornou-se comum a substituição dos cantos do Ordinário da Missa por outros que combinavam com o estilo das novas canções. No começo da década de 1970, a limp­­­eza tinha sido geral. Toda a música da Missa tinha uma cara completamente nova. Quando o Gradual Romano da Forma Ordinária foi publicado em 1974, a questão já tinha sido resolvida e o livro foi largamente ignorado. 
Há outros problemas, claro. Fala-se sobre o problema do cartel de editoras. Mas, como sempre lembro às pessoas, o jeito de lidar com este problema é simplesmente uma questão de mudar o mercado. Você tem que mudar as preferências de compra dos consumidores. É muito simples. Você pode fazer isto sem legislação, batidas policiais, intimidação ou beligerância. É apenas uma questão de oferta e demanda. Nos mercados, produtos vêm e vão. Se você não gosta daquilo que vende, apoie outra coisa. 
E quanto a legislação e decretos? Declarações vindas do alto? Imposições da autoridade? Não considero nada disto como parte de soluções reais. Continuará a haver declarações, assim como tem havido já faz décadas. Elas não são tão importantes quanto a verdadeira mudança de corações por meio de experiências reais. Por isto é que colóquios educacionais e conferências são tão importantes. E é por isso que o Parish Book of Chant [Livro Paroquial de Canto] e os Simple English Propers [Próprios Simples em Inglês] são também tão importantes. [Esses dois livros são publicações recentes que contêm música litúrgica autêntica para uso nos Estados Unidos, de fácil obtenção, preço baixo e, muito importante: permanentes] Nós precisamos dos recursos. E precisamos de dinheiro para financiar a produção desses livros e conferências – e doadores generosos (benditos sejam!) são poucos. 
Isto é meu esboço do mundo que herdamos e de como devemos trabalhar para mudá-lo. Existe uma solução para o problema e ela pode acontecer rápido. Não precisamos de décadas. Mas precisamos de paixão, trabalho, ajuda financeira e oração.
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