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terça-feira, 13 de julho de 2010

Beato Cardeal Schuster: Poesia e música nas sinaxes eucarísticas, parte II, final

Continua e termina aqui o texto Poesia e música nas sinaxes eucarísticas, do Beato Ildefonso Cardeal Schuster. A primeira está publicada neste link. Comunicamos aos amigos que estão sendo preparadas novas traduções de escritos do Beato Schuster, as quais esperamos publicar em breve.

Imagem de liberius.net
Ildefonso SCHUSTER
Beneditino
Cardeal-Arcebispo de Milão
(1880-1954)
*

D-)

Aparentada à salmodia antifonada e responsorial é aquela que poderíamos quase chamar de litânica, isto é, de versículos alternados entre o sacerdote e a assembleia, e cujos traços Baumer crê poder encontrar desde o primeiro século. Os antigos comumente lhe davam o nome de Litania. Diferentemente das formas salmódicas precedentes, a litania não tomava seu texto exclusivamente do Saltério; e, mesmo quando dependia dele, era com tanta liberdade que a composição salmódica perdia sua unidade literária (mantida inalterada pela antifonia e pelo responsorius) para se tornar um vivo diálogo entre o povo e o celebrante. Emancipando-se do texto do Saltério, a litania representou novo frescor de inspiração, um excelente senso de atualidade e crescimento do vigor espiritual.

A última parte de nossa Litania Maior, ou litania dos santos, e as preces do Breviário na Hora Prima e nas Completas, estão entre os mais belos exemplos desta litania, que era antigamente como a fórmula de transição entre a vigilia e a Missa que seguia, na aurora. A coleta caracterizava a litania, cujo pensamento geral resumia e determinava. O Gloria que agora, na Missa, se interpõe entre a oração litânica e a coleta, representa uma interpolação de origem mais recente.

E-)

Bem diferente da salmodia alternada era o salmo in directum ou tractus, confiado exclusivamente à habilidade de um solista. Cassiano conta que os monges do Egito celebravam suas vigílias noturnas recitando doze salmos in directum: parili pronunciatione, contiguis versibus; e São Bento prescreveu a salmodia in directum nos ofícios diurnos, quando o pequeno número de monges os desobrigava da salmodia antifonada. O in directum é o gênero salmódico mais fácil e mais cômodo, e acabou por prevalecer universalmente no uso eclesiástico. Tanto Cassiano como São Bento observaram que era o único gênero de salmodia indicado para comunidades pouco numerosas, cujos membros já estivessem exaustos pelas tarefas do dia.

O in directum é assim chamado tractus, e no entanto tractus não indica nenhum gênero especial de salmodia in directum supostamente mais grave ou ornada de melodias mais ricas. Alguns querem atribuir sua origem ao andamento lento da execução; outros pensam que significa simplesmente a continuidade salmódica que lhe é própria, isto é, sem nenhum refrão intercalado.

O fato é que o directaneum do solista, precisamente por ser mais ágil e menos fatigante, era preferido pelos antigos monges egípcios; o subtrahendo, prescrito para o invitatório responsorial das vigílias é, ao contrário, na Regra de São Bento, sinônimo de morose, e indica uma execução bem diferente.

Mais recentemente alguns liturgistas quiseram reconhecer no tractus um caráter quase lúgubre, próprio, portanto, aos tempos penitenciais. Observemos, enquanto isso, que o tractus Laudate Dominum da Vigília Pascal, e o oitavo tom gregoriano ao qual pertencem muitos tractus não são nada inspirados pela tristeza nem pelo luto; veremos que o tractus era mesmo o cântico dos Domingos e das Festas da Liturgia Romana, antes da introdução do versículo aleluiático para todos os Domingos fora da Quaresma.

O solo do cantor e a continuidade da modulação salmódica, sem nenhuma interrupção nem refrão da assembleia, eram as características do tractus. Menos importante, ao contrário, nos parece o fato de que, na Liturgia Eucarística, o tractus seja coordenado intimamente à lição escriturística que o prece (Cf. Cantemus Domino do Sábado Santo e as Benedictiones do Sábado das Têmporas, depois da lição dos três jovens na fornalha).

F-)

O psalmus gradualis não é, propriamente falando, um gênero salmódico distinto, mas indica simplesmente um cântico responsorial cujos solos são executados nos degraus do ambão. Alguns autores dizem que deriva de uma transformação do tractus, depois de este se haver revestido de uma forma melódica muito mais ornamentada e de caráter antifônico, tornando-se assim uma verdadeira antifonia responsorial. Sabemos, porém, que o responsorius-gradualis já estava em uso antes de São Leão I e coexistia com o gradual.

Mas antes de terminar esta rápida revisão das diversas formas salmódicas utilizadas pelos antigos, devemos ao menos mencionar a lei que mede e determina a estética de todos esses prolongamentos melódicos e refrãos. Queremos falar do paralelismo, que é como um eco entre dois membros de um mesmo versículo salmódico.

O paralelismo bíblico foi definido por Dom Cabrol como a rima dos pensamentos e dos sentimentos; ela nos conserva como o último traço da forma poética primitiva dos salmos e dos cânticos, compostos segundo leis métricas que estudos recentes nos revelaram pela primeira vez.

A redundância dos paralelismos é comparável a um sereno equilíbrio da alma sobre as pias afeições, cuja suavidade o espírito inebriado evoca; é o efeito de um pensamento intenso, complexo, que deseja ser traduzido em partes e repetições, prolongando assim o deleite espiritual da alma.

O paralelismo antitético, ao contrário, diferentemente da redundância, se oferece como um violento contraste de sombra e luz, e por vezes por elevar o lirismo religioso a uma altura que nenhum outro gênero literário profano atingiria com facilidade. Mas nestes dois paralelismos o elemento característico que nos importa aqui é a ligação recíproca e o apelo mútuo dos diversos membros do versículo ou das partes de um salmo; é precisamente o que constitui o fundamento estético da salmodia em estrofes e em forma responsorial. Enquanto o Salmo 70 nos oferece numerosos exemplos de paralelismo em semiversículos, o Salmo 106 nos apresenta quatro medalhões de incomparável candura, separados entre si por um mesmo versículo eucarístico: Confiteantur Domino misericordiae eius, et mirabilia eius filiis hominum [Agradeçam ao Senhor por sua misericórdia, e pelas maravilhas em favor dos homens].

[Os "quatro medalhões" são: um pobre perdido no deserto, que vai morrer de fome; um prisioneiro; um enfermo; um navio agitado pela tempestade prestes a submergir nas águas. O versículo eucarístico de que fala o Beato Schuster se repete nos versículos 8, 15, 21, 31 deste Salmo 106]

Reencontramos, assim, as origens de nossas formas salmódicas menos nos costumes da sinagoga do que nas próprias leis da estética literária dos povos semitas, dos quais nós, aedificati super fundamentum Apostolorum et Prophetarum [edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas], herdamos, com pleno direito, não apenas o depósito bíblico, mas também o veículo artístico que o envolve. É, pois, momento de examinar o emprego que dele fez a Igreja, a qual, como a esposa mística prefigurada no Cântico de Débora, distribui, toda jubilosa, aos fiéis, o tesouro com a qual é enriquecida por seu Divino Esposo em regresso do combate, vencedor da morte e do inferno.
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