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terça-feira, 27 de abril de 2010

Música litúrgica - a Seqüência

Este texto é uma espécie de adendo, porque, embora pertença à série de artigos sobre o Próprio da Santa Missa, devota-se a um item ausente da lista de cinco que coloquei ao iniciá-la, em Fevereiro de 2010. A lista era:

-Introito
-Gradual/Salmo Responsorial
-Aclamação antes do Evangelho
-Ofertório
-Comunhão

Hoje falo da Seqüência, que ainda grafo com trema porque... sem trema não dá.

Textos anteriores da série:

Introito
Salmo Responsorial
Gradual
Aclamação antes do Evangelho

Se a Seqüência não está na lista do Próprio, por que tem que ser abordada? Porque podemos dizer que a seqüência faz, sim, parte do Próprio, e a lista poderia ter seis itens. Não a coloquei lá porque atualmente são pouquíssimas as seqüências da Liturgia, embora bem conhecidas.

Na Idade Média as seqüências nasceram como adições feitas ao Alleluia antes do Evangelho. Como o leitor viu no texto sobre a Aclamação antes do Evangelho, a vogal a do Alleluia, nas melodias gregorianas, é estendida por um melisma (muitas notas); esta extensão é chamada de jubilus e, às vezes, era chamada também de sequentia. Em certo momento, alguns começaram a escrever versos (em latim) para a sequentia.

Esta palavra passou a designar também hinos metrificados e rimados, e algumas seqüências são hoje nossas conhecidas, mas não como seqüências; é o caso de Ave maris stella (Ave, estrela do mar):

Ave maris stella
Dei mater alma
Atque semper Virgo
Felix caeli porta.

Uma tentativa de tradução: Ave, estrela do mar, cara Mãe de Deus, sempre Virgem, feliz porta do céu. Tentativa, porque traduções literais são um pouco difíceis de encontrar. Como o texto original é metrificado, é comum que se façam traduções também metrificadas, o que modifica um pouco o poema.

Ave maris stella, especificamente, é um conhecido hino de devoção mariana, prescrito também por ambas as formas do Ofício Divino (Ordinária e Extraordinária) como hino das Vésperas das comemorações da Santíssima Virgem. Composto no século VIII (isto é, tem mais de mil e duzentos anos de idade), este canto faz parte do patrimônio fabuloso que não temos o direito a desprezar.

O papa São Pio V, ao codificar em 1570 o Rito Romano, eliminou da Liturgia da Santa Missa um grande número de seqüências, mantendo somente quatro. No século XVIII, uma quinta foi introduzida (o Stabat Mater), e a lista passou a ser esta:

Victimae Paschali Laudes – na Páscoa da Ressurreição
Veni Sancte Spiritus – em Pentecostes
Lauda Sion Salvatorem – em Corpus Christi
Dies Irae – Missas dos defuntos
Stabat Mater – Nossa Senhora das Dores

A reforma litúrgica de 1969-1970 aboliu o uso do Dies Irae nas Missas dos Fiéis Defuntos e o prescreveu, dividido em partes, como hinos para as diversas horas do Ofício Divino durante a Trigésima-Quarta Semana do Tempo Comum (depois de Cristo Rei, logo antes do Advento). Suas vinte e uma estrofes foram distribuídas igualmente entre o Ofício das Leituras, Laudes e Vésperas.

Muitos de nós gostaríamos de ver o Dies Irae de volta às Missas dos Fiéis Defuntos na Forma Ordinária e, se não é mesmo pecado sugerir coisas específicas para a reforma da reforma, tenho certeza de não estar sozinho na defesa desta restauração.

Por enquanto, continuamos com quatro seqüências no Rito Novo. Porém, de acordo com a IGMR:

64. A seqüência que, exceto nos dias da Páscoa e de Pentecostes, é facultativa, é cantada antes do Aleluia.

- isto é, apenas duas delas são obrigatórias, a considerar a letra da lei.

Este número 64 da IGMR também nos informa quando a seqüência é cantada: antes da Aclamação antes do Evangelho. Trata-se de outra mudança da reforma litúrgica de 1969-1970; antes dela a seqüência era sempre cantada depois da Aclamação, e antes do Evangelho.

O Graduale Romanum, mesmo em sua edição para o Rito Novo, manda cantar a Seqüência depois da Aclamação. Debate-se de que instrução é a precedência (Gradual ou Missal?). A prática descrita pelo Graduale Romanum é a prática tradicional; por outro lado, se argumenta pela maior autoridade do Missal no que se refere a rubricas.

Deixo o leitor, finalmente, com os vídeos das cinco seqüências do Rito Romano, já que o Dies Irae é integrante do Forma Extraordinária.

Veni Sancte Spiritus (Seqüência de Pentecostes), com a Schola Gregoriana Mediolanensis e o professor Giovanni Vianini



Lauda Sion Salvatorem (Seqüência de Corpus Christi), com os seminaristas de Écône



Stabat Mater (Seqüência de Nossa Senhora das Dores), com o professor Giovanni Vianini



Victimae Paschali Laudes (Seqüência da Páscoa da Ressurreição) em Missa Tridentina em Łódź, Polônia, 2008



Dies Irae (Seqüência dos Fiéis Defuntos) com o professor Giovanni Vianini

9 comentários:

  1. Legal esse post... sempre gostei das sequências, mas nunca sabia o que eram exatamente. ^^ Gosto do Victimae Paschali Laudes com as improvizações de órgão de Pierre Cochereau e do Veni Sancte Spiritus composto por Guillaume Dufay. :)

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  2. Correção: a Sequência é "cantada depois do Aleluia" (IGMR 64)

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  3. O texto de que disponho diz "antes do Aleluia". Que acontece?

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  4. Augusto a tradução da IGRM provavelmente possui um pequeno erro de tradução. O texto latino da IGMR diz claramente: "ante", isto é, antes.

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  5. Acho que a IGMR anterior, da segunda edição, falava em "depois", e, para se adaptar ao Graduale, mandou que se cantasse "antes".

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  6. Agradeço a explicação. E peço desculpas ao Alfredo. Encontrei uma discussão interessante a respeito deste assunto em http://musicasacra.com/forum/comments.php?DiscussionID=1826

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  7. Augusto: imagina, não é caso para se desculpar. Eu vasculhei bastante antes de colocar no texto a informação sobre "antes" ou "depois", e, sinceramente, até agora a questão não está totalmente clara para mim. Parece-me lícito, no Rito Novo, cantar a Seqüência tanto antes como depois - mas é o que me parece, apenas, não quero colocar isto como informação definitiva. Agradeço muito sua participação, peço que escreva sempre.

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