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sábado, 29 de maio de 2010

A dimensão sensível na liturgia

Não se pode estudar o homem desconhecendo que se trata de um ser profundamente integralizado por suas diferentes facetas. O aspecto espiritual reflete-se no intelectual, bem como no cultural, no sentimental, e assim por diante. Uma análise que queira ter sucesso nesse campo precisa, desse modo, ser necessariamente uma análise integral.

Se é assim em qualquer campo de estudo, o é também na liturgia. Embora culto a Deus, a liturgia é culto a Deus oferecido por pessoas e, sendo atividade humana, também nela estão presentes as distintas dimensões do homem.

Nesse sentido, a sensibilidade é uma área que não pode ser descurada. Sim, a finalidade do culto público é a adoração a Deus, mormente pela Santa Missa, na qual Cristo renova Sua entrega ao Pai pelo perdão dos pecados da humanidade. Todavia, há um aspecto secundário mesmo nas ações dirigidas primariamente a Deus, que é a edificação do homem. Quando cultua o Senhor, volta o homem edificado. E essa edificação é, como ação humana, refletida em todas as suas dimensões, incluindo a sensível.

A narração do esplendor das cerimônias católicas, antes do período de crise por que passsaram a partir dos anos 70, nos mostra almas que, adorando a Deus, edificavam-se espiritualmente também pelo entusiasmo diante da beleza. O Cardeal Ratzinger, em sua vasta literatura sobre teologia litúrgica, não hesita em conferir à sensibilidade e à estética do culto um papel importante na evangelização dos povos. É bem verdade, repetimos, que o apostolado não é o fim da liturgia, porém dela pode decorrer aquele, sem sombra de dúvida.

O fausto nas Missas pontificais, a beleza das velas e tochas em uma procissão de Corpus Christi, a sobriedade solene do canto gregoriano, o espetáculo espiritual da polifonia sacra, o profundo gosto estético de paramentos bem escolhidos, a delicadeza na composição das orações litúrgicas, o cuidado com cada gesto cerimonial, o aparato externo da celebração, bem como o contexto de todo o drama litúrgico, sobretudo o que desemboca no Calvário renovado pela Missa, fala claramente à dimensão sensível do homem. É por isso que, para combater a excessiva austeridade do culto protestante, a Igreja incentivou a arte barroca que, com certos exageros lícitos, procurava cativar o homem e impedi-lo de ser seqüestrado pela frieza da liturgia da Reforma.

Evidentemente que, historicamente, a liturgia dos primórdios não era tão elaborada quanto a que se desenvolveu nos anos imediatamente anteriores à Idade Média. Todavia, nunca foi semelhante ao rigor impassível e, diria, desumano, do protestantismo. A ação de Cristo na Sexta-feira Santa, morrendo no Calvário, não foi algo normal, e sim revestido de profundo impacto externo: a batalha dramaticamente espiritual no Getsêmani, a vigília a ponto de sua sangue, terremoto e céus escurecendo, mortos ressuscitando e andando por Jerusalém, o véu do Templo se rasgando de alto a baixo, o perdão de São Dimas. Mesmo a antecipação da Cruz na última ceia não foi um culto frio à moda protestante, mas algo que recordou o ricamente elaborado ritual judaico da Páscoa, e com uma multitude de sinais: o lava-pés, as palavras que indicavam que o pão e o vinho eram agora Seu Corpo e Seu Sangue, e o convite à oração no horto. Definitivamente, a liturgia católica nasceu simbólica.

Ademais, por sua raiz gnóstica, o protestantismo vê um eterno conflito, sem possibilidade de armistício, entre a matéria e o espírito, e, se quer salvar o último, sacrifica o primeiro. Daí o desprezo, cada vez mais freqüente, à medida em que avançam as distintas seitas protestantes, pelo aspecto mais pomposo do cerimonial litúrgico. Nós, católicos, não desvinculamos o homem de seus múltiplos aspectos. O homem que deve ser salvo é o homem inteiro, espírito e matéria. Daí que nossa liturgia, ao prestar culto a Deus, presta-o com toda a sua integralidade humana: é a adoração, como pedia Cristo, em espírito e em verdade. E, se o homem todo cultua ao Senhor, o homem todo volta edificado desse encontro em que precisa até mesmo descalçar as sandálias.

Foi por desconhecer ou ignorar todo esse pensamento, que acompanhou a Igreja desde os primórdios – lembremos que a luta contra a heresia do gnosticismo foi a primeira a ser travada pelos teólogos católicos –, que se introduziu, a partir da segunda fase do movimento litúrgico (pelos anos 30 em diante), certos elementos puristas que desejaram uma liturgia desapegada de certos conteúdos mais sensíveis.

A motivação desses liturgistas estava certa: a liturgia não se pode imiscuir irresponsavelmente com outros aspectos da vida espiritual a ponto de desvalorizar o que é essencial. Entretanto, as conclusões tiradas esse desvio – chamado por isso, liturgicismo – são equivocadas: tudo o que não é essencial (como as devoções privadas, o terço, os belíssimos paramentos, o esplendor do culto, as explicações alegóricas dos ritos etc) é ruim. Ora, isso passa claramente dos limites, pois ignora o desenvolvimento da liturgia e o próprio fato de que nasceu distinta do mover-se comum do homem.

É do liturgicismo que nasce o que se costuma chamar minimalismo litúrgico. Se o essencial na liturgia é o sacrifício de Cristo e, por extensão, aquilo que diretamente a ele se refere, sendo todo o resto (beleza dos paramentos, uso generoso do incenso, canto gregoriano, orações ao pé do altar, último Evangelho) meramente acidental, então esses acidentes devem ser removidos. O minimalismo litúrgico, impregnado de liturgicismo, considera o acidental um mal, e essa postura deriva da mesma matriz gnóstica que originou o protestantismo. Ela antagoniza o acidental ao essencial, e até mesmo não distingue, entre os acidentes, que alguns são mais importantes do que outros, e que a linguagem simbólica da liturgia existe para que o homem saiba o que está fazendo ao cultuar a Deus e, secundariamente, seja edificado em sua integralidade.

Do minimalismo litúrgico não está livre, é verdade, a reforma conduzida por Mons. Bugnini. Sem embargo, esse equívoco em termos de liturgia se fez presente menos nas rubricas do Novus Ordo do que num comportamento geral de liturgistas impregnados dos erros liturgicistas. Se as instruções advindas da reforma davam a opção de escolher entre o vernáculo e o latim, entre o versus populum e o versus Deum, entre o uso ou não do incenso, sempre se passou a escolher, salvo raríssimas exceções – como no Vaticano ou em grupos tidos como mais conservadores – pela alternativa menos pomposa. Até mesmo as permissões pontuais para, em situações excepcionais, se usar ministros leigos na distribuição da Comunhão Eucarística ou do sacerdote trajar túnica e estola ao invés de alva, amito, cíngulo, estola e casula, se tornaram a regra, ainda que contra a lei.

O pensamento liturgicista foi além do que diziam as rubricas – pouco claras, é verdade, e que, no dizer de alguns, foram imprecisas o suficiente para que se adotassem as opções mínimas na quase totalidade dos casos.

Diziam: o altar é essencialmente para o sacrifício? Removam-se as velas, que, aliás, na sua idéia, estavam em demasia, e todos os demais objetos. Assim, para o deleite dos gnósticos liturgicistas, o altar digno e simbólico de Cristo e Sua soberania, se tornou nada mais do que uma mesa de banquete, à moda protestante, e, em casos mais radicais, um cubo amorfo perdido no presbitério.

Outro exemplo é o dos acólitos. Precisa-se apenas de um ou dois que exerçam, de fato, funções bem claras, e, em Missas mais solenes, alguns outros para ajudar o Bispo. Todos os demais, que serviam para embelezar, dar solenidade ao rito, ou despertar nos jovens a vocação sacerdotal, deveriam ser eliminados, pois acidentais. E o acidente, para o liturgicista, é algo a ser evitado. Em celebrações solenes, era comum, pela própria dignidade da celebração, colocar vários acólitos. Era um modo de dignificar, de solenizar, de chamar a atenção. A função não é apenas pragmática, mas de embelezamento. Mas, claro, o minimalismo litúrgico não “casa” bem com esse tipo de pensamento...

A arquitetura eclesiástica e a arte litúrgica também sofreram com o liturgicismo e sua aversão à beleza tradicional e às devoções – rechaço de imagens do Sagrado Coração, por exemplo.

O apego à letra das rubricas, desconectando-as do espírito litúrgico tradicional que permeou nosso rito, também é um fruto do minimalismo.

O resultado disso foi a frieza de certas celebrações litúrgicas, que já se delineavam nos anos 50 e 60, e passaram a dominar os ambientes, europeus e norte-americanos sobretudo, nos 70 e início dos 80.

Não tardou a reação. O homem, desejoso de simbolismo, vindo a perdê-lo na liturgia católica, buscou-o em outro local.

E o próprio protestantismo, outrora tão frio e austero, já trilhava um caminho de recuperação simbólica, ainda que, por desvinculado da verdade, com sinais um tanto quanto estranhos. Daí, em níveis mais comedidos, os coros gospel das igrejas batistas de negros americanos, ou o southern gospel profundamente enraizado na mentalidade dos cowboys brancos presbiterianos e batistas, a vivacidade dos reavivamentos, sobretudo metodistas, e, em ambientes mais radicais, a histeria de certos grupos pentecostais, seus gritos, suas unções, suas “quedas” no Espírito Santo.

No seio do catolicismo, essa perda do simbolismo foi sentida de tal forma que movimentos do tipo “encontrista” procuraram em seus retiros e reuniões, recuperar o senso de sagrado. Isso se viu, por exemplo, nas “orações de mãos dadas”, nos momentos de espiritualidade com luzes apagadas (para gerar um ambiente emocional), nas canções religiosas de conteúdo adocicado e intimista, e, nos últimos anos, pela invasão do pentecostalismo católico, com suas palmas na Missa, seu pop-rock, seus êxtases.

Minou o minimalismo litúrgico a expressão sensível da fé, e, em sua falta, se a buscou em outros ambientes, sedento que estava o homem da mesma. Como disse, informalmente, o Prof. Carlos Ramalhete:

O efeito que os carismáticos procuram com um violão com pedal de delay arpejando acordes menores enquanto uma voz empostada proclama inanidades é uma caricatura patética do efeito de um coral gregoriano em uma igreja na penumbra, com incenso flutuando no ar. Quando eles tiverem acesso às riquezas da liturgia clássica, é extremamente provável que encontrem nelas a busca do sensível que os move a destruir a liturgia moderna.

É por isso que, embora a maioria dos mais velhos de hoje – que eram jovens rebeldes nos anos 60 – não goste da liturgia romana em sua forma extraordinária, ou, quando se trata da forma ordinária, desprezam o latim, o canto gregoriano, e tudo o que lembra algum viés tradicional, o gosto por todas essas riquezas se acha presente entre muitos jovens. Sofreram demais a frieza e não gostaram do inverno litúrgico. Alguns buscam “aquecer-se” na distorção do sensível dos templos neopentecostais – com suas rosas ungidas, suas correntes de prosperidade com pastores impondo as mãos sobre o povo, seus exorcismos fantásticos –, ou na versão católica da busca por espiritualidade “palpável”. Outros, em contato com a Missa pós-conciliar bem feita – ainda que sem desvincular-se totalmente de alguns defeitos do liturgicismo –, ou com a Missa tridentina, consideram-nas a melhor proteção contra a geada minimalista que cai sobre suas cabeças.

Nesse diapasão, a promoção da liturgia bem feita, com farto uso de latim, incentivo ao gregoriano, paramentos bonitos, efeitos estéticos visualmente aferíveis, constitui-se, sim, em poderosa ferramenta de evangelização. Ainda que o motivo principal por que defendemos a Missa tradicional e a Missa moderna de acordo com as rubricas seja outro – a inclusão no desenvolvimento orgânico da liturgia, a melhor expressão da fé católica no sacrifício da Missa e nos dogmas eucarísticos, o culto a Deus como Ele quer ser cultuado –, não se pode olvidar desse aspecto acessório que muito lembra o velho conselho: a beleza salvará o mundo!

Um comentário:

  1. Nunca antes havia lido um artigo que analisasse de forma tão clara a verdadeira situação da liturgia católica nos nossos tempos e os diversos fatores que a levaram a tal estado de penúria...Parabéns ao Dr. Rafael!

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