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terça-feira, 29 de março de 2011

Música litúrgica: o Sanctus


O Sanctus, quarta parte do Ordinário da Missa, precedido pelo Kyrie, pelo Gloria e pelo Credo, apresenta o simbolismo do número 3 ao proclamar “Santo, Santo, Santo”. Mais uma vez, a Liturgia tem a Escritura como principal fonte, e falo especificamente do livro do santo profeta Isaías, capítulo 6, versículo 3:

Bíblia Ave Maria - 3. Suas vozes se revezavam e diziam: Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo! A terra inteira proclama a sua glória!

Bíblia da CNBB - 3. Exclamavam um para o outro: “Santo, santo, santo é o SENHOR dos exércitos, a terra inteira está repleta de sua glória.”

Vulgata - 3. et clamabant alter ad alterum et dicebant sanctus sanctus sanctus Dominus exercituum plena est omnis terra gloria ejus

Neo Vulgata - 3. Et clamabat alter ad alterum et dicebat: “Sanctus, Sanctus, Sanctus Dominus exercituum; plena est omnis terra gloria eius”.

O leitor poderá perceber que, destas quatro traduções, três escolheram a palavra “exércitos”, inclusive as traduções para o latim; lembremo-nos de que o original é hebraico. Uma delas escolheu a palavra “universo”, a mesma da tradução oficial, para o português, do texto litúrgico. A versão latina da Liturgia não fala em exércitos; mantém, sim, a palavra “Sabaoth”, do texto original hebraico, uma espécie de sugestão da impossibilidade de traduzi-la adequadamente.

Entretanto, ela realmente significa “exércitos”, e não há dificuldade na tradução. A manutenção de “Sabaoth” se deve ao fato de que “Senhor dos Exércitos” é um hebraísmo que pode acabar sugerindo algo diferente do verdadeiro para a mentalidade não-hebraica. Tais exércitos são os exércitos celestiais, e conservar a palavra hebraica num texto latino transmite melhor a ideia de que não falamos de qualquer exército. O texto litúrgico em português, entretanto, preferiu “Senhor do Universo”.

Uma segunda palavra hebraica faz parte do texto do Sanctus: “Hosana”. Seu significado original é uma súplica por salvação, mas logo se tornou uma aclamação triunfal. Mais uma vez a fonte é a Escritura: Mt 21, 9.

Bíblia Ave Maria - 9. E toda aquela multidão, que o precedia e que o seguia, clamava: Hosana ao filho de Davi! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!

Biblia da CNBB - 9. As multidões na frente e atrás dele clamavam: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto † dos céus!”

Vulgata - 9. turbæ autem quæ præcedebant et quæ sequebantur clamabant dicentes osanna Filio David benedictus qui venturus est in nomine Domini osanna in altissimis

Neo Vulgata - 9. Turbae autem, quae praecedebant eum et quae sequebantur, clamabant dicentes: “Hosanna filio David! Benedictus, qui venit in nomine Domini! Hosanna in altissimis!”.

Temos, finalmente, o texto litúrgico em português:

Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do Universo.
O céu e a terra proclamam a vossa glória.
Hosana nas alturas.
Bendito o que vem em nome do Senhor.
Hosana nas alturas.
E em latim:

Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus Sabaoth.
Pleni sunt coeli et terra gloria tua.
Hosanna in excelsis.
Benedictus qui venit in nomine Domini.
Hosanna in excelsis.

Infelizmente, mais uma vez somos obrigados a ressaltar o fato de que o texto do Sanctus é exclusivamente o que acabo de citar. O motivo que se apresenta mais uma vez são os constantes abusos dessas palavras na forma de modificações e inserções.

Existe no Brasil um conhecido Sanctus em português que, creio poder dizer, todo católico sabe cantar, e é considerado por muitos como “tradicional”, e talvez até “antigo”, na atual cultura de considerar antigas as coisas cuja idade passe de uns trinta ou quarenta anos. É fácil referir-se a esse Sanctus justamente pela inserção indevida feita no texto:

O Senhor é Santo, o Senhor é Santo, o Senhor é Santo
O Senhor é nosso Deus, o Senhor é nosso Pai
Que seu reino de amor se estenda sobre a terra.
O Senhor é Santo, o Senhor é Santo, o Senhor é Santo
Bendito o que vem em nome do Senhor
Bendito o que vem em nome do Senhor
Hosana, Hosana, Hosana.

As repetições que não constam do texto original podem até ser consideradas lícitas, mas não custa lembrar que o canto gregoriano não faz isso nunca. Em todo caso, texto repetido é mais comum na tradição polifônica, e não nas monodias. Especialmente num texto do qual faz parte uma repetição evocadora de um número simbólico, o 3, as repetições de outras partes ou a alteração dessas três aclamações para quatro ou cinco acabam enfraquecendo o simbolismo.

Embora a famosa composição cujo texto é o que citei ali não seja uma monodia gregoriana, é uma melodia única destinada ao canto a uma voz só. De qualquer maneira, realmente incorretas são as adições feitas ao texto.

Desconheço a autoria desta música, e o julgamento nada tem de pessoal, mas ela não deve ser utilizada na Liturgia.

Um caso bem pior, sobre o qual cheguei mesmo a escrever um texto específico aqui no Salvem a Liturgia, é o famoso “Santo dos Anjos”. Dói-me profundamente citar-lhe o texto, mas lamentavelmente terei que fazer isso.

Santo, santo, santo, dizem todos os anjos
Santo, santo, santo, é o Senhor Jesus
Santo, santo, santo, é quem os redime
Porque meu Deus é Santo e a terra cheia de sua glória está
Porque meu Deus é Santo e a terra cheia de sua glória está

Céus e terras passarão, mas Sua Palavra não passará    
Céus e terras passarão, mas Sua Palavra não passará
Não, não, não passará
Não, não, não passará

Hosana a Jesus Cristo, filho de Maria
Bendito o que vem em nome do Senhor
Santo, santo, santo, é quem os redime
Porque meu Deus é Santo e a terra cheia de Sua glória está
Porque meu Deus é Santo e a terra cheia de Sua glória está

Céus e terras passarão, mas Sua Palavra não passará
Céus e terras passarão, mas Sua Palavra não passará
Não, não, não passará
Não, não, não passará

O texto é tão diferente do litúrgico que talvez pudesse ser registrado para fins de cobrança de direitos autorais. Talvez seja exagerado pensar assim, considerando inclusive que uma das inserções abusivas foi tomada da própria Escritura: céus e terra passarão, mas Sua palavra não passará. E isto aparece quatro vezes no texto; não contente, a letra diz “não” diversas outras vezes, e quero fazer desse “não” um “não” a essa composição absolutamente indigna da Liturgia. A rítmica da música é de algum tipo de dança folclórica brasileira, talvez nordestina, o que deve ser deplorado especialmente pelos devotos nordestinos. O nordeste do Brasil, já alvo de tantas caricaturas, tem sua cultura mais uma vez usada de modo ridículo no contexto mais errado possível, a Santa Missa.

Quase sempre acompanhada de palmas (outro erro inadmissível na Liturgia), esta composição se usa em muitos lugares do Brasil no lugar do Sanctus, a poucos minutos da consagração. Para mim, pessoalmente, é um dos símbolos máximos da decadência litúrgica e ainda, por extensão, da decadência intelectual do Brasil. Não hesito em pedir que seja permanentemente banida na companhia de diversas outras composições inadequadas.

Na Santa Missa em Rito Romano o Sanctus conclui o prefácio, texto cujo canto ou recitação cabe ao sacerdote, logo depois do diálogo:

-O Senhor esteja convosco.
“-Ele está no meio de nós.” (cuja correção para “e com teu espírito” aguardamos!)

-Corações ao alto.
-O nosso coração está em Deus.

-Demos graças ao Senhor nosso Deus.
-É nosso dever e nossa salvação.

Sacerdote: Na verdade, é justo e necessário (...)

Em latim:

-Dominus vobiscum.
-Et cum spiritu tuo.

-Sursum corda.
-Habemus ad Dominum.

-Gratias agamus Domino Deo nostro.
-Dignum et iustum est.

Sacerdote: Vere dignum et iustum est (...)

Todos os prefácios começam com “Na verdade, é justo e necessário”, variando o restante do texto de acordo com o dia litúrgico. Todos eles terminando com “cantando a uma só voz” ou “dizendo a uma só voz”, ao que se segue o Sanctus. A expressão “uma só voz” indica união dos exércitos celestiais e dos fiéis na Terra, de toda a Igreja, exaltando o Deus Altíssimo; não tem significado técnico musical e não proscreve a polifonia.

Na figura a seguir o leitor pode ver uma partitura gregoriana das últimas frases do prefácio, em latim, seguida do texto latino do Sanctus.


A partitura do Sanctus está ausente pois se encontra em outro livro, o Graduale Romanum, ou então no Kyriale. Na Missa Tridentina (a Forma Extraordinária do Rito Romano), mesmo que um coro cante o Sanctus, o sacerdote o recita em voz baixa, logo depois do prefácio.

Na Forma Ordinária (o rito de Paulo VI, introduzido em 1969-1970), o sacerdote prossegue com a Oração Eucarística assim que se termina o canto do Sanctus. Na Forma Extraordinária isso não é necessário, pois o celebrante recita em voz baixa as orações. Se o Sanctus se alonga, entretanto, ele deve aguardar seu término antes de proceder à consagração.

Dentro do repertório gregoriano o Sanctus mais simples é o de número XVIII. Utiliza apenas três notas, aparecendo uma vez somente uma quarta nota na primeira sílaba do segundo “Hosanna”. Seu aprendizado não apresenta dificuldades, sendo uma ótima peça para figurar entre as primeiras abordadas por um grupo ou estudante solitário. Não por acaso é que faz parte do livreto “Jubilate Deo”, compilado a mando do papa Paulo VI e enviado por ele aos bispos do mundo inteiro como “presente pessoal”, contendo o repertório gregoriano mínimo para os fiéis.


do qual constam gravações dos diversos ordinários gregorianos, onde encontrará também o Sanctus XVIII gravado no Mosteiro de São Bento de São Paulo. Muitas pessoas têm conhecido o canto gregoriano por meio desse site, e somos muito gratos a tão boa iniciativa.

Como nos outros artigos desta série sobre o Ordinário, mostro uma parte da Missa Papae Marcelli, de Palestrina. No vídeo abaixo coro canta todo o Sanctus de Palestrina, mas não o Benedictus, cantado de acordo com a melodia constante do Sanctus XVIII. Lembremo-nos de que Palestrina é por muitos considerado o maior compositor litúrgico católico; viveu de 1525 a 1594 e, tendo composto muitas Missas, dedicou esta a Marcelo II, o papa que tanto incentivou seu trabalho e reinou por apenas 22 dias no ano de 1555.
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